In Memoriam — 16 Dezembro 2019
ÁGUEDA SENA (1927-2019) A MAIOR COREÓGRAFA PORTUGUESA DO SÉCULO XX

  1982

Vítima de doença oncológica prolongada, faleceu ontem (dia 15 de Dezembro, à noite) no Hospital de Cascais, a bailarina, actriz, professora e coreógrafa ÁGUEDA SENA, uma artista que, na opinião da ballerina Isabel Santa Rosa (1931-2001) “esteve sempre à frente do seu tempo”.
Segundo António Laginha, o seu biógrafo, Águeda ao longo da vida sobreviveu a vários internamentos graves – dois deles em Londres um por tuberculose nos anos 50 e outro por cancro nos anos 70 – e começou a ter sérios problemas de visão há cerca de uma década, pelo que viveu nos últimos anos numa casa de repouso em Birre.
De seu nome completo, Maria do Céu Águeda Camacho de Sena Faria de Vasconcelos, nasceu a 16 de Junho de 1927 em Lisboa.
Filha de mãe boliviana, Nazária Celsa Camacho Quiroga Faria de Vasconcelos (conhecida por Celsa Camacho), e de António de Sena Faria de Vasconcelos Azevedo, pedagogo, escritor, e professor catedrático na Faculdade de Letras de Lisboa e na Universidade Jean-Jacques Rousseau de Genebra, entre outras. Bem como fundador do importante (e já desaparecido) Instituto de Orientação Profissional Maria Luisa Barbosa de Carvalho, em Lisboa.
Começou, aos quatro anos, por aprender dança rítmica com uma professora grega conhecida por Madame (Sosso Dukas) Schau, com quem estudou até aos oito anos, pisando o palco, pela primeira vez, num recital no Teatro Nacional D. Maria II, em 1932. Por volta dos 12 anos começou a interessar-se pela dança clássica, no Liceu D. Filipa de Lencastre, iniciando as aulas com a professora Margarida de Abreu. Em1942 ingressou, aos 15 anos, no seu estúdio particular, e em 1944, no grupo que viria a servir de base ao Círculo de Iniciação Coreográfica (CIC) onde se manteve cerca de uma década. Participou, como intérprete – inicialmente com o nome de Maria do Céu Vasconcelos – em diversos espectáculos da escola e do CIC, designadamente nas “Tardes Literárias” (no Teatro S. Luiz, em 1947) e em espectáculos de ópera no Teatro Nacional de S. Carlos e no Coliseu dos Recreios. Foi assistente da sua mestra entre 1947 e 1948. Seguiu, em simultâneo, os cursos de Dança e de Teatro no Conservatório Nacional, respectivamente com Margarida de Abreu e Alves da Cunha e Maria Matos. Teve também lições particulares de violino com o professor Gonçalves Pereira.
Diplomou-se no Conservatório em 1948 – com provas de Dança Clássica, Dança de Carácter, Plástica e Composição Individual – com média final de 17 valores. Prestou exame no Teatro Nacional D. Maria II com um solo de sua autoria na prova de composição, “Prelúdio”, para a música de piano de Rachmaninov, tendo-lhe sido seguidamente concedida a Carteira Profissional de Actriz/Bailarina.
Águeda Sena desde logo se revelou um dos nomes mais promissores do CIC – juntamente com Fernando Lima e Anna Mascolo – começando por integrar o corpo de baile e, de seguida, dançando alguns papéis solísticos, designadamente em “Chopiniana”, “Arraial na Ribeira”, “Polaca Heróica” e, sobretudo, em “Tito e Berenice”, em que interpretou uma dos papéis titulares.
Para se aperfeiçoar fez repetidas viagens a Paris na qualidade de bolseira do Instituto de Alta Cultura (entre 1948 e 1953), tendo estudado dança clássica com as famosas mestras Olga Preobrajenska, Mme Rousanne e, sobretudo, Lubov Egorova. Naquela cidade teve os primeiros contactos com a dança moderna ao estudar com Leonard Lenwood, bailarino principal e professor da companhia da bailarina antropóloga e coreógrafa norte-americana Katherine Duhnam, então em digressão pela Europa. Juntamente com a colega e amiga Luisa Vitorino – também uma antiga aluna de Margarida de Abreu – integrou, durante alguns meses, o elenco da citada companhia.

