Dentro — 11 Março 2010

Na qualidade de “artista associado” do Centro Cultural de Belém para a presente temporada – uma nova fórmula inventada por aquela instituição e que também contempla a famosa pianista Maria João Pires – Rui Horta apresentou “As Lágrimas de Saladino”, em estreia mundial.
Mais do que qualquer outro factor, designadamente o coreográfico, o que salta à vista é uma imensidão de músicos (integrantes da Banda da Sociedade Carlista de Montemor-o-Novo e artistas dirigidos pelo compositor João Lucas) em contraponto com sete jovens bailarinos estrangeiros que começam por debitar texto "decalcado" de "As Cruzadas Vistas Pelos Árabes" de Amin Maalouf em diversas línguas, juntamente com nomes de ruas, avenidas e largos de Lisboa, e acabam a arfar junto de um microfone.
Se ninguém é obrigado a ter lido a conhecida obra para, eventualmente, entender o que se passa em cena, o facto dos espectadores serem sujeitos a ouvir longíssimas sequências de texto em sueco, italiano, castelhano e noutros idiomas, não trouxe qualquer mais valia para a composição coreográfica. Antes pelo contrário. A peça, co-coreografada pelos intérpretes, vive de sequências bastante repetitivas e de forte impacto físico e visual, com fumos pelo meio, para além de uma interacção espúria entre bailarinos e músicos.
Trata-se de um somatório de ideias que dão origem a pequenos eventos, começando com uma banda a tocar música ligeira enquanto o público entra na sala. Bandas e ranchos folclóricos não podiam estar mais na moda (já Tiago Guedes no seu festival de Alcanena havia importado a novidade de França) mas fazê-los trocar de roupa em cena é uma habilidade esteticamente dispensável. Mais dispensável ainda, é, sem dúvida, o dasagradável (e irritante) número de decibéis debitados ao longo do espectáculo, que se traduz numa agressão algo gratuíta; uma centena de sapatos dos músicos depositados à boca de cena, uma acção sem grandes laivos de imaginação; e uma bailarina que, no final, debita obscenidades em castelhano, nesta obra em que Rui Horta aposta numa grande produção que encheu o palco do CCB e a alma de muitos espectadores que a aplaudiram de pé.
 

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Antonio Laginha

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