Dentro — 13 Outubro 2017
DIDO E ENEIAS NA CNB: UMA JORNADA COM FIM À VISTA

Foto de António Cabrita e São Castro.

O espectáculo de abertura da primeira “saîson” da Companhia Nacional de Bailado, sob a direcção de Paulo Ribeiro, apresentou a peça “Dido e Eneias”, da autoria da dupla de bailarinos-coreógrafos São Castro e António Cabrita. Coincidência, ou não, eles são os mesmos que substituíram Ribeiro no Teatro Viriato (em Viseu) onde, com entradas e saídas, este se manteve mais de duas décadas.

A obra escolhida foi mais uma abordagem à triste história da sofrida Dido, rainha de Cartago, que é abandonada pelo seu apaixonado Eneias, refugiado na cidade depois de Tróia ter sido destruída pelos gregos – segundo o livro IV da Eneida, do poeta romano Virgílio – conduzida pela atractiva, doce e inspiradora música da obra homónima do inglês Henry Purcell (de 1689). Infelizmente o tema não terá despertado a atenção dos lisboetas para a peça estreada no Teatro Camões a 12 de Outubro (2017), uma vez que a sala estava meio cheia. Ou meio vazia, numa óptica menos optimista. 

Começando por mencionar a composição musical, muita gente saberá que a pérola desta ópera barroca é o famoso “Lamento de Dido” (no final do bailado), já muito batido e coreografado. E no que toca à dança, que o coreógrafo norte-americano Mark Morris, quando era director do Théâtre de La Monnaie em Bruxelas, fez uma versão icónica em 1989 que, pela sua dinâmica e invenção, desde logo, marcou uma posição cimeira no mundo do bailado. Até porque Morris, sem qualquer pudor, deu primazia ao movimento, empurrando para fora de cena os músicos e cantores.

Os criadores portugueses supra citados também combinaram música vocal barroca com dança contemporânea, porém, sem o encanto e a energia única do acompanhamento musical ao vivo. E se, em muitas outras versões, os coreógrafos normalmente seguem uma linha dramatúrgica minimamente reconhecível, poder-se-á afirmar que a narrativa neste trabalho se situa entre o residual e simbólico. Aliás, reconhece-se, vagamente, Dido (Henriette Ventura) que deambula sozinha em cena quando a cortina se levanta, seguida por uma “massa humana” – de movimentos rasteiros e pastosos – constituída por 23 indivíduos, de onde saem as outras personagens, designadamente Eneias (Lourenço Ferreira). Também se destacam, pontualmente, do “coro” Miguel Ramalho e Irina Oliveira que, tal como os anteriores, encarnam com autoridade e forte expressão dramática, respectivamente o feiticeiro – uma bruxa noutra versões – e Belinda, a aia para quem Dido canta, na despedida, lembra-te de mim… mas esquece o meu fado.    

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A acção de “Dido e Eneias” desenrola-se, ao longo de mais ou menos uma hora, sem grandes “atropelos” num palco aberto em que se cruzam duas linhas de rectângulos translúcidos suspensos do tecto. Apesar das projecções e de um certo virtuosismo luminotécico de Nuno Meira sobre a cenografia fixa e constante de F. Ribeiro, ela revela-se repetitiva e particularmente fria não fazendo jus à tensão amorosa ou ao sofrimento que as várias personagens tentam arrancar das sua próprias entranhas. Os figurinos, assinados por Nuno Nogueira,   são demasiado “todos iguais todos diferentes”, vestindo homens e mulheres de túnicas e calças com desenhos geométricos e cores entre o vermelho e o grená. O que, naturalmente, dificulta ainda mais a caracterização de qualquer personagem da ópera. Curiosamente, quando Eneias é desnudado pela turba, acontece um momento marcante e subtilmente encantador. Trata-se de um pequeno episódio com solistas/personagens que não se passa em frente do grupo, mas sim, dentro dele. Que se apresenta como um imenso pulmão que se expande e se encolhe numa controlada massa de alvéolos.

É de destacar – pelo seu despojamento – a bela imagem final de Eneias pendurado num balancé a bater contra o cenário e a própria Dido a caminhar para a boca de cena com os tornozelos agrilhoados pelas mãos de um conjunto 22 indivíduos deitados no solo e que inexoravelmente se arrastam atrás da rainha vencida pelo desgosto e que se, adivinha, dirige para o final. O final de uma jornada com fim à vista…  

Em resumo, a obra da dupla Cabrita-Castro é meticulosa, apresenta soluções coreográficas que acariciam os intérpretes e, em simultâneo, mantém um certo mistério no público, mas revela-se pouco expansiva e com um fio de história quase sempre frágil. O trabalho, que mantém em cena todos os intérpretes todo o tempo, é muito centralizado num mesmo espaço e num tempo que a música domina. Foi, realmente, pena que o tocante “Lamento de Dido” se tivesse diluído, sem um assomo de dramatismo, numa obra que parece que não foi feita para voar… Sabe-se lá porquê!

Fotos: Susana Pereira e Bruno Simão

 

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Antonio Laginha

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