1955
Em Paris, frequentou o Curso de Pedagogia da Sorbonne (1948-1950) e um curso nocturno de História de Arte no Museu do Louvre, durante o ano de 1949, e estabeleceu contactos com artistas famosos do teatro francês, designadamente Jean-Louis Barreault e Jean Villar. Dançou a “Valsa” e o “Prelúdio” de “As Sylphides” em 1950, no Teatro Alhambra, em Paris, num espectáculo dirigido por Jean Guélis, e em 1952 dançou o solo “Les Mains”, da sua autoria, como solista na companhia Galas de Danse, de Lycette Darsonval. Juntamente com Fernando Lima e Anna Mascolo participou, em 1952, nos espectáculos intitulados “Recital”, “Tarde de Ballet” e “Noite de Arte”, sob a direcção conjunta de Margarida de Abreu e Fernando Lima, em criações de ambos. Depois de várias estadas em França tomou contacto com a “escola inglesa” tendo frequentado, em 1953, um Curso de Verão para Professores de Ballet na escola no Saddler’s Wells Theatre Ballet (actualmente Royal Ballet) de Londres. Cidade onde também trabalhou com alguns professores particulares, mormente Cleo Nordi e Anna Northcote. Seguidamente entrou para aquele conhecido estabelecimento de ensino onde frequentou as classes de nível “profissionalizante” e chamou a atenção de Arnold Haskel e de outros membros importantes da companhia. No início do ano de 1954, não pôde concretizar alguns projectos coreográficos em Londres por ter adoecido gravemente com tuberculose. Pelo que permaneceu internada quase ano e meio em hospitais londrinos (mormente o conhecido sanatório londrino, Royal Brompton Hospital), só tendo regressado a Lisboa em Maio de 1955.
Após um rápido período de convalescença, Águeda Sena casou-se com Fernando Lima e, pouco depois, recomeçou a dançar a seu lado na “super-fantasia musical” de Vasco Morgado, “Melodias de Lisboa” (de Agosto a Dezembro de 55) e, posteriormente, no recém criado por ambos, “Ballet-Concerto”. Grupo que se estreou a 29 de Novembro no Cinema Império, patrocinado pelo Instituto de Alta Cultura, e em cujo reportório constavam, além de peças de Fernando Lima e da veterana Margarida de Abreu também uma obra sua: “Em Nossas Torres de Marfim” (com música de Stravinski). Seguidamente, com o grupo “Danças e Cantares de Portugal – Bailados Portugueses de Fernando Lima”, Águeda dançou, como primeira figura, diversas obras entre as quais “A Severa” (com coreografia de Lima e música de Fernando de Carvalho, 1956), no Teatro Monumental, no Casino do Estoril e depois participou numa digressão europeia que durou vários meses. No teatro de Annecy, na Alta Saboia (França) durante mais de uma semana, o grupo fez a primeira parte de uma série de espectáculos com a famosa Edith Piaf.
Juntamente com Fernando Lima, após o regresso do estrangeiro, participou na revista “Melodias de Sempre” no Teatro Monumental (em 1956), e em duas peças de teatro, protagonizadas por Laura Alves e Artur Semedo. Entre 1955 e 1958, o casal Sena-Lima colaborou regularmente com empresário teatral Vasco Morgado dançando e coreografando para o teatro ligeiro. Tendo Águeda, nessa época, ficado bastante popular, sobretudo, por interpretar o papel de Severa, em “O Fado”, com uma certa regularidade. Um dos elencos desse “número” avulso contou, mesmo, com a bailarina como “Severa”, o coreógrafo em “Marialva”, e a conhecida actriz Laura Alves (em travesti) como “Custódia”.
Ainda num período de implantação da Radiotelevisão Portuguesa (RTP), que começara a emitir esporadicamente a 4 de Setembro de 1956, Águeda e Fernando participaram na sua primeira emissão oficial, a 7 de Março de 1957, interpretando o bailado “Os Enganos do Amor”, com música de Tchaikovski, enredo de Tomaz Ribas, realização de Artur Ramos e coreografia de Fernando Lima.
A partir de então, o casal começou a trabalhar em televisão com regularidade – mais ou menos de três em três semanas, segundo a coreógrafa – dançando diversos bailados coreografados por Fernando e mesmo uma suite de “As Sílfides”. Ambos intervieram também na primeira rubrica de teleteatro apresentado pela RTP, “Monólogo do Vaqueiro” do realizador Álvaro Benamor, a 11 de Março de 1957. Em Setembro do mesmo ano dançaram numa noutra revista do Teatro Monumental “Música, Mulheres e…” na qual assinaram também as coreografias.
