Entrevista — 25 Maio 2008

Filho de mãe portuguesa e pai guineense Marcelino Sambé nasceu em Lisboa no Dia Mundial da Dança (29 de Abril) do ano de 1994… e parece que estava fadado para ser artista.
Começou a dançar aos 4 anos, em Paço de Arcos, no bairro onde habitava e brincava com Telmo Moreira – este, filho de pais angolanos e que começou a dançar no grupo Batoto Yetu-Portugal, que era, então, aluno da Escola de Dança do Conservatório Nacional e que, actualmente, estuda na Academia Vaganova, na Rússia – e nunca mais parou.
Desde 2005 que concorre ao concurso Dançarte (no Algarve, em Faro) onde tem vindo a ganhar os primeiros prémios na categoria júnior.
Fez parte do elenco de uma peça de Clara Andermatt, "E Dançaram Para Sempre", apresentada no Teatro Nacional de S. Carlos em Novembro de 2007 e, já este ano, dançou numa gala, em Nova Iorque, a fechar um concurso para jovens bailarinos de todo o Mundo, onde ganhou uma bolsa de estudo para, em 2009, frequentar a escola do conceituado American Ballet Theatre.
Sem se pensar em fazer futurologia, Marcelino será, provavelmente, o "sucessor" de Benvindo Fonseca, já que para Telmo Moreira parece desenhar-se uma carreira com uma linha mais clássica.
Será que Marcelino conseguirá aquilo que o antigo bailarino principal do Ballet Gulbenkian (Benvindo Fonseca) "desvalorizou" ao ter recusado um convite do próprio Alvin Ailey para integrar a sua famosa companhia: uma carreira internacional com base nos Estados Unidos?

Como é que uma criança, sem antecedentes artísticos, entra tão pequena no mundo da dança?
No bairro onde eu cresci havia um centro comunitário com um grupo de danças africanas. Íamos a muitas festas e eu gostava imenso de dançar com eles. Depois, uma psicóloga que trabalhava em Paço de Arcos indicou-me a Escola de Dança do Conservatório Nacional (EDCN) e os meus pais apoiaram logo essa escolha, por ser um estabelecimento com ensino integrado. A dança sempre foi uma coisa que tinha muito a ver comigo…
Como foi a experiência de entrar na EDCN?
Quando fiz audição nem sabia que a incidência era na dança clássica – achava que seria hip hop ou outro tipo de dança mais contemporânea – mas como tenho muita elasticidade fui admitido. Eu dava-me muito, dentro e fora da escola, com o Telmo que também me ajudou na adaptação e começámos, até, a ir juntos para o Conservatório.
Que significado tem o concurso Dançarte para um jovem bailarino?
Como tirei boas notas logo no primeiro ano levaram-me ao Algarve e ganhei o 1º prémio do escalão A (júnior). Nos quatro anos seguintes repeti os troféus e tem sido uma boa experiência pois fui aprendendo muitas coisas numa vertente mais profissional. Atirei-me de cabeça e sem receios para as provas. O Telmo sempre me ajudou e os professores, nos ensaios, ensinaram-me muito. Este ano ganhei um prémio extra, também como o melhor solista do concurso. Mas, mais importante que os troféus e diplomas, é a experiência de palco que se traz desses eventos.
Contactar com o público enriquece a aprendizagem?
Sim, porque a parte artística da dança é o mais importante. Há pessoas com corpos bonitos e pernas altas mas que se não tiverem expressão não lhes serve de muito. Para mim é natural ser expressivo porque isso nasceu comigo.
O que faz um bom bailarino?
A humildade e muito trabalho. Sempre tenho ouvido dizer que é dez por cento de condições físicas e noventa por cento de trabalho.
Como foi participar num espectáculo com bailarinos profissionais no Teatro de S. Carlos?
Foi uma óptima experiência pois aquele tipo de dança contemporânea fez-nos (a mim e à minha colega Carlota) descobrir coisas novas, para além de ser uma honra muito grande dançar naquele magnífico teatro. A sala é linda e todos deviam conhecê-la.
E representar Portugal no Youth American Grand Prix em Nova Iorque?
Foi muito importante para um estudante português. Não há muitas oportunidades nem de concorrer nem de ver bailarinos maravilhosos, designadamente, Ivan Vassiliev e Natália Osipova, que pude ver dançar “As Chamas de Paris”.
Levei três variações, duas clássicas dos bailados “Arlequinade” e “Napoli”, e uma contemporânea, da autoria da professora Catarina Moreira. Cheguei à final e, embora não me tenha classifiquei entre os três primeiros, fui convidado para dançar na gala de encerramento do concurso. E o melhor é que vim dos Estados Unidos (EU) com uma bolsa de estudo para um curso no Verão de 2009.
É óbvio que esse “prémio” é uma grande alegria para todos?
Claro que sim. Pelo que conheço da escola (russa) Vaganova creio que ela dá uma boa preparação mas a ideia de ir aos EU trabalhar atrai-me ainda mais.

