Dentro — 02 Março 2016
OS MISTÉRIOS (DA GAIVOTA) DE VÍTOR HUGO PONTES

 

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(Marco Ferreira, na foto)

Depois de passar por Guimarães e pelo Porto, Vítor Hugo Pontes trouxe a Lisboa, ao Centro Cultural de Belém (CCB), a sua versão dançada da obra-prima de Anton Tchekov, “A Gaivota”.

Na verdade não faltou muito vento e fumo no palco nem chuva no exterior do teatro, na noite da estreia lisboeta. Também muito piado de pássaro e ruído de cães a ladrar, muita agitação e mudanças de lugar dos dez artistas em cena. E, seguramente, alguma confusão na plateia onde várias pessoas abandonaram os seus lugares no intervalo julgando que a peça tinha terminado.

Esta leitura ambiciosa da supra citada peça teatral, em que o mais explícito e impactante devem ter sido uns (falsos) tiros de pistola, como não utiliza palavras, por muito que o espectador conheça a fundo o texto original – o que, naturalmente, não será o caso – dificilmente poderá seguir toda uma complexa trama literária que se perde completamente neste verdadeiro exercício de resistência do público. Assim sendo, o coreógrafo-encenador vai esboçando, ao longo de duas longas horas, personagens que se movimentam num falso palco branco em cima do palco do Grande Auditório do CCB. Já não é a primeira vez que Pontes utiliza rampas em espectáculos e já muita gente fez bailarinos enfiarem-se debaixo dos linóleos produzindo um efeito de matéria pisável que se enruga e cresce em formas pouco precisas  que se desmultiplicam. As citadas soluções cenográficas – neste caso ainda entram umas cortinas que são sopradas por ventoinhas e se utilizam umas três filas de cadeiras dispostas em anfiteatro – revelam-se não só pouco originais mas também nada estimulantes.

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(Vítor Hugo Pontes, Leonor Keil e Allan Falieri, na foto)

A peça, cujo título passou a ser “Se alguma vez precisares da minha vida, vem e toma-a”, linha roubada à fala de uma das personagens do texto original, apresenta desenvoltura e cénica e fome de actualidade mas saber contar uma história é, cada vez mais, privilégio de poucos coreógrafos .

Vestidos de  roupa de rua, e com idades muito díspares, os bailarinos vão contracenando em duetos ou grupos mais alargados, entrando e saindo de cena por todos os lados de um palco descarnado em que se evidenciam pesadas armaduras luminosas que sobem e descem indiscriminadamente, criando mais “alimento” para os olhos do que para a mente. Todo o trabalho acaba por se desenvolver numa espécie de sequência de situações e de “diálogos” gestuais que apresentam maior ou menor ambiguidade e, frequentemente, parecem buscar apenas um certo clima e alguns efeitos visuais. Em determinada altura alguns dos artistas sentam-se, mesmo, no lado direito do palco, nas cadeiras presentes, como que estivessem em repouso e a ver a sua peça de fora para dentro. Comportando-se como espectadores da própria vida que assistem a algo que se situa entre o despojamento e o paradoxo. Despojamento na mais completa depuração dos temas que se pretendem fazer vir à tona em “A Gaivota” – o amor e a arte – e paradoxo porque sem elementos um pouco mais ilustrativos não se vai muito longe…

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(Leonor Keil e Allan Falieri, na foto)

Entre os bailarinos destacam-se, pela sua pujança física, Marco Ferreira (uma revelação televisiva que melhorou drasticamente artisticamente), a sempre expressiva Leonor Keil, por muitos anos associada com a Companhia Paulo Ribeiro e o bailarino brasileiro Allan Falieri, antigo elemento do extinto Ballet Gulbenkian. A completar o elenco, Ángela Quintela, Daniela Cruz, Félix Lozano, Jorge Mota, Valter Fernandes, Vera Santos e o próprio coreógrafo.

No final da peça fica um certa sensação de frustração por se estar em presença de uma dança estranha em que a própria “história” se nos vai escapando por as personagens obedecerem a uma dramaturgia pouco explícita e sem os dados suficientes para que o espectador consiga sentir que caminha em paralelo com a tessitura “tchekoviana”.

E naturalmente acaba por se levantar a grande – ou talvez a maior – questão (bauschina) que se colocou à dança no século vinte: por vezes interessa menos o que os bailarinos fazem – no caso, movimentos do quotidiano, triviais, com alguma espessura dramática, mas sem qualquer tipo de novidade – do que o que, verdadeiramente, os motiva a mexerem-se!

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Fotos: José Caldeira e Paulo Pimenta

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Antonio Laginha

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