Dentro — 10 Fevereiro 2020
GUILHERME GAMEIRO ALVES: O ANJO (PORTUGUÊS) DA MORTE…EM VENEZA

O Ballet do Teatro Nacional da Croácia (BTNC) apresentou-se no Teatro Camões, em Lisboa, num espectáculo único na tarde de 8 de Fevereiro, com a obra “Morte em Veneza”, como corolário de uma troca artística e diplomática entre países.
Não foi a primeira visita da companhia a Portugal mas, desta vez, segundo o Organismo de Produção Artística-Opart sedeado no Teatro Nacional de São Carlos, fez-se ao abrigo de um protocolo que levará, em troca, a Companhia Nacional de Bailado (CNB) no próximo ano a Zagrebe. Pela primeira vez com um espectáculo de dança portuguesa. Oxalá a companhia venha a honrar a nossa dança e, sobretudo, a nossa cultura, pouco conhecida naquele país do centro da Europa. Até porque tal desiderato faz parte dos próprios estatutos de uma instituição estatal com mais de quatro décadas e que, infelizmente, tem primado pela ausência em palcos internacionais de relevo.
A companhia croata, formada por elementos bastante jovens e de várias nacionalidades, funciona num belo teatro no centro da capital em que a dança, o teatro e a ópera se revezam no mesmo palco ao longo de todo o ano. Pode-se, mesmo, dizer que apresenta alguma produção própria, incluindo bailados de cariz histórico (Sissi) e, mesmo, infantil (Peter Pan) com relevante sucesso.


É preciso assinalar que a peça que o BTNC trouxe a Lisboa não podia ter sido melhor escolhida. Apesar de não versar alguma história ou tema relativo ao país propriamente dito, mostra bem a versatilidade do grupo mas, acima de tudo, proporcionou a um dos seus bailarinos principais, Guilherme Gameiro Alves, a oportunidade de se apresentar, pela primeira vez profissionalmente, em Portugal. E logo numa personagem marcante e da maior importância na obra, o anjo da morte. Já que é ele que, praticamente, conduz um variado grupo de personagens através de uma jornada que começa e termina junto das águas e numa gôndola da nostálgica Veneza.


Começando por aí, a coreógrafa croata, Velentina Turcu, imaginou um anjo masculino (Guilherme Gameiro Alves) que, por vezes, lembra o mágico Rothbart de “O Lago dos Cisnes” de Petipa-Ivanov-Tchaikovski, que está omnipresente no drama de Thomas Mann. E que vive de um inusitado triângulo cujos vértices se completam com as personagens de Gustav e Tadzio.
Sendo, por assim dizer, uma obra que põe, definitivamente, em evidência o elenco masculino, o trabalho de duas das bailarinas mais expressivas da companhia, a croata Iva Vitic Gameiro – que já pertenceu ao elenco da CNB – e a australiana Natalia Kosovac, não foi particularmente favorecido.
Outro factor que, certamente, não abonou em favor da peça em questão foi a “pobreza” sonora da “música enlatada” que acompanhou pouco mais de uma hora de bailado. Já que as sublimes partituras de Mahler quando bem interpretadas ao vivo por uma orquestra quase levam o público a um estado de êxtase, tão necessário a um trabalho que prima pela nostalgia, emoção e sonho. Curiosamente, numa composição em que não transparece (uma esperada) sensibilidade feminina, por vezes faltou-lhe um pouco de “patine”, já que a engenhosa e dinâmica cenografia da autoria de Marko Japelj esteve longe de captar a memória e as cores das madrugadas ou dos inimitáveis crepúsculos venezianos. Ainda assim há em “Morte em Veneza” belas imagens que os olhos dos espectadores, certamente, reteram. Desde logo o intrigante final com um relógio digital gigante em contagem decresce mostrando o tempo que resta de vida de Gustav von Aschenbach (interpretado por Takuya Sumitomo).


Coreograficamente falando, a depurada técnica clássica exigida aos bailarinos, nem sempre se revelou suficientemente expressiva para contar uma história em que os sentimentos são intensos e estão sempre à flor da pele. Apesar da “mise en scène” ser bem mais estimulante que o próprio discurso coreográfico, algumas das personagens carecem de mais peso e carisma. Provavelmente devido à juventude do elenco, não há suficientemente contraste entre as diversas personagens o que lhe retira força e profundidade. Se Andrea Schifano, no papel de Tadzio, encarna na perfeição um jovem virginal, mas sexualmente atractivo, já Sumitomo parece demasiado jovem e, acima de tudo, bastante leve e enérgico para o papel que lhe coube.

De um modo geral o BTNC mostrou elegância no conjunto e uma certa “allure” num bailado muito movimentado que, certamente, honra o reportório da dança croata. Mas, sobretudo, proporcionou a Guilherme Gameiro Alves o triunfo da noite, tendo o público do Teatro Camões lhe dedicado um aplauso longo e particularmente caloroso.

 

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Antonio Laginha

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