In Memoriam — 31 Maio 2020
NORMAN DIXON (1926-2020) UM AMIGO DA DANÇA PORTUGUESA

A escassos dias de completar 94 anos, Norman Dixon – que deu um dos mais importantes contributos para a evolução da dança portuguesa no século XX – foi, até ao seu desaparecimento, um grande amigo de Portugal e da nossa cultura.

O bailarino, professor, coreógrafo, encenador e director artístico inglês, Norman Arthur Dixon, nascido a 9 de Junho de 1926 em Inglaterra faleceu num hospital de Zagreb (Croácia) a 28 de Maio de 2020.

A sua obra, “Homenagem a Florbela”, de 1962 para o Grupo Experimental de Ballet (a primeira designação para o extinto Ballet Gulbenkian), inscreve-se como uma das mais representativas obras coreográficas portuguesas do século passado.    

Desde cedo, Norman Dixon, mostrou um entusiasmo especial pela dança tendo sido iniciado pela sua avó materna na aprendizagem das danças sociais que praticava em sociedades de recreio da sua terra, Desborough (Northamptonshire). Não só aprendeu danças de salão da época vitoriana, como outras e participou em concursos locais influenciado pela família que também lhe deu a conhecer as óperas de Gilbert and Sullivan.

Começou por estudar, em 1943, na Academia de Música de, em Burton-on-Trent, Staffordshire com a professora Linda Bowler. Três anos depois ingressa na Sadller’s Wells Ballet School, em Londres (agora Royal Ballet School). Entre 1946 e 1949 foi bolseiro na Escola do Ballet Rambert, também em Londres, tendo, seguidamente entrado para o corpo de baile do Ballet Rambert.onde se manteve até 1951, ano em que entrou na Companhia de Walter Gore. No ano seguinte voltou à companhia de Marie Rambert, tendo sido nomeado, sucessivamente, solista e bailarino principal (em 1956). Teve como principais professores Marie Rambert, Kathleen Crofton, Mary Skeaping, Anna Ivanova, Eileen Ward, Brabara Vernon,David Ellis, Michel de Lutry e David Paltenghi, tendo também estudado com conhecidos mestres russos como Volinine, Goncharov e Idzikovsky.Foi partenaire de bailarinas como Violette Verdy, Lucette Aldous, Ann Horn, Beryl Goldwyn, Patricia Dyer, Shirley Rees e outras. Dançou os papéis de Seigfried, o Pas de Trois, e a dança russa (no Lago dos Cisnes) a dança chinesa (no Quebra-Nozes) Franz (em Coppélia), o poeta (em As Sílfides) e Albrecht, o Pas de Deux do 1º acto e Hilarion ( em Giselle, ao lado de Alicia Markova e Eric Bruhn).
Criou e dançou muitos papéis do repertório moderno com coreografias de Gore, Ninette de Valois, Antony Tudor, Frederick Ashton, Howard André, Robert Joffrey, Kennteh Macmillan, John Cranko, Jack Carter, Peter Darrell, David Paltenghi e Ronald Yerrell, entre outros.

Em 1956, na qualidade de bailarino principal do Ballet Rambert veio a Lisboa, a convite de Margarida de Abreu, para dançar ao lado de Patricia Dyer, com o Círculo de Iniciação Coreográfica (CIC) no Teatro de S. Carlos.
Posteriormente apareceu em muitos programas de televisão da BBC produzidos por Margaret Dale, ao lado de Margot Fonteyn, Michael Soames, Beryl Grey e John Fields e com o Ballet Rambert percorreu as Ilhas Britânicas, Irlanda, França, Espanha, Itália, Alemanha, Bélgica e China. Começou a coreografar em 1958. A sua primeira obra foi “Voice in the Wilderness” (mus. Bloch), tendo ganho em 1959, um prémio revelação com o bailado “The Cord” (1960).

Em relação a esse bailado referiu: foi uma pena não ter conseguido fazer esse bailado em Lisboa. Tanto essa obra como Homenagem a Florbela tinham um lugar muito especial no meu coração. Eu até levei os figurinos para Lisboa, com a intenção de a produzir no Grupo Experimental de Ballet, porém, na altura, não consegui encontrar em Portugal um rapaz de 12 anos para fazer um dos papéis principais. O bailado foi considerado pelos críticos uma obra de peso para um coreógrafo revelação. Mas a isso também não foi alheio o facto de no elenco estarem nomes muito importantes da dança inglesa da altura: Ann Horn, do Ballet Rambert e Gary Burne e Antoinette Sibley, do Royal Ballet.

