In Memoriam Sem categoria — 01 Abril 2019
LARRY RHODES (1939-2019) CALOU-SE UMA VOZ DOCE, CONHECEDORA E SENSATA DA DANÇA NORTE-AMERICANA

O bailarino, professor e director de companhia, Lawrence Rhodes, deixou-nos no dia 27 de Março, aos 80 anos. Rhodes, que era bastante conhecido na comunidade da dança nova-iorquina, que o tratava apenas por Larry, teve uma longa e profícua carreira como artista da dança e era muito estimado pelo seu carácter afável, refinada educação e grande delicadeza no contacto com todos os bailarinos e colaboradores.

O seu último cargo importante foi a direcção do Departamento de Dança da Juilliard School, de Nova Iorque, do qual se jubilou em 2017. O seu trabalho, dentro e fora dos palcos, estendeu-se por mais de seis décadas com muito sucesso e elogiado por artistas, e não só.

Conheci Larry Rhodes em 1986, quando comecei a fazer as suas aulas de dança clássica diariamente na New York University (Tisch School of the Arts) no Lower East Side, de Mahhatan. Nunca o vi dançar ao vivo mas sei que foi um dos maiores bailarinos norte-americanos da sua geração. Trabalhei regularmente com ele durante mais de dois anos, mantivemos uma excelente relação de amizade muito para além desse tempo e posso testemunhar que era um ser humano e artista muito apreciado e querido.

Sempre nutri por ele grande admiração, respeito, amizade e gratidão. Os seus ensinamentos eram claros, assertivos, bem humorados e de uma enorme leveza e rigor técnico. A sua metodologia assentava, principalmente, num contacto muito pessoal e generoso com os alunos tornando simples os mais complexos segredos da arte da dança académico-clássica.

Larry era sempre muito profissional no estúdio, assim como no gabinete de direção, mostrando particular sensatez e grande sabedoria em todas as áreas da sua profissão. Por tal, foi, durante muitos anos, uma trave mestra do departamento de Dança da Tisch School of the Arts.

Lawrence Rhodes nasceu em Mount Hope, na Virgínia Ocidental, em 1939, tendo a sua família, posteriormente, ido viver para Detroit. Aos 9 anos, uma jovem colega de aulas, Glenda Ann Bush, levou-o para o sapateado e ambos formaram um duo conhecido como Buddy e Glenda Ann (Rhodes era conhecido por Buddy até que Robert Joffrey o renomeou Larry na década de 1960), que se apresentou em vários espectáculos pela cidade.

Embora Rhodes fizesse aulas de dança com Ruth Miltimore, só começou a estudar dança clássica seriamente depois de assistir a uma apresentação do American Ballet Theater aos 14 anos e de ter visto espectáculos com Alicia Alonso e Igor Youskevitch. Estudou com Violette Armand e passou o Verão de 1956 em digressão pelo Midwest com a professora de Chicago, Dorothy Hild.
Determinado a mudar-se para Nova Iorque, Larry estudou afincadamente para terminar o ensino secundário. Segundo as suas próprias palavras foi “o primeiro homem da sua família a obter um grau académico”.

Trabalhou cerca de seis meses na Chicago Theatrical Shoe Company para ganhar dinheiro para se sustentar, e no 4 de Julho (dia nacional dos Estados Unidos da América) de 1957 dizia ” ter-se mudado para a cidade que nunca dorme”, apenas com 400 dólares no bolso.
Começou, de imediato, a  estudar na Ballet Russe School, com professores como Leon Danielian e Frederic Franklin, e absorveu o máximo de arte que a instituição e a cidade lhe podiam oferecer. Em 1958, apenas um ano depois de ter chegado a Manhattan, Larry foi aceite no corpo de baile do Ballet Russe de Monte Carlo. Mais tarde começou a estudar com Robert Joffrey tendo, posteriormente, ingressado na sua companhia.

Os seus tempos no The Joffrey Ballet foram marcados por uma forte componente criativa, continuados, a partir de 1962, com Rebekah Harkness que o contratou para a sua nova companhia. Nela protagonizou a obra Time Out of Mind, de Brian MacDonald. Nos anos seguintes recebeu excelentes críticas em trabalhos como The Abyss, de Stuart Hodes, Sebastian e After Eden , de John Butler  e Monument for a Dead Boy, do holandês Rudy van Dantzig. Em 1967, com apenas 28 anos, Rhodes assumiu o cargo de diretor do Harkness Ballet, continuado a dançar na companhia até à sua extinção, com a morte de Rebekah em 1970. Pouco tempo depois casou-se com sua colega de longa data, Lone Isaksen. Larry e a mulher dançaram na temporada seguinte com o Dutch National Ballet antes de regressarem a Nova Iorque, para o nascimento de seu filho, Mark. Na maior parte da década de 1970, Rhodes trabalhou como artista convidado, no Pensilvânia Ballet, no Dennis Wayne’s Dancers e no Elliot Feld Ballet, bom como com as bailarinas Naomi Sorkin e Anne Marie de Angelo, tendo sido, durante dois anos, co-diretor do Milwaukee Ballet. Em 1974 fez digressões em Itália, ao lado da ballerina italiana Carla Fracci, dançando Albrecht, em Giselle, e Mercúrio em Romeu e Julieta. Durante esse período, Rhodes deu aulas regularmente aos bailarinos do grupo de Carla Fracci tendo se começado a interessar-se profundamente pelo ensino da dança clássica. Em 1978, após um espectáculo em que desempenhou o papel de Mercúrio, deixou os palcos.

Anos depois foi convidado para o corpo docente da New York University, tendo-se encarregado da profissionalização do programa de dança, condensando a graduação de quatro anos em três e melhorando o programa do Masters of Fine Arts com a ajuda de outra professora notável, Deborah Jowitt. Rhodes também deu novo ânimo à Second Avenue Dance Company, tornando obrigatório a participação de todos os alunos finalistas nos seus trabalhos. 
Em 1989,  Larry deixou a NYU para dirigir Les Grands Ballet Canadiens, em que permaneceu até 1999, tendo convidado coreógrafos como James Kudelka, Nacho Duato, Jiří Kylián e William Forsythe para ampliar o reportório da companhia de Montreal. Nessa época lecionou, particularmente no Verão, em diversas companhias europeias de nomeada, designadamente o Nederlands Dans Theater, o Ballet de Frankfurt e o Ballet da Ópera de Lyon.

No verão de 2002 Rhodes foi convidado para Director da Divisão de Dança da The Juilliard School e, tal como fizera na NYU, teve um acção muito importante na renovação do seu currículo escolar. Não só ampliou as oportunidades de performance para ao alunos (através da New Dances, um show anual que dava a cada jovem bailarino da escola a hipótese de se envolver no processo coreográfico) mas também convidou uma expressiva lista de coreógrafos para a Juilliard, como, aliás, já o tinha feito na NYU. Outro destaque da sua passagem por aquela famosa instituição foram as três digressões nos EUA e Europa.

Lawrence Rhodes foi homenageado pelas suas contribuições para a melhoria da escola após o programa New Dances, de 2017.

Na qualidade de artista da dança apareceu nada menos que três vezes na capa da famosa revista norte-americana, Dance Magazine, entre 1966 e 1975, e recebeu o prestigiado Dance Magazine Award, em 2015.

 

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Antonio Laginha

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