No ano de 1960, Águeda Sena fez parte do projecto “Pássaro Azul”, movimento de iniciação às artes para crianças de condição humilde de alguns dos bairros de Lisboa. Nesta “academia de artes infanto-juvenil”, sob a orientação da poetisa Fernanda de Castro directora dos Parques Infantis (de Lisboa), Águeda encarregou-se durante dois anos e meio do ensino da dança.

1966
Ao formar-se o Grupo Experimental de Ballet (GEB) do Centro Português de Bailado, subsidiado pela Fundação Gulbenkian, a coreógrafa participou no seu primeiro espectáculo – a 11 de Maio de 1961 no Porto – e nos seguintes, com a peça “Pastoral” (mús. Stravinski e cenografia e figurinos de Inês Guerreiro), dançada seguidamente em cidades como Porto, Aveiro, Lisboa, Guimarães e Viseu. Em Dezembro de 1961 foi contratada como bailarina principal do Grupo de Bailados Portugueses Verde-Gaio, associado ao Teatro Nacional de São Carlos, sob a direcção de Margarida de Abreu e Fernando Lima, na qual, uma vez mais, dançou repetidamente o papel de “Severa” no bailado homónimo (um remake do “Fado” de Fernando Lima, então com música do compositor Jaime da Silva Filho). Em Agosto de 1962, com o estatuto de bailarina, mudou-se para o GEB, sob a direcção do inglês Norman Dixon.
Nos programas televisivos “Poesia e Movimento”, da sua autoria, Águeda coreografou obras de 19 poetas portugueses, uns já falecidos e outros seus contemporâneos, tais como Fernando Pessoa, Cesário Verde, Herberto Hélder, Mário Beirão, Mário de Sá-Carneiro, Bernardim Ribeiro, Camilo Pessanha, Sebastião da Gama, Augusto Santa Rita e Carlos Queiroz, entre outros. Os citados programas, que iniciam um género de “dança-teatro” em que Águeda foi pioneira, com a abordagem de alguns dos poetas portugueses perseguidos pela Censura, terminaram em Julho de 1967. Numa altura em que os poucos coreógrafos portugueses, praticamente, se preocupavam em desfiar temas históricos, Águeda foi a única a entrar por caminhos mais controversos tendo mesmo tratado, alguns temas fracturantes. Como foi o muito divulgado caso verídico em que se baseou para coreografar “O Crime da Aldeia Velha”. Obra marcante que teve estreia a 24 de Maio de 1963, pelo Grupo Experimental de Ballet com música de Dmitri Chostakovitch – o compositor favorito da coreógrafa – e cenografia e figurinos de Inês Guerreiro, inserida no VII Festival Gulbenkian de Música, no Paço dos Duques em Guimarães. A obra teve sucessivas apresentações em Coimbra, Leiria, Porto, Caldas da Rainha e Aveiro. O então director da companhia, Norman Dixon, afirmou publicamente que “o seu trabalho de coreógrafa era particularmente interessante […] e a sua peça [“O Crime…”] sobre uma aldeia em chamas era especialmente dramática e cheia de momentos visualmente poderosos”. A própria Águeda, mais tarde, haveria de se integrar no elenco do GEB para dançar o papel de Joana, em substituição de Elisa Worm, a sua criadora.
Na categoria de coreógrafa recebeu em 1963 o seu primeiro Prémio da Imprensa, por este bailado.
No fim daquele ano Águeda Sena participou noutro projecto pioneiro, o “Teatro de Câmara António Ferro”, fundado pela viúva do escritor, Fernanda de Castro, que se apresentou no Teatro Tivoli a 30 de Janeiro de 1964 com o espectáculo “3 Modos de Poesia”, como bailarina e coreógrafa, ao lado de alguns nomes importantes da cultura nacional (Ary dos Santos, Maria do Céu Guerra, Norberto Barroca e João Paulo Guerra) que recitaram mais de dezena e meia de poetas. O grupo apresentou-se também na Estufa Fria, em Lisboa, a 20 e 21 de Junho do mesmo ano. Seguidamente embarcou noutro projecto – ao lado de Norman Dixon, antigo mestre de bailado e coreógrafo do GEB, que entretanto deixara a companhia – intitulado “Ballet-Teatro”, como directora associada, coreógrafa e bailarina de um grupo constituído por alguns dissidentes do GEB numa noite intitulada “Homenagem a William Shakespeare”, a 2 de Junho de 1964, no Cinema Império em Lisboa. A sua coreografia “Macbeth” recebeu, então, excelentes críticas na imprensa da época. Assim se fechou o ciclo de Águeda Sena como bailarina que, já divorciada de Fernando Lima pai do seu filho Gonçalo, deixou de dançar regularmente e, nesse mesmo ano casou-se com o médico Josias Ferreira Gil com quem viveu alguns anos e teve uma filha baptizada Águeda.
