Editorial — 19 Fevereiro 2010

Luís Moreira, “antigo bailarino da CNB e ex-assistente de Filipe la Féria, vai propor a criação de um Museu da Dança à ministra da Cultura”, assim rezava o título de um recente artigo no jornal “Público”.
Não deixa de ser irónico que no actual contexto, em que até a construção de um novo Museu dos Coches levanta barafunda, alguém, no maior dos idealismos venha alegar que "a dança é um parente pobre das outras Artes (em Portugal) e a mais efémera porque vive do corpo".
Mas se Instituto dos Museus e da Conservação tem um Museu da Música nas caves de um metropolitano (em que pouco ou nada acontece) e os funcionários de muitos outros estão frequentemente em greve, porque não há dinheiro para lhes pagar trabalho em horário extraordinário, como é que se pode pensar que algum ministro vai cativar verbas para um museu da dança ?
O espólio das companhias de dança portuguesas e a memória dos nosso bailarinos não estão em risco de se dissipar, porque ambos estão irremediavelmente perdidos.
Veja-se o que resta do Grupo de Bailados Portugueses Verde-Gaio, nos armários do Museu do Teatro, e o espantoso acervo do Ballet Gulbenkian que, em pouco tempo, se evaporou e que dava para fazer meia dúzia de museus de figurinos de bailado!
Quanto à muita cenografia, alienada a um percurso ímpar de 40 anos, passou de salas e corredores do piso menos dois, para um armazém nos arredores de Lisboa e, daí, directamente, para fogueira.

No que toca a alguma cenografia e figurinos pertencentes ao inventário da CNB, terão sido, alegadamente, vendidos para o Japão, sem que alguém saiba onde foi parar o dinheiro. Está disponível na Internet uma auditoria do Tribunal de Contas, relativa ao ano de 2004, em que se afirma terem desaparecido 3,6 milhões de Euros. Se ninguém foi, efectivamente, responsabilizado por listas infindáveis de ilegalidades e por tanto dinheiro deitado à rua, quem é que se irá importar com um museu para a dança neste país?
Basta ver ao estado, no que toca à Dança, a que chegou a Direcção Geral das Artes, instituição que já poderia muito bem ter pensado num mecanismo financeiro para levantar um Museu da Dança… começando por abrir um concurso de ideias.
Até porque existe em Lisboa um lugar magnífico – propriedade do Governo – completamente abandonado e muito destruído, o Teatro do Palácio das Laranjeiras, mandado construir pelo Conde Farrobo. Um espaço cénico do século dezoito que o “dandy” financiou para se exibir dança e, sobretudo, a sua amante a bailarina francesa Clara Lagoutine, a famosa Mlle Clara, que incendiou Lisboa.
Posto isto, as duas únicas palavras que me vêem à cabeça são: boa sorte… Luis Moreira!
PS – Há várias instituições dispersas pelo mundo que possuem belos acervos de memorabilia de dança e documentação variada.
Em Amsterdão há um Museu da Dança e em Paris o Museu da Ópera. O Teatro Maryinsky, de S. Petersburgo, também tem uma boa reserva museológica, assim como o Bolchoi, ambos na Rússia.
As colecções do Lincoln Center (Nova Iorque) e do Centro Nacional da Dança (em Paris), possuem espólios consideráveis – qualquer deles maior que as do Museu de Havana e muito possivelmente das do Museu da Dança de Estocolmo, que teve por base a colecção Rolf de Maré.

Related Articles

Share

About Author

Antonio Laginha

(0) Readers Comments

Comments are closed.