Como é um dia normal de trabalho para um estudante da EDCN?
Levanto-me aí pelas seis e meia da manhã e, depois de tomar o pequeno-almoço, saio para a escola cerca de uma hora depois.
Normalmente estou no Conservatório entre as oito da manhã e as seis e meia ou sete horas. Depois volto para casa, tomo banho e janto perto das oito. Estudoe vou dormir lá para as dez, dez e meia … Quando há trabalho suplementar – preparar exames ou apresentações – também vou nas manhãs de sábado para a EDCN. Nos fins-de-semana deito-me mais tarde, faço outras coisas e, sobretudo, descanso o mais que posso.
Antes de concursos é diferente, é trabalhar 12 horas diárias, das 8 da manhã às 8 da noite, com aulas e muito pouco descanso pelo meio.
É preciso ter cuidados especiais com a alimentação?
Antes não tinha mas, agora, com os concursos nada de fritos… e “fast food” só uma vez por mês, senão engordamos. Às vezes sabem-me bem mas prefiro comida cem por cento saudável. As massas têm hidratos de carbono e são muito nutritivas e as bananas são ricas em potássio por isso são boas para evitar as cãibras.
E fazer outros exercícios, em simultâneo, para se manter a forma?
Só a dança já é exercício suficiente e muito completo, mas há pouco tempo comecei a fazer flexões de braços todas as manhãs porque os meus ainda estão um bocado fracos e preciso ficar mais entroncado.
Por vezes, no fim-de-semana, treino em casa variações de dança. Eu e o meu amigo Telmo, no pouco espaço que tínhamos, costumávamos ensaiar danças e divertíamo-nos muito.

O que é que se deixa de fazer por causa da Dança?
Quase nada. Nunca perco nada com a dança, só ganho. Escolhi esta carreira/profissão e nunca me arrependi de não ter feito coisas que outros amigos meus fazem… É uma felicidade fazer o que gostamos. É muito importante ter amigos connosco neste caminho que é duro. Ensaiamos juntos e até curamos as lesões juntos. Depois vamos a concursos e ganhamos prémios. Todos os sacrifícios valem a pena.
Quais são os planos a médio prazo?
Trabalhar muito e esperar que as coisas me aconteçam. Um dos meus objectivos é chegar a uma companhia como o American Ballet Theatre, onde há bailarinos fantásticos.

E estudar para vir a ter uma carreira alternativa para assegurar o futuro?
Tenho também o desejo de tirar um curso superior. Gostava de estudar História e formar-me em História da Dança. Podia até preparar-me para vir a ter duas carreiras, bailarino e professor. Mas o que eu gostava mesmo era, no futuro, ser coreógrafo.

Fotos gentilmente cedidas por Marco Santos

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Antonio Laginha

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