Entrevista — 24 Novembro 2010

Desde que estreou o seu último trabalho, “Calé” (Cigano), em Maio passado, no Beacon Theatre – perto do Lincoln Center, na Broadway, em Nova Iorque – que Joaquín Cortés não tem parado de viajar.
Seja a dançar ou a promover o seu espectáculo – como foi o caso de uma passagem por Lisboa antes de se apresentar nos dias 6 e 7 de Dezembro, nos pavilhões Rosa Mota e Atlântico, respectivamente no Porto e em Lisboa – tem cruzado regularmente o Atlântico e irá passar todo o ano de 2011 a correr quatro continentes. Apenas em África Cortés afirma ter pouco trabalho. O tempo tem feito bem a Joaquín Cortés, aquele que foi o “enfant terrible” do flamenco e que já conta 41 anos. Trinta dos quais a dançar e cerca de duas décadas à frente da sua companhia. Está mais atencioso e mais terreno e apresenta-se com o cabelo – uma das suas imagens de “marca” – substancialmente mais curto.
“Tive vontade de mudar um pouco”, confessou à REVISTA da DANÇA. “Sinto-me bem assim, é mais prático. A verdade é que também abrandei um pouco o ritmo de vida, há cerca de dois anos, após a morte da minha mãe que foi uma pessoa tão importante na minha vida e a luz dos meus olhos”, a quem dedica “Calé”.
REVISTA da DANÇA – “Tantos anos sempre no topo constitui uma longa e frutuosa carreira. É possível passá-la em revista apenas num espectáculo?
Joaquín Cortés – Essa é uma boa questão! Quando decidi criar essa história intitulada “Calé” quis fazer um resumo do meu trajecto como bailarino e criador, de alguma maneira, roubando a essência de cada obra do passado para percorrer, com música e coreografias novas, uma viagem na carreira, na vida e no tempo, com tudo o que tenho feito.
RD – Poder-se-á afirmar que esta criação é um “best of” de tudo o que fez no passado?
JC – Pode ser. Cumpre-se, agora, um ciclo de artista. Mas acima de tudo senti uma necessidade interior de fazer este exercício nesta fase da minha carreira. É mais um balanço com os 16 músicos com quem tenho vindo a trabalhar e mais oito bailarinas.
RD – E o que aprendeu com tudo isso?
JC – Aprendi muito voltando às origens. Recordando coisas que, evidentemente, fazem parte do meu percurso de coreógrafo. Desde a minha primeira obra em que tive que alugar fatos para dançar até ao momento em que comecei a ter grandes designers como Gaultier e Armani a vestirem as minhas peças.
RD – Pode fazer um balanço da sua carreira?
JC – Centrei a minha vida nas artes, na dança e na música e, hoje, tenho que dar graças a Deus porque não me enganei. Faço o que gosto e ainda ganho dinheiro com isso, tendo conseguido uma melhor qualidade de vida para mim e para os meus.
RD – Para além de figurinos de Giorgio Armani a obra tem cenografia?
JC – Em tempos de crise e com a necessidade de transportar “Calé” para todos os lugares apostámos no audio-visual.
RD – “Calé”significa cigano. Trata-se de uma celebração da cultura e tradição andaluza?
JC – Não. É uma coisa bem mais pessoal. Eu sou um ‘cigano universal’. Aquele que, no presente, mais representa esta cultura no Mundo. Sou, desde 2008, embaixador do povo romani, designado pelo Parlamento Europeu. Sinto-me muito orgulhoso por ser esse pequeno ‘grão de areia’ nos cinco continentes.
RD – Como definiria o seu trabalho coreográfico
JC – Criei um estilo pessoal cuja base é o flamenco, a cultura cigana. Misturo dança contemporânea e clássica e, a nível musical, formas tão distintas como o clássico, com a salsa, o jazz, o gospel, etc. e no futuro espero também com o fado, que é muito parecido com o flamenco em algumas vertentes. E até o tango que é uma música e dança muito sensual. Acredito na mestiçagem das culturas. Como viajo muito alimento-me de todas essas influências colhidas em viagens.
Com uma agenda muito preenchida, Cortés, depois de Portugal, viaja directamente para a América Central (México) e América Latina, com “Calé” que é constituído por nada menos que 35 elementos.
 

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Antonio Laginha

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