Cada vez mais absorvida com a coreografia e o ensino da dança, a artista foi, progressivamente, iniciando, em paralelo, uma carreira de actriz, que adiara ao deixar o Conservatório, então ciente da urgência da sua carreira de intérprete e criadora. Posteriormente, substituiu Dixon na direcção do Ballet-Teatro e chamou a si a autoria de todo o reportório da pequena companhia que se apresentou (com Inês Guerreiro como directora associada) no Pavilhão da Feira das Indústrias a 25 de Janeiro de 1965. A 12 de Agosto, o grupo rumou ao Castelo de Silves (no âmbito do II Festival do Algarve, dirigido por Fernanda de Castro) e a 18 de Setembro a Faro, antes de se apresentar, a 22 de Dezembro em Lisboa, no Teatro Tivoli.
Em Outubro de 66 Águeda registou mais um enorme sucesso ao coreografar a luxuosa revista à portuguesa “Esta Lisboa que eu Amo”, estreada no Teatro Monumental (Lisboa). O crítico Goulart Nogueira escreveu mesmo: “A principal vedeta deste espectáculo, aquilo que constitui uma revelação e inovação feita por portugueses em espectáculos deste género, é a coreografia de Águeda Sena”.
No mês seguinte iniciou uma longa e frutuosa colaboração com o encenador Carlos Avilez, no Teatro Experimental de Cascais (TEC), coreografando “A Maluquinha de Arroios” (de André Brun). Até fins da década de oitenta, Águeda envolveu-se, com crescente intensidade, no teatro, sobretudo na movimentação de algumas encenações em que, pontualmente, também actuou como actriz. Foi marcante a sua interpretação da prostituta Neusa Suely na peça do brasileiro Plínio Marcos, “Navalha na Carne” (1967) no cinema Quarteto, em Lisboa, em Outubro de 1977.
No último dia do ano de 1966, o chamado Ballet de Águeda Sena apresentou a peça “Parque Infantil”, em associação com Francisco Nicholson e Armado Cortês, no Teatro Villaret.
Regressada ao antigo GEB – já sob a alçada da Fundação Gulbenkian, rebaptizado com o nome de Grupo Gulbenkian de Bailado (GGB) e sob a direcção do escocês Walter Gore – a fim de remontar “O Crime da Aldeia Velha” para dois espectáculos no Teatro Tivoli, a 28 e 30 de Janeiro de 1967, a obra voltou a receber excelentes críticas, bem como o aplauso do autor da obra literária, Bernardo Santareno. Logo a 5 de Fevereiro de 1968 o GGB estreou mais uma obra de Sena, “Judas”, (mús. Frei Miguel Cardoso e música concreta), no Teatro Politeama, com o jovem Jorge Trincheiras como protagonista e, a 7 de Março, no programa seguinte, o bailado “Instantâneo” (mús. Luís Filipe Pires). Pelo meio coreografou “D. Quixote”, uma peça do TEC encenada por Carlos Avilez – que se apresentou em Madrid, a 17 e 18 de Abril de 1967 – tendo colaborado, posteriormente, nas premiadas “As Bodas de Sangue” (García Lorca), estreada a 13 de Setembro de 1968, “O Comissário de Polícia” (também em 1968) e “Antepassados, Vendem-se” (1970). Juntamente com Fernando Lima, do Grupo de Bailados Portugueses Verde-Gaio, e Carlos Trincheiras do GGB (este como “revelação” na coreografia) recebeu um segundo Prémio da Imprensa em 1968. No ano seguinte coreografou para o GGB “Tempos Modernos” (mús. Marius Constant), estreado a 10 de Janeiro de 1969, no Politeama, e “Concerto” (mús. Chopin), estreado a 14 de Fevereiro, já no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian.
