Dentro — 01 Novembro 2018
BATSHEVA NO CCB: UMA ESTRANHA VIAGEM À VENEZUELA

Desde que se tornou num coreógrafo de moda, com o seu “movimento Gaga”, o israelita Ohad Naharin, faz enorme sucesso com a sua Batsheva Dance Company em todo o mundo. Designadamente junto das camadas jovens que veem nas suas obras uma janela para o mundo contemporâneo, com todos os seus mistérios e inquietações.
Ainda que o espectáculo que trouxe ao Centro Cultural de Belém (CCB), no dia do Halloween, se chame “Venezuela” e pouco ou nada tenha a ver com o país em causa, o público do Grande Auditório foi bastante receptivo aplaudindo com entusiasmo a vibrante obra.
É claro que teria sido bastante curioso que, para além desta peça, se pudesse ver também em Portugal, “Canine Jaunâtre 3”, um trabalho da cabo-verdiana Marlene Monteiro de Freitas – que ganhou este ano o Leão de Prata da Bienal de Veneza – que Naharin lhe encomendou para a Batsheva.
O coreógrafo nascido em 1952 num kibutz, é bem conhecido dos portugueses já que teve várias obras interpretadas pelo extinto Ballet Gulbenkian e, mais recentemente, também pela Companhia Nacional de Bailado.

“Venezuela” é uma peça com quase hora e meia, monocromática e com uma cenografia muito frugal, apenas uma parede preta à volta do palco como se de um muro se tratasse. Mas não é um muro como o que separa Israel da Palestina, alto e impenetrável, mas sim uma barreira visual que deixa entrar e sair dos bastidores os bailarinos, que se revezam em cena.
Já a coreografia que, estranhamente, apresenta em diversos momentos pares a executar algumas “rotinas” de danças de salão, acaba por se verificar ser esquematizada de um modo bastante cerebral. Permitindo, contudo, (ou melhor, deixando no final) que cada bailarino interprete um solo mais ou menos improvisado e em que, deliberadamente, pode mostrar sem restrições, todas as suas capacidades físicas e de virtuosismo.


A dança começa com cerca de uma dezena de bailarinos a caminhar lentamente no centro do proscénio de costas para o público, ao som de “cantos gregorianos”. Vestidos (por Eri Nakamura) com roupas negras todas diferentes, os artistas, todavia, parecem sempre manter a sua individualidade no movimento. A determinada altura dois homens, à boca de cena, gritam em uníssono para um microfone e depois os restantes bailarinos surgem com uns panos que agitam. Seguidamente cobrem com eles um dos rapazes, no solo, como se estivesse morto. Mais à frente vem a perceber-se tratarem-se de bandeiras com as cores do pavilhão venezuelano que surgem após uma segunda secção em que cinco mulheres sentadas nas costas dos seus parceiros permanecem imóveis enquanto eles gatinham lentamente no palco. O som que passa da suavidade dos cantos religiosos para a violência de uma turbina de avião é extremado, criando um efeito muito particular – e premeditado – nos espectadores.

O badalado “movimento Gaga”, solto e  despojado, alimenta toda uma dança que doseia com grande habilidade os momentos de maior agitação com faixas mais calmas, sem nunca deixar a plateia alheia ao que se vai desenrolando em cena. 

Por último, uma referência para os bailarinos que são poderosos, de uma endurance impressionante e de uma maleabilidade extraordinária. Nesse conjunto de 16 artistas cem por cento focados e duzentos por cento envolvido num projecto que talvez nem eles próprios conheçam o real significado, sobressai o português Hugo Marmelada que se apresenta (também) como um dos “rapazes do microfone”.

O coreógrafo, ao propor ver duas vezes seguidas a mesma composição de cerca de quarenta minutos, desafia o espectador a extrair dela significados, sentimentos e imagens diversas. Porém, sendo a dança a mais efémera de todas as artes e dependendo quase em exclusivo dos corpos dos bailarinos, não consegue duplicar-se com exactidão qualquer faixa coreográfica por mais rigor que se ponha na execução. Aparecem, pois, elementos novos que fazem o público jogar com a memória recente ainda que esse exercício seja, por vezes, de grande subtileza mental. E esse risco, em muitos casos, é não só a maior qualidade da arte da dança, mas, também o seu mais precioso mistério.

 

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Antonio Laginha

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