Dentro — 28 Junho 2021
GALAS DE BAILADO DE VOLTA AO PALÁCIO DE SETEAIS

Após um infausto interregno de duas longas décadas, a Câmara Municipal de Sintra (em boa hora) voltou a apostar nas suas Noites de Bailado, sobre os relvados de Seteais, em frente do monumental arco que separa os dois corpos do romântico palácio-hotel construído no século XVIII.

No último fim-de-semana de Junho – nos dias 26 e 27 – o casal de bailarinos Solange Melo e Fernando Duarte que, em tempos, fizeram parte do elenco da Companhia Nacional de Bailado (CNB) – retomaram um hábito com muitos anos de apresentar “galas de estrelas da dança”, naquele emblemático espaço. Dentro de uma filosofia a que, outrora, Armando Jorge recorreu com grande sucesso. Aliás, na primeira noite, os actuais organizadores do evento chamaram o antigo bailarino e coreógrafo do Ballet Gulbenkian e primeiro director artístico da CNB a Seteais, para lhe prestarem uma justíssima homenagem. Já que, em tempos, ele também animou em simultâneo outro monumento nacional com alargado êxito, as pitorescas e recreativas Noites de Queluz.

É certo que a fórmula pode se abrir em muitos e variados ângulos, sendo que, programas repartidos pelos jardins de Seteais e pelo Centro Olga de Cadaval – situado na frequentada vila e menos permissivo às intempéries sintrenses – poderão ser bem mais ecléticos e produtivos abrangendo mesmo públicos muito mais inconstantes e mais juvenis.

Como em qualquer gala do género, o bom gosto e o virtuosismo são sempre premissas de base, que geralmente assentam no reportório e na qualidade artística e técnica dos intérpretes, assim como no visual e dinâmica dos espectáculos. E no caso, uma boa mescla de obras clássicas e contemporâneas, proporcionou ao costumeiro público de Sintra, Lisboa, Cascais e arredores, um fim de tarde bem condimentado e em que os espectadores tiveram muito por onde escolher.

Para além do habitual desfile de pas-de-deux de obras com mais de um século creditadas ao bailado imperial russo, leia-se com coreografias de Petipa e Ivanov, surgiram no programa duetos mais ou menos interessantes, destacando-se, pelo seu significado e historial, Outono para Graça. Trata-se, acima de tudo, de um trabalho do antigo coreógrafo do BG, Vasco Wellenkamp, baseado numa peça que fez imenso sucesso nos anos 70, protagonizada pela grande bailarina Graça Barroso e por Carlos Caldas no Ballet Gulbenkian. Os intérpretes, na actualidade , Maria Mira e Ricardo Henriques conseguiram transformar um exacerbado “hino ao amor” numa peça de homenagem e memórias com subtil serenidade e delicado sentimentalismo. Wellenkamp será sempre lembrado pelos seus admiráveis duetos que uma gala inteira não chegaria para reproduzir. Assim o autor e intérpretes originais se lembrassem de obras que pertencem ao património coreográfico português mas que, como tantas outras, infelizmente parecem ter-se esfumado na escuridão de tempos não muito remotos.  

O bailarino Filipe Portugal – que protagonizou um dos príncipes logo no início do programa no Adágio da Rosa cortejando uma serena princesa Aurora desempenhada por Aya Okumura – chamou a si a coreografia Atrás do espelho, interpretada com grande cumplicidade por dois esculturais bailarinos, a  russa Elena Vostrotina e o canadiano Cohen Aitchison-Dugas. Ambos dançaram, posteriormente e com o mesmo brio, um Noturno de Chopin, com coreografia de Christian Spouk, num sequencial de danças que não teve qualquer interrupção.

A peça mais leve e brincalhona do evento, Divalvi, com música de Max Richter, dir-se-ia, mesmo, com um certo toque de ingenuidade, foi criada por Fernando Duarte para Maria Santos e Gaetano Cottonaro.

Aya Okumura voltou a dançar com grande competência e concentração, ao lado de Mark Biocca, um dos mais insinuantes e empolgantes pas-de-deux da história do bailado, o adágio do II acto do Lago dos Cisnes.

E o melhor, desta vez, não veio no fim. O par cubano-nipónico, Daniela Cabrera e Gakuro Matsui, encerrou ou a “soirée” com o  festivo Grand Pas-de-deux do D. Quixote, com alguma “verve” e “salero” (sobretudo ela) mas não teve a “allure” e o “aplomb” com que António Casalinho e Margarita Fernandes, um pouco antes, brindaram os presentes com o mais famoso trecho da Bela Adormecida, o pas-de-deux das Bodas de Aurora. Os jovens leirienses – que se apresentaram ainda como estudantes – foram um verdadeiro exemplo de delicadeza, segurança – rara para os seus 18 e 16 anos, respectivamente – e refinamento técnico. Ambos trouxeram (sem ter que representar uma idade que não têm) todo um estilo palaciano, formal e contido, sem, no entanto, perderem uma delicada espontaneidade e todo o rigor académico exigido.

Em clima de festa, com os seis pares voltaram a cena para se despedir em conjunto, não se fecharam luzes nem desceram cortinas, mas ficou a impressão que Sintra não esqueceu as antigas galas internacionais denominadas Noites de Seteais e a certeza que muitas e melhores ainda poderão – e deverão – vir nas próximas épocas estivais.

António Laginha

Texto e fotos  

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