Dentro — 03 Maio 2018
CIRCOLANDO AO RAIO X

A vinda à capital de grupos de dança nortenhos é, certamente, cada vez mais interessante para aferir o trabalho descentralizado que se tem vindo a fazer pela província (sobretudo nos últimos anos) e ao, mesmo tempo, poder separar o “trigo do joio”. Justamente numa época em que tudo se deve escrutinar, quando os espectáculos nem sempre se pagam e os apoios “públicos” falham, quantas vezes, para os que mais deviam ser apoiados.

O grupo Circolando, dirigido por Claudia Figueiredo e André Braga surgiu em 1999, no impulso dessa vaga (francesa) a que, genericamente, se chamou “novo circo” e, desde então, seguiu por caminhos diversos, clamando para si um certo regime de hibridismo (ou de transdisciplinaridade).
Actualmente, na publicidade de “Raio X”– a sua última peça, apresentadoa no Teatro Municipal São Luiz em meados de Abril – ela remete-o para um grupo que se inscreve na área da dança. Mas que dança ?

Do seu já vasto reportório constam algumas obras que Lisboa pôde ver, embora, provavelmente, não seja na capital, onde não existe uma companhia “estável” de circo moderno, que se encontram os seus mais fervorosos admiradores. Pode-se, a propósito, afirmar que algumas das suas “criações passadas” lembravam, no visual, o trabalho (algo artesanal e muito teatral) de Josef Nadj, Mas que, hoje, esse toque se desvaneceu.
No que concerne à aludida criação, um dueto interpretado por Braga e Paulo Mota, com o sonoplasta Pedro Augusto, que também se apresenta em palco – a muleta principal, parece ser uma colecção de textos de filósofos muito batidos na reflexão “terpsicorena”. Que, aliás, aparecem projectados de frente num cru rectângulo de plástico preto, ao longo do espectáculo, mas, que parecem completamente alheados do próprio movimento. O que torna, desde logo, bastante questionável a sua inclusão. Frases como, “o que pode um corpo?”, “de que afectos é capaz” e “o corpo é um corpo, está só e não precisa de órgãos” e mais a nota impressa que acompanha a obra, poderiam se aplicar até a um espectáculo de marionetes ou dos “pauliteiros de Miranda”!

Quando as portas se abrem para o público dois homens estão no centro do palco a correr no mesmo lugar, ofegantes e com alguns toques de nervosismo, como se de dois atletas de fundo se tratasse. Após essa primeira impressão “pedestre” executam outras actividades mais ligadas ao solo e ondulam os corpos seminus durante algum tempo.
Não havendo texto falado os dois intérpretes tentam dialogar com o público através de projecções em tempo real e muito bem sincronizadas sobre os dois corpos com câmaras fixas e móveis.
Mais tarde, cobrem com plástico a máquina em que Augusto faz um som particularmente agreste (e desinteressante), semelhante ao de uma serralharia – colocada no lado direito do palco – e trazem para o meio da cena uma caixa que bombeia tinta com a qual, através de tubos pintam os painéis à pistola e espalham uma “nuvem tóxica” pelos espectadores das primeiras filas.
Após cobrirem muitos metros quadrados de plástico com manchas de tinta branca desnudam-se e pintam o próprio corpo, deslizando, desatinadamente, sobre mais plástico que lhes serve de base para fazerem umas quantas… diabruras.
De resto, a peça, não apresenta nada de muito interessante em termos de movimento e não mostra grande espessura dramática embora alguns dos seus “quadros” sejam, até, fotogénicos.


Sugerindo tocar vários universos – dança, filosofia e movimento e tarefas do quotidiano – os intérpretes estiveram muito longe de construir paisagens que tivessem reflectido alguma espécie de mistério!
“Raio X” salda-se, pois, numa maratona de movimento em que se privilegiou a “endurance” e uma meia dúzia de propostas visuais, em vez de um trabalho de corpo depurado e uma dramaturgia atractiva e bem estruturada.

Fotos: João Fitas

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Antonio Laginha

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