Entretanto deixou o Ballet Rambert e começou a coreografar para a Ópera Nacional Galesa óperas como “A Traviata”, “A Noiva Vendida”, “Fausto” e “Noite de Maio”.

Em 1960 e, após ter dançado algumas obras-primas de Antony Tudor (designadamente “Dark Elegies” e “Lilac Garden”), funda uma pequena companhia, o “Ballet Venture” que se apresenta, pela primeira vez, na Inglaterra dança num palco redondo, em Croydon (Londres), e para a qual coreografa “Ritmo Violento” (mus. Mandel).

Após uma existência efémera o grupo dissolveu-se e Dixon é convidado por Ninette de Valois para ir dirigir a escola oficial do Irão. Declinando o convite, permaneceu em Inglaterra como coreógrafo “free-lance”.

Em Maio de 60 regressa a Lisboa para montar o bailado “Preciosa” (mus. Werber) para o CIC – novamente a convite de Margarida de Abreu – estreado em Junho no TNSC. Acabou por ficar em Lisboa como mestre de bailado do CIC até Agosto do mesmo ano, tendo criado (para a RTP), durante a sua permanência a obra “Balada Para Três” (mus. Gabriel Fauré). Seguidamente regressa a Inglaterra para dançar na companhia de ópera do País de Gales, mas acaba por voltar a Portugal, em Novembro, para dirigir o Curso Especial para Bailarinos, sob os auspícios do Instituto Britânico em Lisboa, com o suporte financeiro da Fundação Calouste Gulbenkian e de onde viria a sair o Grupo Experimental de Bailado (GEB), fundado em Fevereiro de 1961, apenas três meses após o início do referido curso. O reportório inicial do grupo – de que Dixon era mestre de bailado, director e coreógrafo residente – era composto por obras deste, mormente “Balada Para Três” e “Suite Romântica” – um bailado inspirado na obra “The Two Pigeons”, de Frederick Ashton (1961) que, por sua vez, se inspirou no original, “Les deux pigeons”, baseado numa fábula de Jean de la Fontaine, cuja estreia ocorreu na Ópera de Paris em 18 de Outubro de 1886, utilizando todos a mesma partitura de André Messager) criadas para a R.T.P., “Ritmo Violento” (uma remontagem com mus. Johnny Mandel) e “Divertimento” (mus. Jacques Ibert), para além de “Pastoral” (Stravinski) da coreógrafa Águeda Sena. O grupo teve a sua estreia no Teatro S. João no Porto, em 11 de Maio de 1961, e o seu début na capital, no Teatro da Voz do Operário, no dia 15 de Maio de 1961. Para a quadra natalícia desse ano, Dixon apresentou “Divertimento” (Jacques Ibert) e “Suite Romântica”, para além de “La Source” (mus. Delibes), uma “versão recital” de “Les Sylphides” e o 2º acto do “Quebra-Nozes”.

Alargado o seu elenco e depois de uma digressão o empresário Vasco Morgado contratou o jovem agrupamento para uma curta série de espectáculos na quadra natalícia” de 1961, em que Dixon apresentou “Divertimento” (Jacques Ibert) e “Suite Romântica”, para além de “La Source” (mus. Delibes), uma “versão recital” de “Les Sylphides” e o 2º acto do “Quebra-Nozes”.

Durante cerca de três anos Dixon criou oito obras, nomeadamente a supracitada “Homenagem a Florbela” (mus. Frank Martin) filmada para a RTP em 62 e, nesse mesmo ano, “Valse-Cotillon” (mus. Johan Strauss), para além de um projecto para a RTP com a peça “Cinderella”.

Devido a desentendimentos de ordem pessoal, que se reflectiram em aspectos laborais, as relações entre Norman Dixon e os artistas do GEB deterioram-se de tal modo que a sua saída, em Novembro de 63, foi motivada por um abaixo-assinado que os bailarinos apresentaram a Madalena Perdigão. Houve também quem dissesse que a esse facto não terão sido alheias intervenções de “alguns portugueses do grupo que, então, já se sentiam capazes de lhe tomar o lugar”. Entre os que se opuseram à sua saída contam-se Manuela Valadas e Águeda Sena. Com esta coreógrafa, ainda criou um grupo, o “Ballet-Teatro”, sob os auspícios do Bristish Council, na qualidade de coreógrafos, director artístico e directora associada, respectivamente, realizaram o espectáculo “Homenagem a William Shakespeare”, no Cinema Império em Junho de 64. As últimas obras que coreografou em Lisboa foram “Suite de Danças”, sobre música tradicional inglesa, “Homenagem a Mr. W.S.”, e “Otelo” (mus. Ernest Bloch). Pouco tempo depois deixou Portugal e nunca mais voltou ao nosso país. 

