Dentro — 26 Maio 2014
BALLET STATIQUE NO TEATRO DO BAIRRO

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O colectivo com o curioso nome de Fungo, formado por artistas oriundos de áreas tão distintas como o teatro,  o design gráfico e a vídeo-arte, apresentou em estreia no Teatro do Bairro, em Lisboa, o seu “Ballet Estático”.

Trata-se de uma peça interdisciplinar que tem vindo a ser afinada já há alguns meses por Lucília Raimundo, no movimento, Lucas Gutierrez, no vídeo, Nuno Patrício, no som, e Lígia Resende, na câmara. O grupo, que tem trabalhado na criação e difusão de projectos com linguagens artísticas diversificadas, com especial ênfase na música e audiovisuais, inspirou-se (livremente) num proposta histórica de Fernand Léger, o “Ballet Mécanique” (1924). Este filme – sem qualquer narrativa detectável – explorava o movimento e a dinâmica das formas e apresentava uma sucessão alucinante de imagens desfilando em sincronia com a música expressamente criada por George Antheil. A ténue ideia de bailado surgia, então, apenas associada à fluidez do movimento humano.

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A fulgurante evolução tecnológica dos últimos anos fornece-nos hoje ferramentas altamente sofisticadas para explorar toda a espécie de temas e conceitos na área do audiovisual (música, movimento e vídeo) fazendo deste “Ballet Estático” um espectáculo híbrido que conjuga composições digitais com inputs de uma câmara em cena e em que as imagens em tempo real se misturam com outras trabalhadas. Para o colectivo, a ideia de estática, apresenta-se “enquanto uma combinação de forças que se equilibram entre si e também através da figura da televisão, um dos símbolos do ambiente tecnológico, num sistema em equilíbrio que permite determinar as forças internas de um corpo que se movimenta por impulsos audiovisuais”.

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Porém, o espectáculo nada tem de estático, no sentido semântica da palavra – imóvel ou parado – pois a bailarina sozinha em cena cerca de uma hora segue uma matriz coreográfica bem dinâmica. Ainda que possam existir algumas zonas de improvisação, eventualmente as mais repousantes, o movimento toca as imagens, e vice-versa, com uma certa criatividade.

O Teatro do Bairro, com um palco de dimensões reduzidas, é um local de encontros informais e de bom astral o que, à partida, proporciona um bom ambiente entre o público e, mesmo, um saudável convívio entre este e os artistas. Um ecrã e um par de computadores – um em cada lado do palco – é tudo quanto o público vê estático já que em acção estão os dois homens que manipulam som e imagem e uma bailarina, de ar andrógino, vestida por Maria Ribeiro. O seu fato de desportista e sapatos de ténis não parecem ter uma relação directa com as imagens projectadas, a preto e branco e a cores, aparecendo Lucília Raimundo muitas vezes em silhueta, distorcida ou desmultiplicada por vários planos. A música que acompanha o movimento é forte e com um ritmo consistente proporcionando à bailarina uma performance com energia e vitalidade. Os momentos altos do espectáculo são, seguramente, aqueles em que o corpo e imagem interagem, resultando numa espécie de animado diálogo entre o real e o imaginário.

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Antonio Laginha

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