Dentro — 06 Junho 2018
O INSTINTO TEATRAL DO “GRUPO DE RUA”

De entre todas as propostas do Festival Alkantara (que corre entre 23 de Maio e 9 de Junho em Lisboa), o Grupo de Rua de Bruno Beltrão, sedeado na cidade de Niterói em frente do Rio de Janeiro, foi, seguramente, uma das mais aliciantes em termos de movimento. Aliás, terá sido o citado festival que abriu as portas da Europa àquele coreógrafo em 2002 e, desde então, Portugal já viu algumas das suas criações.
A peça “Inoah” foi protagonizada por uma dezena de rapazes cuja formação deve ter passado por estilos “livres” como o hip-hop e o breakdance e, tal como muitos grupos que se encontram em cidades francesas, como Lyon, por exemplo, hoje dedicam-se a uma fórmula híbrida que se pode incluir num amplo grupo denominado danças urbanas.
Alguns coreógrafos, como é o caso de Beltrão, deram mesmo um passo à frente e sofisticaram o seu trabalho criando uma linguagem coreográfica elaborada resultante de uma fusão de estilos. E, naturalmente, com a ajuda de meios cénicos e de produção que levam as chamadas “danças de rua” a um outro patamar e a adquirir um estatuto que, ainda há pouco, lhes era negado.
No caso do Grupo de Rua, pode, mesmo detectar-se uma forte presença de um “dança” autóctone e acrobática que começou por ser um conjunto solto de códigos de autodefesa e que passou a uma espécie de arte marcial, a capoeira.

“Inoah” é um trabalho marcadamente abstracto em que os artistas vestidos de cores diferentes (mas tendo em comum uma calças largas que mais parecem saias rodadas) vão se agrupando em conjuntos, mais ou menos inusitados, ao som de um ruído contínuo de uma espécie de motor e, depois, de um som metálico repetitivo.
A peça começou com um par vestido de negro, a que se juntou um rapaz de azul e outro de branco, desenhando formas e combinações com súbitas paragens. Os primeiros movimentos algo periféricos das extremidades deram lugar a outros de carácter idiossincrático e nervoso, complementados por saltos ou deslocações rasteiras de grande virtuosismo técnico.
Ainda que os bailarinos se agrupem em conjuntos de números variáveis a impressão que deixa no espectador é que a toda arquitectura da obra assenta na arte do dueto. A reciprocidade dos movimentos dos corpos é um factor sempre presente e bem visível. Isto é, nada, mesmo nada, parece improvisado e tudo, mas tudo, parece partir de uma ideia assente em sucessivos duetos O trabalho apresenta uma duração particularmente rigorosa: 50 leves minutos.
Se o elemento som não parece dar grande chão a esta peça (embora crie um ambiente algo encantatório) já a iluminação – ora subtil ora drástica – é particularmente sensível aos corpos dos homens e, mesmo, à parca “cenografia”. Que consiste num conjunto simples de painéis iluminados onde, discretamente, se projectam algumas imagens e formam uma banda à volta do palco por cima do espaço dominado pelos artistas. De resto, tudo é negro, dando protagonismo aos jovens bailarinos que, de um modo casual, fazem um trabalho altamente focado e algo mecânico sem, contudo, deixar transparecer que a sua motivação vai muito além de um assertivo instinto de competição ao que se junta uma exibicionista fome de espaço.

Fotos: Kerstin Behrendt

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Antonio Laginha

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