Dentro — 16 Janeiro 2010

A avaliar pela maioria dos espectáculos da última temporada e pelos aplausos do público da (reduzida) bancada em cima do palco da Culturgest, no final de “Hanare”, solo de Aldara Bizarro estreado em Guimarães o ano passado, a programação de dança daquela instituição está a ir de mal.. a pior!
Desta vez (numa colaboração coreográfica com Francisco Camacho) Aldara Bizarro – sem particular fisicalidade bem disfarçada por um engenhoso figurino de Carlota Lagido – propôs ao público da capital uma “task dance”, coroada por um improviso final, num espaço cénico pejado de… grãos de café! Um projecto ideal para deleitar a pendurada em andaimes “inteligentzia” da dança contemporânea portuguesa, algo entediante na forma e especialmente desinteressante no conteúdo – houve quem tivesse saído a meio – que (felizmente) dura apenas uma hora. Para além disso, traz à memória duas outras peças de referência, o magnífico dueto “Grain”, assinado e interpretado pelo casal japonês Eiko e Koma, e o equívoco máximo da defunta “nova dança portuguesa”, “Torrefacção”, de Madalena Vitorino. A primeira, porque dois grandes artistas do butô conseguiram, com grande lentidão e pouco mais do que grãos de cereais espalhados pelo chão, uma obra tocante, extremamente focada e prenhe de significado. A segunda, porque se tratou de um badalado exercício “in situ” de não-dança, protagonizado por amadores desajeitados que carregavam sacos de café e amontoavam chicória com pás, com um ar de grandes intelectuais (da dança) estampado nos esvaziados rostos, já há muito esquecido!
Basicamente, Aldara Bizarro, vestida em tons de ouro, começou por empilhar cerca de sete dezenas de sacos de papel metalizado e dourado. Quando terminou a tarefa empunhou majestaticamente um arco e disparou sete flechas fazendo com que os primeiros grãos de café (Delta) se estatelassem no solo. O passo seguinte foi esfaquear uns 50 sacos espalhando café pelo proscénio para depois o esmagar com uns sapatos de salto alto e tornozelos desequilibrados. O odor não podia ser mais delicioso, sobretudo para os que adoram o cheiro da apreciada bebida. Como não podia deixar de ser, seguiu-se um “momento” de “dança de impossibilidades” – muito ao jeito de Vera Mantero – com a artista espojada no chão a debitar umas palavras balbuciadas e disformes presas na garganta. Como epílogo surgiram os melhores cinco minutos do espectáculo em que um percurso com movimento improvisado se fez num corredor translúcido cercado de pano branco, à volta do palco, muito bem iluminado por Carlos Ramos.
A música de Nuno rebelo mostrou-se efectiva e, por vezes, algo prodigiosa quando certas sonoridades acentuaram deliberadamente algumas das actividades propostas pelos dois coreógrafos.
Mas “Hanare”, está irremediavelmente datado, pelo menos para quem conhece um pouco mais de dança do que a que se faz no eixo Culturgest – Black Box, do CCB.
Se nos reportarmos à norte-americana dos anos 60 e 70, as diferenças são substanciais na sofisticação das produções e, naturalmente, nos gastos. Então, aquele tipo de danças (de tarefa) era feito nos lofts novaiorquinos – quase sempre também para um grupo restrito de amigos e conhecidos – mas sem as avultadas verbas sacadas aos impostos dos contribuintes. Hoje em Lisboa, leia-se, distribuídas pela cega Direcção-Geral das Artes, que depende do descuidado Ministério da Cultura!

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Antonio Laginha

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