De regresso a Inglaterra foi convidado para coreógrafo do Arlequin Ballet, companhia na qual criou as obras “Doze Peças para Orquestra com Bailarinos” (mus. ?)  e “Experimento Ambiguo” (mus. Webern).

Em 1965 recebeu o Prémio de Coreografia do British Arts Council e, no ano seguinte, tornou-se mestre de ballet, coreógrafo e bailarino principal do Minerva Ballet, repondo “Suite Romântica” (mus. Messager) e criando “Música de Casamento” (mus. Schumann)

Em 1967 foi convidado (pelo British Council) para coreografar “A filha mal guardada” no Ballet do Teatro Nacional de Rijeka, na Croácia e, no ano seguinte, por intermédio também do British Arts Council, foi nomeado director artístico e coreógrafo do Ballet do Teatro Municipal de Santiago (Chile), Nessa companhia remontou “A filha mal guardada” e “O Quebra-nozes.

Nas temporadas de 1970-71 e 71-72 trabalhou no Ballet Nacional Sodre (Montevideu – Uruguai) como director artístico, coreógrafo e pedagogo. Para além de pôr em cena “A filha mal guardada” e “O Quebra-nozes” criou ​​”A Morte e a Donzela” (mus. Schubert) e “Music Hall 1920” (mus. Walton) e concebeu a coreografia da ópera de Giuseppe Verdi, “Um baile de máscaras”.
De regresso à Europa em 1972 foi coreógrafo convidado do Ballet de Sarajevo (na capital da Bósnia – Herzegovina) e do Teatro Nacional Croata (em Zagreb) onde remontou “A filha mal guardada”. No ano seguinte voltou a Rijeka para remontar aquele bailado e coreografar “Coppélia” (mus. Delibes) e o musical “My fair lady”

Na temporada de 1974-75, coreografou as operetas “Die Fledermaus” (mus. Strauss), “Victoria e o seu hussardo”, “White Horse Inn”, “Graffin Maritza”, “Sangue Vienense”, “Sonho de Valsa” e “A rosa de Istambul”, para o Festspielhaus St. Pölten (Áustria), de que foi director artístico. Voltou a Rijeka para coreografar a ópera “A noiva vendida” (1975) e depois a Sarajevo, “Sinfonia em dó” (mus. Bizet), “Carmen” (mus. Bizet), “Divertimento”(mus. Rossini e Britten),” Francesca da Rimini” (mus. Tchaikovski) e “Sinfonia Clássica” (mus. Prokofiev).
Em 1977-1987 voltou à direcção do Ballet do Teatro de Rijeka, para o qual coreografou “Divertimento” (mus. Adam), “Travesseiro de ventos” (mus. Pink Floyd), “Pedro e o Lobo” (mus. Prokofiev), “As quatro estações” (mus. Vivaldi), “Carmen” (mus. Bizet), “Le Grand Pas de Quatre” (mus. Cesare Pugni), ”Fantasia polaca”, “A filha mal guardada” e “Coppélia”, a coreografia para ópera “A Traviata” (mus. Verdi), as opereta, “A vida parisiense” e  “O Morcego” (Strauss), a “História do Soldado” (mus. Stravinski)  e o musical “Fanny” (mus e letras de Harold Rome). Depois de uns anos parado, em 1984, remontou “A filha mal guardada” para o Ballet da Ópera da Macedónia (Escópia) e para o Ballet do Teatro Nacional da Croácia, em Split. Foi director artístico do Ballet do Teatro de Rijeka até 1987, tendo, depois voltado ao ensino, como professor de movimento na Academia Dramática de Zagreb, para cujos estudantes encenou “Os amantes de Shakespeare”. Em 88, regressou ao Ballet de Sarajevo para remontar “Coppélia” e, no ano seguinte, “As Sílfides” (mus. Chopin) e “A filha mal guardada”.

Norman Dixon comemorou 50 anos de atividade artística em 1999, concebendo uma nova produção de “A filha mal guardada” para o Ballet do Teatro de Rijeka, tendo, na altura, recebido uma homenagem da cidade. No ano 2000, voltou a remontar “Coppélia” para o mesmo teatro, bem como “A Sílfide” (mus. Lovenskiold) que, cinco anos depois, remontou no Teatro Nacional Croata, em Zagreb.  

Viveu os últimos quinze anos naquela cidade, com a sua cadela Lucy e o seu companheiro Carlos Araya.

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Antonio Laginha

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