Entrevista — 01 Novembro 2008

Em 2008 aos 53 anos, OLGA RORIZ, comemora três décadas de sucesso na coreografia nacional e internacional.
Começou a dançar muito nova, participou em óperas no Teatro de S. Carlos mas foi no extinto Ballet Gulbenkian que iniciou a sua vida profissional. Naquela companhia começou a coreografar mas, em simultâneo, fez uma carreira paralela na cena “independente”. Foi convidada a criar ou a remontar obras suas em companhias como o Ballet de Monte Carlo (Mónaco), o Balé do Teatro Guaíra (Brasil), o English National Ballet (Inglaterra), a Compañia Nacional de Danza (Espanha), o Repertory American Ballet (USA) e o Maggio Danza di Firenze (Itália).
Nos últimos anos tem colaborado com alguma regularidade com a Companhia Nacional de Bailado, designadamente com a criação de “Pedro e Inês” e a remontagem de “Sete Véus de Salomé” e “Treze Gestos de um Corpo”.
Actualmente dirige a sua própria companhia com a qual tem vindo a apresentar, com alguma regularidade, novas criações e projectos diversificados. Para além disso tem colaborado com outros artistas e abordado áreas como o cinema e fotografia.
A sua última peça, “Inferno”, passou pelo Teatro Camões (Lisboa) depois de se ter estreado em Guimarães, no Centro Cultural Vila Flor.
Olga Roriz foi a vencedora do Grande Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores e Millenium BCP – 2008, no valor de 25.000 Euros.
RD – O ano de 2008 viu nascer uma fotobiografia de Olga Roriz assinada por Mónica Guerreiro. Que significado tem para si esta obra documental?
OR – Na realidade não posso negar que, em primeiro lugar, se tratou de um confronto algo estranho comigo própria, com a minha obra, as minhas memórias e, sobretudo, com o que já tinha esquecido… ou nunca soube!
É para mim, acima de tudo, um objecto emocional.

RD – Também este ano se iniciou a distribuição de 7 DVD’s com o registo de 11 das obras mais significativas de 30 anos de carreira, realizado por Rui Simões. Qual a importância deste trabalho?
OR – É sem dúvida património cultural. Algo que nasceu da carolice do Rui Simões e que ficará para a História.

RD – Ao contrário da maioria dos coreógrafos “contemporâneos” portugueses – que não revelam interesse em preservar registos das suas peças – a Olga,
desde sempre, demonstra grande preocupação com essa vertente. Acha isso positivo?
OR – Neste País que tão pouco preserva, claro que é de extrema importância para o futuro.
RD– Defende o vídeodança como forma de arte?
OR – Claro que sim. Sobretudo porque nos confronta com uma nova linguagem, com um outro universo manipulativo, uma outra visão, todo um novo mundo a descobrir.
RD- Acha que as suas criações ganham ou perdem interesse e fulgor em DVD?
OR – Na verdade acho que na maior parte dos casos perdem e as razões são várias. Geralmente os planos são demasiado fechados perdendo-se as acções periféricas que ao vivo dão ênfase à cena principal. Por outro lado e com um resultado ainda mais grave são os cortes que se fazem de várias cenas ou parte delas, destruindo a dramaturgia da peça e por conseguinte a sua compreensão.
RD- Pretende investir na área do cinema ou as experiências anteriores não foram suficientemente convincentes?
OR – Apenas a falta de verbas me impedem de o fazer.

RD – Depois de “Paraíso”, criado em 2007, este ano a sua companhia mergulhou no “Inferno”, agora apresentado no Teatro Camões, em Lisboa. Que semelhanças ediferenças apresentam as duas obras?
OR – As duas tiveram o mesmo tema de inspiração mas são quase opostos. O Inferno é a corrupção do Paraíso. Este é ordenado e aquele caótico. O Paraíso é escuro e quase monocromático, enquanto que Inferno é tudo às claras e pleno de cores. No Inferno brinca-se com a tristeza e no Paraíso a tristeza invade-nos. E por aí fora…
RD – A – Qual a qualidade mais importante (ou a novidade) que “Inferno” traz para o público?
OR – A dádiva e mestria dos intérpretes, o humor, a beleza das danças, a sensação do tempo não passar e o resto que não me compete a mim referir.
RD– Como definiria, à luz da dança portuguesa, o seu estilo criativo?
OR – A dramaturgia da dança. O corpo teatral, social, emocional.
RD – Sem ser “politicamente correcta” como caracterizaria a dança que se faz hoje em Portugal por portugueses e para portugueses e estrangeiros?
OR – Há de tudo. Do bom, do mau, do muito mau e do inexistente.
RD – Quais os seus planos artísticos para o futuro a solo e com a Companhia Olga Roriz?
OR – Os trabalhos a solo só se impõem no momento certo e esse momento está a chegar, se não chegou já.
Com a companhia tenho encomendas de Viana do Castelo (comemoração dos 700 anos da minha cidade natal), de Leixões (uma residência no porto) e uma digressão a Goa (Índia). Prevê-se uma criação para o início de 2010, cujo tema é mais uma fascinante personagem mitológica – Electra – e, depois, uma co-produção com o CCB de “a Sagração da Primavera”.

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Antonio Laginha

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