Dentro — 05 Outubro 2016
L’VELTRO: O ELOGIO DO GESTO NO LUGAR NOBRE DA PALAVRA

 

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A 24 ª Quinzena de Dança de Almada – que decorre entre 29 de Setembro e 22 de Outubro na “margem sul” – abriu este ano com duas estreias absolutas, “The Art of Losing”, de São Castro – para Companhia de Dança de Almada – e “L’Veltro”, um dueto coreografado e interpretado por Elson Ferreira e Bruno Duarte. Esta dança teve estreia a 4 de Outubro, com casa quase cheia e com uma plateia maioritariamente jovem e bastante entusiasta.

Frouxamente inspirado no clássico de Dante Alighieri, “O Inferno” – livro primeiro da Divina Comédia – a dupla apresentou-se no palco descarnado e negro do Cine-Teatro da Academia Almadense, perante um público, que se parece ter revisto num trabalho meticuloso e povoado por uma longa sucessão de imagens. E, sobretudo, numa interpretação rigorosa e focada em que ambos os bailarinos puseram em relevo uma corporalidade e “endurance” invejáveis. Ainda assim, a obra que dura cerca de uma hora tendeu a desgastar-se num certo racionalismo e na abrangência da proposta. Grande parte da peça – cujo título significa, em italiano antigo, cão de caça ágil, veloz e bem treinado, geralmente de raça galgo – desenvolve-se através de uma gestualidade que pressupõe uma espécie de sucessivas narrativas mais ou menos detectáveis e onde as “influências” da obra supra citada são pouco perceptíveis. As mãos de ambos os intérpretes (vestidos com calças e camisas escuras) desenham, durante muitos minutos, uma geografia algo privada e tentam reflectir um tipo de “léxico” que os corpos acompanham com vigor e, frequentemente, em uníssono. Elson – que há pouco deixou o Quorum Ballet – mostrou-se mais assertivo, passando, sem hesitações, a mensagem que o seu corpo elástico, expressivo e muito bem treinado pretendeu veicular, enquanto Bruno, por vezes, caiu num movimento um pouco mais translúcido.  

Provavelmente o mais interessante na dramaturgia da peça são os vários tipos de relação que os dois homens assumem entre si ao longo da obra. A determinada altura, e depois de ser, basicamente, dominado por Elson, Bruno fá-lo capitular atirando-o ao chão e colocando-lhe na cintura escapular uma trela de coiro. Obrigando-o, seguidamente, a obedecer como um animal fragilizado e sem alternativa. A ligação entre ambos sofre, pois, um volte-face inesperado parecendo adquirir alguns contornos de sadomasoquismo, passando de um contacto físico amistoso a cenas de marcada violência.

A ligação com o passado – ou melhor, ao livro em causa e às imagens sugeridas aos criadores por Alighieri – surge numa gola branca florentina que Elson coloca à volta do pescoço sem, no entanto, elaborar muito sobre esse adereço. A determinada altura Bruno liberta-se da sua camisa e começa a arrancar (de modo a que o público siga esse episódio) pedaços de pele sintética que se percebe estarem colados ao seu tronco. Essa acção, que não tem continuidade formal, é, todavia, marcante e deixa no ar alguma dose de espanto e, até, de mistério.

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O movimento dos bailarinos desenvolve-se quase todo num mesmo nível e os dois artistas passam grande parte do tempo lado a lado no centro do palco – onde se vê apenas uma mesa e uma cadeira – ao som de músicas contemporâneas (de Andreas Ammer & F. M. Einheit, Colin Stetson e Jed Kurzel) e clássicas com assinatura de Lizt, Beethoven (7ª Sinfonia) e Donizetti – ária do “Elixir do Amor”, na voz do célebre tenor Enrico Caruso.

A acção adquire aspectos espaciais mais atractivos quando, mais no final, os intérpretes vão iluminando, uma a uma, diversas lâmpadas de néon estrategicamente espalhadas pelo palco, sem, no entanto utilizarem esses itens da cenografia em acções posteriores ou tirando partido da única coisa que brilha em cena.

Apesar de não deixarem, nem por momentos, os espectadores se desligarem do “alvo”, pena foi que não explorassem de um modo até mais “sentimental” algumas (valiosas) pistas que surgem ao longo do trabalho. Aquilo que resultou numa peça sem cedências, forte, inteligente, cerebral e corrida, e que aposta, em grande parte, no poder físico e na persuasão emocional – e, porque não, também numa certa chantagem visual com a plateia – poderia, deliberadamente, apresentar outro tipo de cambiantes. Por exemplo, uma maior aposta numa escrita coreográfica mais luminosa e menos dirigida ao virtuosismo físico dos intérpretes. Eles que, generosamente, nos brindaram com uma obra dura e intranquila mas que deixou no ar a impressão de que não se tenham esforçado muito por passar ao lado de material coreográfico que lhes é orgânico e familiar.

António Laginha

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