Fora — 05 Fevereiro 2009

Se bem que o Malambo – essa “dança individual” dos camponeses argentinos -, tivesse desaparecido como competição espontânea até aos anos vinte do século passado, não está hoje menos viva.
Não nos estamos a referir a um Malambo acrobático de “lanzas” ou “boleadoras” (cordas com bolas nas pontas com que os gaúchos imobilizam o gado), esse encontramo-lo nos casinos de Las Vegas ou no Lido de Paris. Estamos a falar de uma dança varonil e hábil cuja origem alguns estudiosos traçam desde os finais do século XVIII.
Recentemente celebraram-se os 42 anos de vida do Festival Nacional de Malambo de Laborde (na central província de Córdoba, Argentina) uma pequena povoação a 600 quilómetros de Buenos Aires.
Trata-se de um “encontro” quase secreto, se o medirmos pela sua escassa repercussão nos meios massivos de difusão.
Mas, ao contrário, para os malambistas de todo o país, Laborde é uma verdadeira Meca: o ponto geográfico onde se concentram, uma vez por ano, as suas mais altas expectativas.
Curiosamente, o título de Campeão Nacional de Malambo não traz consigo nenhuma compensação económica, apenas – e só – a satisfação de saber-se premiado pela excelência da “rotina” (nome dado à “variação” de sapateado) que se prepara para Laborde. Todo um ano, é o tempo que se leva a criar e a ensaiar uma “rotina” que não pode exceder – de acordo com o regulamento – cinco minutos.

A aldeia de Laborde, situada junto da estrada “provincial” nº11 mesmo no coração da “pampa cordobesa”, tem cerca de seis mil habitantes e uma economia baseada na actividade agrícola e na criação de gado. Não existem serras nem rios por perto, nem qualquer tipo de atractivo turístico, todavia, na segunda semana de Janeiro a fisonomia do aglomerado urbano transforma-se por completo com a chegada de mais de 1500 visitantes, vindos de todo o país. Os artistas instalam-se em escolas, em casas de familia e em parques de campismo improvisados. Qualquer curioso que percorra a povoação nesses dias ouvirá, por todo o lado, música “criolla” e poderá observar afanosos bailarinos pulindo as suas danças nos pátios que se abrem sobre as ruas.

Compete-se em vários “rubros” (categorias) – conjunto de baile, conjunto instrumental e “recitador criollo”, entre outros -, mas o Malambo é a substância básica do concurso.
Os criadores do festival sempre o imaginaram como um encontro vitalmente tradicional. Dos seus propósitos iniciais conservaram-se, firmemente, dois até hoje: não fazer dele uma empresa comercial e manter um olhar atento sobre os riscos do efeito fácil e la descaracterização.
“Este festival – afirmava em Laborde um artista de Santa Fé, Ariel Avalos, o campeão de 2002- transformou-se num motivo de vida para o malambista”.

Nota: os gauchos eram vaqueiros que tinham como trabalho transportar o gado através de grandes distâncias viajando, dia e noite, a cavalo pela pampa e mesetas argentinas.
 
LAURA FALCOFF – Bailarina e coreógrafa, jornalista do jornal “Clarín” de Buenos Aires
 

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Antonio Laginha

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