Dentro — 16 Julho 2014
COMPANHIA DE OLGA RORIZ NO CCB: DANÇAS SOBRE… TURFA

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Se há coisa que se não pode dizer de Olga Roriz é que não é uma coreógrafa experiente e prolífica. Só neste ano já fez três obras bem diferentes na temática e no seu aspecto visual. Umas mais teatrais que outras e a última, mais para bailarinos do que para actores falantes estreada no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), tem por título apenas uma palavra: Terra.

Ora, com tal proposta, haveria que esperar mais do que movimento sobre… terra. E tal não augurava nada de muito original. Apesar de se falar especificamente de um dos quatro elementos o que surgiu a cobrir o imenso palco do CCB foi turfa, um material de origem vegetal parcialmente decomposto que, por levantar poeira, de longe mais parecia serradura.

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A obra começa com um longo quarto de hora em que três bailarinas e dois bailarinos – desta vez sem Pedro Santiago Cal que ao fim de muitos anos deixou a companhia – fazem um curto percurso (dos bastidores ao centro do palco) sobre panos e peças de roupa que vão despindo. E aí sacam de um recipiente e tomam café ou chá em conjunto. Resta acrescentar que entram trajados como uma certa formalidade – como há uns cem anos – e acabam por ficar com umas roupas leves e sem qualquer expressão, sem sapatos nem constrangimentos, no resto da obra. Estão, pois, prontos para durante mais de uma hora atirar-se para o solo – de todas as maneiras possíveis e imagináveis – e levantar-se, repetidamente. De uma introdução, com alguns laivos de romantismo, num período mais ou menos reconhecível pelos figurinos, passam (depois da bebida) para um espaço intemporal e a relativa calma desemboca num frenético encadeamento de sequências de movimento que vão esgotando e sujando os corpos suados e exaustos.

Maria Cerveira e Bruno Alves em “Terra”

Foto: Rodrigo de Souza

O trabalho desenvolve-se todo no plano horizontal – o da turfa que “suja” os corpos e envolve os intérpretes – e em outro negro, vertical e vazio. Aliás, a ausência de qualquer cenografia faz, por vezes, sentir que os intérpretes ficam algo esmagados perante a avassaladora volumetria do vazio. O som que acompanha toda a peça de Roriz, como já é hábito, trata-se de um “pot-pourri” variado e estimulante para os intérpretes. Excepto quando, em certas situações, a “música” mais parece um barulho de fundo vindo de um aparelho de ar condicionado avariado.

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Em resumo, “Terra”, que é fisicamente violenta para todos os artistas, desemboca numa coreografia que pauta pela abstracção, temperada por hábeis e atractivos cânones. Talvez por isso não é uma peça memorável e, pelo que se pôde ler no programa, pode ser acerca de tudo e de… nada. Também não é particularmente interessante em termos visuais – da cenografia aos figurinos -, nem do acompanhamento musical, porém, os seus cinco intérpretes (Maria Cerveira, Marta Lobato Faria, Patrícia Henriques, Bruno Alexandre e Bruno Alves) revelaram-se excepcionais e debitaram, sem hesitações, movimento marcadamente mecânico em busca do sentido e do lugar do corpo. O problema maior é que, lembrando Pina Bausch – que fez danças sobre terra, água e ar, só lhe faltando fazer os seus bailarinos dançar sobre o fogo – o mais importante pode não ser a maneira como embarcam naquela busca. Mas sim a razão porque fazem tal viagem … e isso, tudo leva a crer, que poucos ou nenhuns verdadeiramente entenderam!

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Antonio Laginha

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