Ler — 16 Janeiro 2008

Já na recta final do ano de 2007 saiu um livro de dança em Portugal!
Esta afirmação, só por si, é, em simultâneo, credora de espanto e júbilo, porque o nosso país deve ser o mais carenciado na Europa em publicações nesta área.
Livros portugueses para a faixa infanto-juvenil, que se saiba, só existe um à venda, “O Segredo de Natália” (Difel, 2001); em termos de história da dança, ainda nos continuamos a “reger” pela “História” de José Sasportes, editada pela Fundação Gulbenkian em 1971, e consultar “Portugal 45-95 nas Artes, nas Letras e nas Ideias” (uma obra saída em 1998, encomendada pelo Centro Nacional de Cultura); de crítica de dança e informação cronológica, tivemos “Dançaram em Lisboa”, uma antologia com a chancela de Lisboa’94. Possivelmente já não se encontram à venda um livro com belas fotos de azulejaria sobre temáticas de dança, de Daniel Tércio, “Dança e Azulejaria no Teatro do Mundo” (Inapa, 1999) e “O Livro da Dança”, o primeiro de Gonçalo M. Tavares (Assírio e Alvim, 2001) com um título algo enganador já que se situa entre a evocação poética e o aforismo!
O título do novíssimo trabalho saído do prelo, “ Dança Teatral – Ideias, Experiências, Acções”, também não é feliz, mas é um estudo bem elaborado e sério sobre uma dança “temporariamente contemporânea”, vista pelos olhos de Maria José Fazenda.
Trata-se de uma edição, sob a chancela da Celta Editora, extraída de uma tese de Doutoramento em Antropologia defendida em 2006, no ISCTE, em que se analisa o trabalho de três criadores, dois norte-americanos, Merce Cunnigham e Bill T. Jones e um português, Francisco Camacho, com o intuito de “demonstrar que a dança teatral é uma prática reflexiva de interesse sociocultural”.
M.J. Fazenda “parte à descoberta dos elementos da vida real que os três autores transportam para as suas obras, que utilizam nos seus espectáculos e da forma como a sociedade os reconhece”. Antes, a autora recorre a investigadores como Susan Leight Foster, Francis Rust e Yvonne Daniel, para estabelecer conceitos complexos tais como dança “teatral", "social" e "ritual”, e a coreógrafos-professores que criaram técnicas sólidas e didácticas amplamente reconhecidas na “dança moderna”.
O estudo recai sobre três artistas que se situam não só em épocas muito diferentes como são fruto de "escolas" e realidades muito diversas. Alargando-se a dois dos nomes mais iconoclastas do actual panorama europeu, o francês Jerôme Bel e a portuguesa Vera Mantero, ambos inseridos num movimento contemporâneo designado por muitos por “não-dança”. Remete-se também para alguns artistas associados ao novaiorquino Judson Dance Theatre, dos anos 60 e, de seguida, viaja até França citando trabalhos de Hervé Robbe, Boriz Charmatz, Matilde Monnier e Daniel Larieu, e Alemanha, através da omnipresente Pina Bausch.
Apesar do incontornável interesse de obras teóricas sobre Dança, é pena que algumas teses defendidas em faculdades como a de Motricidade Humana, sobre temas e História da Dança Portuguesa não tenham saído do (mais que restrito) círculo académico e as prateleiras das nossas livrarias continuem vazias ou com obras, melhores ou piores, importadas do estrangeiro.

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Antonio Laginha

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