Dentro — 24 Fevereiro 2017
CNB: ITMOI, ITMOAK OU O SONHO DE ?

Estreado em 2013, em Grenoble (França) pela companhia de Akram Khan, “ITMOI” – título construído com as iniciais das palavras In the mind of Igor – chegou ao Teatro Camões em Fevereiro de 2017, pela mão da Companhia Nacional de Bailado (CNB).

O coreógrafo britânico partiu das “dinâmicas com as quais Stravinski, transformou o mundo clássico da música evocando emoções através de padrões, em vez de expressões, e como esses padrões foram enraizados no conceito de uma mulher que dança até à morte”. Por outras palavras, Khan usa Stravinski sem utilizar a sua música – a peça tem três compositores: Nitin Sawhney, Jocelyn Pook  Ben Frost – e cita “alegoricamente” uma série de elementos da “Sagração da Primavera”, sem encontrarmos mais que analogias ou metáforas. Trata-se de um trabalho bem construído, consistente e muito atractivo visualmente (devido certamente às belas luzes de Fabian Piccioli, aos impactantes figurinos de Kimie Nakano e à depurada cenografia de Matt Deely) cheio de mistérios e de sortilégios.  

Desde logo a gritaria selvagem, ininteligível e possante do “sacerdote” (Lourenço Ferreira) na penumbra, um Stravinski (Miguel Ramalho) que se divide pelas outras personagens, uma rapariga “virgem” (Isadora Valero) que é ensopada com pó branco pela dominadora “lady” (Isabel Galriça), um sensual “fauno” chifrudo (Tiago Coelho), um “acrobata” de longa saia rodada (Francisco Sebastião) e uma “aprendiz” (Irina Oliveira), conferem ao trabalho – com mais oito bailarinos – uma força muito especial.

A abertura e o final são extremamente bem conseguidos com a ajuda de uma cenografia simples mas muito eficaz. Trata-se de umas barras em forma de rectângulo gigante que sobe e se inclina por cima dos artistas e de uma enorme bola-pêndulo que cria uma magia muito especial quando balança aparecendo e desaparecendo entre o claro e o escuro da cena. A música parece evoluir em três planos distintos: umas tonalidades indianas desenvolvidas por Sawhney, uns acordes com tonalidades folclóricas de Pook e uma certa agressividade sonora no trabalho de Frost. Mas, no conjunto, esta inusitada combinação funciona muito bem, resultando o movimento inventado por Khan num invisível cimento bem trabalhado e fluído, especialmente nos conjuntos. Percebe-se que coreógrafo mexe muito bem com os corpos dos bailarinos, tirando bom partido de todos, especialmente, dos “solistas”, sem mostrar “excesso” de coreografia. O que, a determinada altura, parece deixar o trabalho algo cristalizado, na sua irreconhecível narrativa. Nunca se percebe se ITMOI é um pesadelo de um coreógrafo ou o sonho de um bailarino. O bailado estrutura-se a partir de uma série de quadros em que há movimentos que parecem vir de países como a Índia, os Estados Unidos, o Japão, a Rússia, a Espanha e, mesmo, a Turquia. Apesar de ter sido concebido para celebrar o primeiro centenário da criação da obra-prima de Stravinski, a “Sagração” é citada apenas durante alguns (imperceptíveis) segundos.  

Quanto aos elementos do elenco que mais saltam à vista Isabel Galriça, há muito afastada do palco, surge com um vestido construído em círculos, com a forma de uma “bonbonnière”, toda branca e com um seio à mostra, dominando a cena com particular autoridade. Já Lourenço Ferreira nunca se mostrou tão ameaçador e, em simultâneo, tão aguerrido. A sua interpretação é notável. Porém começa num nível tão impressionantemente dilatado que acaba por se diluir ao longo da peça. A razão tem a ver com a maneira como ele é chamado a intervir. Tal como Miguel Ramalho, que oferece uma interpretação sólida e generosa – como sempre – gerindo as suas emoções com alguma contenção. Pena que a sua personagem não se venha a agigantar ao longo de ITMOI pois ele é um excelente intérprete tanto a nível técnico como histriónico. Para Tiago Coelho sobrou um fauno bizarro e cornudo, aparentemente, mais sensual (porém menos lânguido) que o próprio Nijinski terá sido. A cena da “dança” das cordas, em que um corpo masculino no centro do palco, ligado a outros homens como se tratasse de um polvo em agonia, é brutal e, em simultâneo, de uma estonteante beleza cinética.  

É nesta miscelânea de figuras (que vivem e se projectam na penumbra do ecrã no fundo do palco) e de situações mais ou menos perturbadores que Khan parece esboçar um bem pensado ritual de sombras e de emoções. Todavia, uma das muitas questões que parecem ficar no ar é mesmo se o título “ITMOI” não seria substituído, com vantagem, por “ITMOAK” (no pensamento de Akram Khan) ?

Fotos: Bruno Simão e João Costa

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Antonio Laginha

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