Fora — 29 Setembro 2012
A PERIGOSA BELEZA DA SOLIDÃO

Aos 63 anos e com uma carreira cheia de sucessos, Ushio Amagatsu o mentor, líder, coreógrafo e bailarino principal do (actualmente) mais famoso grupo de butô do Mundo, Sankai Juku, abriu uma (feliz) excepção realizando a estreia de “Umusuma” na Ópera de Lyon.

Para a Bienal da Dança, esse facto per si já se trata de um acontecimento ímpar, uma vez que o grupo japonês masculino há muito vem, mais precisamente desde de 1982, concedendo o privilégio das suas estreias europeias no parisiense Théâtre de la Ville.

É claro que, nos últimos tempos o butô de Amagatsu tornou-se mais zen e menos vibrante, mais esbranquiçado e menos guerreiro e até mais contemplativo e menos interventivo, porém, esteticamente, irrepreensível. Já perdeu muito do mistério e, muito do que se foi em conteúdo (na espuma dos tempos) ganhou em… patine e consenso. A época em que a meia dúzia de exóticos artistas se pendurava de cabeça para baixo a grandes alturas há muito que acabou. Aliás, depois de um deles ter caído para a morte. Essa “perigosa beleza”, anos depois, deu origem a uma “assexuada narrativa do inatingível”.

A obra, cujo título significa “o país onde nascemos” começa, tal como “Onetsu” – exibida nos Jardins da Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa nos anos 80 – com um fio de areia que cai, sobre um homem branco no centro de dois enormes espaços quadrado desenhados no palco. Segundo o coreógrafo, a obra desenrola-se num local bastante limitado mas onde se encontram, em sentido algo figurado os elementos naturais : terra, ar, água e fogo. Amagatsu procura, através de uma dança ritualística, meditativa e fora do seu tempo, exprimir emoções universais, sendo que os seus temas ultimamente não parecem variar muito, sobretudo a nível visual. Já que o que muda nos espectáculos parece ser muito mais a cenografia e os figurinos. Vem a talhe de foice referir que estes têm vindo a tornar-se peças de verdadeiro “design”, ao contrário dos que, no início, bem mais toscos se inseriam numa herança do butô de raiz muito contundente e, historicamente, creditado a Hijikata.

Porém, em “Umusuma”, Amagatsu cujas criações no passado quase tocavam o clima de horror e devastação causados pelos bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki ocorridos no final da Segunda Guerra Mundial contra o Império do Japão, sem esquecer o recente acidente nuclear de Fukushima afasta-se diametralmente de todas aquelas catástrofes concebendo um trabalho sereno e, acima de tudo, intemporal.

Para além de dois quadrados no solo com um caminho a meio, o cenário apresenta duas grandes balanças suspensas que sobem e descem ao longo da peça. A obra começa com uma figura careca e branca de tronco nu que se contorce e ondula os braços. É Amagatsu que faz a introdução a solo antes de um quarteto de homens vermelhos aparecer num palco tingido de “sangue”. Com saltitantes bolas nas orelhas e um visual requintado, os artistas parecem gritar em silêncio deslocando-se de um quadrado para o outro a andar ou aos saltos. Depois surge um trio que desliza pelo chão, e mais um quarteto, um solo e um final sempre com movimentos rasteiros e animalescos. A determinada altura surge a meio do palco uma imagem muito bem engendrada: um fio de água produzido pela iluminação, sendo que a peça adquire, de imediato, uma dimensão mais lúdica e naturalista.

A partitura musical revela-se o elo mais fraco de “Umusuma”- uma peça linear e sem grandes brechas – podendo, mesmo, afirmar-se que o seu lado comercial fere em muito o movimento (sempre minimal), deixando-o mais vulnerável aos silêncios e  respirações. Isso não impede que cada um daqueles sete homens, andróginos e de pele lisa, nos pareçam ilhas, na sua solidão, profundidade e calculada contenção.

Certo é que o grupo está mais exposto e o próprio Amagatsu – que protagoniza todos os momentos solísticos – parece mais individualista mas mais aberto ao púbico tendo abandonado, definitivamente, os artifícios e imagens chocantes do passado. Um passado já não muito recente em que a palavra butô significava “dança da completa escuridão”.

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Antonio Laginha

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