No ano em que o Japão organizou a grande Exposição mundial, a Expo’70 em Osaka, Águeda considerou ter tido “o maior triunfo da sua carreira” com “Namban Matsuri”, um espectáculo multidisciplinar interpretado por duas companhias de dança, vários actores e um grupo musical. Com coreografia de Sena (e coordenação de Carlos Avilez), a obra teve Expedito Saraiva na assistência coreográfica e ensaios e de Luís Filipe Pires na composição musical, para além da colaboração de vários artistas plásticos de nomeada, dos quais se destacam Júlio Resende, Francisco Relógio, José Rodrigues e Amândio Silva. A sua estreia absoluta aconteceu a 24 de Agosto, numa co-produção luso-nipónica com mais de 200 intérpretes portugueses. Na longa lista incluíam-se artistas do Grupo Gulbenkian de Bailado, do Grupo de Bailados Portugueses Verde-Gaio, do Teatro Experimental de Cascais, do Coro da Universidade de Coimbra e, ainda, vários artistas japoneses. Apesar do sucesso e da espectacularidade da proposta, a coreógrafa não tirou grandes dividendos nem da sua originalidade nem da sua monumentalidade. O sucesso da peça, no público de todo o mundo e na critica japonesa, e o seu entusiasmo pessoal terão levado a coreógrafa, de volta a Lisboa, a fazer algumas tentativas para montar em Portugal uma versão (ainda que reduzida) de “Namban”. A certeza, porém, é que o poder político e artístico da época não “viram com bons olhos um projecto com aquela pujança”, segundo palavras da artista.
Depois da experiência japonesa, Águeda Sena passou a colaborar regularmente com o TEC nas encenações de Carlos Avilez. Ela aparece em cena, no final de 1970, como actriz e coreógrafa da obra “Breve Sumário da História de Deus”, de Gil Vicente (que foi antecedida da peça “Sotoba Komachi”, de Yukio Mishima, trazida do Japão), encenada por Avilez para o TEC. Em 1971 colaborou, uma vez mais, com a companhia na montagem de “Ivone Princesa da Borgonha”, que recebeu o Prémio da Imprensa (1971) para “melhor espectáculo”. No final do ano (a 2 de Dezembro) encenou um espectáculo duplo com “Acto Sem Palavras” (de Samuel Beckett) e “Sinfonia dois Salmos” (mús. Stravinski) para o TEC. Posteriormente, voltou a colaborar com Carlos Avilez em “Fuenteovejuna” (1973), “Cerimonial para um Combate” (1975), “A Ópera dos Três Vinténs” (1976), “O Que é Que Aconteceu na Terra dos Procópios” (1980), “Onde Vaz, Luís?” (1981), “Portugal, Anos 40” (1982), “Jedermann (Todo-o-Mundo) Auto da Moralidade da Morte do Homem Rico” (1983), “Galileu Galilei” (1986) e a “A Dama das Camélias” (1995).
Em 1971 foi convidada para montar, na Noruega, um espectáculo composto por peças curtas do dramaturgo, poeta e músico francês (por vezes associado com o “teatro do absurdo”) Jean Tardieu (1903-1995). Na qualidade de bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian esteve em Copenhaga (Dinamarca) onde encenou no Durhan-Banden Group, com o qual ganhou um prémio para teatro infantil. A sua deslocação àquele país deveu-se ao facto de, no ano anterior, ter sido, no Conservatório de Lisboa, um dos professores-assistentes dos mestres estrangeiros Jens Schmidt e Danny Anderson, da Comedievognen, que regeram várias cadeiras no curso de teatro. Em Novembro de 1972 o Serviço de Música da FCG voltou a contratá-la para coreografar mais uma peça para o GGB, “Amargo”, com música tradicional indo-portuguesa. Em 1975 coreografou “Adsum” (mús. Vivaldi), e em 1977 “A Valsa Mais Triste” (mús. Mahler), a sua derradeira obra para a Gulbenkian. Em 1979 recebeu a carteira profissional de Pedagoga de Teatro e Dança Internacional, tendo sido convidada para exercer funções docentes em conservatórios de Teatro e de Dança em Berlim, Leipzig e Dresden. Nesse mesmo ano leccionou um seminário de Dinâmica Educativa para professores, grupos chineses de teatro e jovens dos liceus luso-chineses no Instituto Cultural de Macau.
Posteriormente coreografou na República Democrática Alemã e na Dinamarca.
Em 1981 elaborou para o GETAP (Ministério da Educação) o decreto que regulamentava o ensino da expressão dramática desde o ensino básico ao secundário. Nesse mesmo ano criou a Associação Cultural e Artística de Investigação – Teatro Espaço – onde formou dezenas de profissionais e obteve um prémio da crítica e de revelação por um ciclo constituído por cinco farsas contemporâneas brasileiras, bem como “Cidade Rei”, “O Gigante Verde” e “Que Vergonha Dª. Berta” de dramaturgos portugueses, em que, além de encenação e coreografia, também participou como actriz.
