Dentro — 28 Abril 2017
O SOL BAILOU EM FÁTIMA E A VÓRTICE EM LISBOA

 

A escassos dias da vinda a Portugal do Papa Francisco para canonizar os Pastorinhos de Fátima – e quando no cinema há, pelo menos, duas novas películas sobre o tema – nada mais oportuno que um espectáculo de dança sobre o “dia em que o Sol bailou”.

Esse é, justamente, o título da peça do Vórtice Ballet (companhia sediada em Fátima há 16 anos) estreada naquela cidade o ano passado, numa encomenda do Santuário, e apresentada durante uns escassos quatro dias em Lisboa, no Teatro Tivoli. A noite de sábado coincidiu, até, com uma efeméride cara aos amantes da arte de Terpsicore, o Dia Mundial da Dança (de 2017).

 

Desde logo, um bailado com um tema tão forte e controverso como é o das “aparições” – ao que se associa a própria validação não religiosa do “fenómeno” -, colocaria grandes problemas a qualquer artista da dança. E Claudia Martins e Rafael Carriço – os criadores, directores, coreógrafos e bailarinos principais da Vórtice – mostraram coragem e determinação, para além da sua conhecida resiliência. É que falar de Fátima sem descrever Fátima, falar do inominável e do indizível sem ser num plano algo simbólico e metafórico requer uma inteligência, maestria e talento artístico muito superiores. Apesar dos meios técnicos e do número de artistas em cena (para um grupo com escassos recursos) a criatividade do casal de Fátima já nos deu obras mais estimulantes e coreograficamente mais espessas e atractivas. Em geral, as produções do grupo são caracterizadas por um certo impacto e por uma energia e garra contagiantes.

Desta vez, o palco funcionou como um espaço em que se dança e se fabricam imagens reais e virtuais complementado por dois grandes ecrãs laterais onde se lêem muitas “avé-marias” e se projectam fotos históricas ou referências explícitas à história das crianças-videntes. Toda a concepção visual é grandiosa e a cenografia (que consta dum belo conjunto de tochas suspensas e iluminadas que se movem subtilmente) muito bem imaginada. Personagens realistas, como os próprios pastorinhos que deambulam pelos campos (em imagens) ou no palco, cruzam-se com outras menos óbvias, como um “diabo” de cabedal vermelho (Rafael Carriço) que faz piruetas e se faz acompanhar de enormes chamas em projecção sugerindo o inferno. Também aparece uma cena com livros que vão desembocar na imagem de uma personagem que evoca a irmã Lúcia em hábito de monja. A coroação da Virgem, precedida de uma cena em que uma coroa em tamanho real viaja de mão em mão e uma procissão final com um andor quase em tamanho real congregam à sua volta um grupo de mais de uma dezena de bailarinos em que um quarteto de rapazes, tem um desempenho bem mais assertivo que o das raparigas.

De um modo genérico, o material coreográfico das várias cenas não é particularmente expressivo nem muito variado diluindo-se um pouco nas poderosas imagens que se desenrolam à direita e à esquerda. E a construção visual mais impactante e bem engendrada que fica na memória dos espectadores é uma cortina de água que cai atrás do palco, logo no início da obra, e que molha os seis chapéus de chuva negros que as mulheres manipulam sem grandes consequências.

Apesar de resultar numa peça para ser vista no enquadramento dos acontecimentos históricos – e para isso foi expressamente concebida – não deixa de ser positivo o facto de contribuir para celebrar, na capital, o Centenário das Aparições de Fátima. Associando-se, neste caso. a dança a uma trajectória bem delineada e percorrida pelos chamados caminhos da fé.

 

 

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Antonio Laginha

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