No ano de 82, pela mão de Carlos Trincheiras – seu assistente em “A Valsa Mais Triste” – voltou a pisar o palco do grande Auditório da FCG, como actriz convidada, na peça “Da Vida e da Morte de uma Mulher Só”, assinada por aquele coreógrafo.
Em 84, regressou ao oriente, a convite do Instituto Cultural de Macau e, durante quatro meses, realizou vários seminários de Dinâmica Educativa culminando com um espectáculo sobre obras de Gil Vicente, intitulado “A Riqueza e a Justiça”.
Em Setembro de 88 repôs, numa sociedade recreativa na Rua da Fé (em Lisboa), “O Gigante Verde”, do dramaturgo e poeta Manuel Granjeio Crespo (1939-1983) que, segundo Maria de Fátima Marinho, foi “um dos raríssimos casos de teatro surrealista em Portugal”.
Entre 1989 e 1994, Águeda Sena desempenhou o cargo de professora Coordenadora na Escola Superior de Teatro e Cinema e, entre Setembro de 1998 e Janeiro de 2000, leccionou também na Escola Profissional de Teatro Experimental de Cascais, sob a direcção de João Vasco e Carlos Avilez.
No cinema, foi responsável pela coreografia de “O Rico, o Camelo e o Reino ou O Princípio da Sabedoria” (1976) de António de Macedo e foi intérprete nos filmes “Tráfico” (1998) de João Botelho e “Mal” (1999) de Alberto Seixas Santos.
A partir do ano 2000 empenhou-se na edição, mas sobretudo, na encenação de obras de seu pai, António Faria de Vasconcelos.
Em 2004 e 2005 dirigiu e encenou no Auditório da Sociedade Portuguesa de Autores, respectivamente, as peças “O Espírito de Combate” e “O Valor da Vida”, dois monólogos a cargo da actriz Inês Saldanha, numa iniciativa da Associação Cultural Peça por Peça, com base em textos do seu pai. Tal como o monólogo, “A Dor”, posteriormente interpretado por Leonor Alcácer, estreado no âmbito no 9.º aniversário do Departamento Autónomo de Arquitectura da Universidade do Minho e que Águeda Sena encenou para comemorar os seus 50 anos de carreira artística.
Em 2001 voltou, pontualmente, aos palcos como intérprete numa obra de Rafael Alvarez, “Match Nulo”, exibida no Centro Cultural de Belém, ao lado do coreógrafo e de Didier Chazeau, Kimberley Ribeiro e Sofia Campos.
Recebeu o Prémio da Casa da Imprensa (1962) como melhor coreógrafa entregue a 14 de Fevereiro de 1963, no Pavilhão dos Desportos, que também distinguiu também nessa ocasião, na mesma categoria, os bailarinos Isabel Santa Rosa e Armando Jorge. Um segundo Prémio da Imprensa (1967), posteriormente conhecido como Prémio Bordalo, como coreógrafa entregue pela Casa da Imprensa, a 17 de Março de 1968, depois de um espectáculo do GGB no Teatro Politeama, em que se estreou “O Lodo” de Carlos Trincheiras. O prémio do Melhor Espectáculo, na Expo’70 em Osaka e a Medalha de Mérito Municipal, Grau Ouro, do Concelho de Oeiras (7 de Junho de 1990). Em 1994 foi feita Comendadora da Ordem do Infante D. Henrique, no dia 9 de Junho. Recebeu o Título de Cidadã Honorário de Cascais (7 de Junho de 1996) e, em Maio de 2005 foi galardoada com a Medalha de Honra da Sociedade Portuguesa de Autores, na área “Teatro/Artes Cénicas”, juntamente com Carlos Avilez, Eduardo Damas, Fernando Lima, Jaime Gralheiro, Jaime Salazar Sampaio, Manuel Paião, Luiz Francisco Rebello e Raul Solnado.
Em 2008, o Centro de Dança de Oeiras e a Revista da Dança, homenagearam-na no Auditório Municipal Eunice Muñoz no Dia Mundial da Dança, 29 de Abril.
No mês de Outubro de 2015, Águeda de Sena foi uma das homenageadas na série de selos Pioneiros da Dança Portuguesa, da autoria de António Laginha, emitidos pelos CTT, juntamente com Carlos Trincheiras, Francis Graça, Fernando Lima, Isabel Santa Rosa e Margarida de Abreu.

1948

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Antonio Laginha

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