Dentro — 23 Fevereiro 2015
TÂNIA CARVALHO: O ALTER EGO DE UMA PENÉLOPE CAÍDA NUMA TEIA DE ENGANOS

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Poder-se-iam colocar algumas questões pertinentes sobre uma peça com um título engenhoso, abrangente e ambicioso – “A tecedura do caos”- estreada num festival de elevado gabarito (a Bienal de Dança de Lyon) e que se apresentou em Lisboa inserida na programação do Teatro Maria Matos. Mas, na verdade, não há muito a dizer sobre um espectáculo que serve para encher o olho dos mais desatentos ou dos que, alegremente, se deliciam com carne de gato quando pagaram por lebre!  

Trata-se de uma tecedura desprovida de tessitura, assinada por Tânia Carvalho, e que resulta numa “experiência cénica” muito movimentada. Apesar de quase ninguém em palco, verdadeiramente, fazer algo que se possa traduzir por dança. Os seus intérpretes poderiam ser, quase todos, actores com acentuados dotes físicos ou atletas bem treinados e com vigor e algumas capacidades histriónicas. O espectáculo apresenta um visual algo exótico, devido a uns figurinos “funky” com muitas saias transparentes desenhadas por Aleksandar Protic e, sobretudo, a um desenho de luzes exuberante, efectivo e bastante dinâmico assinado por Zeca Iglésias.

Tânia Carvalho parece apresentar-se com um misto de ingenuidade e pretensão vendendo uma peça que diz baseada na “Odisseia” de Homero e em que, supostamente, aparece um Ulisses viajante e uma tecedeira de nome Penélope. Mas só, mesmo, na cabeça de quem tem muita imaginação literária ou propensão para o delírio! Refere-se Homero na proposta, mas bem podia falar-se de Virgílio e da “Ilíada” ou de Aristófanes e das “Vespas”. A diferença era mínima ou nula!

Do ponto de vista estrutural a proposta é óbvia, e pode resumir-se a uma fórmula matemática simples: 1+10+1+10+….. =1. Detalhando: começa por aparecer um homem com ar andrajoso e o rosto pintado de branco, vindo do escuro e no silêncio, que se coloca debaixo de um fio de luz. Depois surge uma dezena de corpos envoltos em tecidos transparentes e com gestos grotescos – alguns usam mesmo cabeleiras e outros adereços de perfil algo “carnavalesco” – que, basicamente, se desloca massivamente da direita para a esquerda (e vice versa) ou em círculo. Praticamente tudo no grupo de “performers” se resume a movimento constituído por “pas de bourrés” – deslocamentos impulsionados por minúsculos e nervosos movimentos com os pés virados para fora ou em paralelo – e “ports de bras” – movimentos continuados de braços – ondulantes ou percussivos, em forma canónica, misturados com partes visivelmente improvisadas a nível individual.

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Saído dessa turba e ao som de sonoridades de Ulrich Estreich, que por vezes se assemelham com trovoada, vai-se isolando, à vez, uma figura do grupo que vai ocupar o espaço iluminado até ao final da peça que termina, mais ou menos, como começou.

De um modo algo gratuito surge uma rapariga completamente nua em evidência e um actor de barriga avantajada que podem representar, respectivamente, a disponibilidade física e o seu contrário. Porém, a pobreza de conteúdo é óbvia e, ao invés do clássico da literatura em que se afirma inspirar, não há qualquer definição de uma única personagem – até porque se vão revezando na boca de cena – nem qualquer fio de narrativa reconhecível e, muito menos, um lampejo da monumentalidade que uma obra daquela envergadura sempre arrasta.

Não havendo um enredo reconhecível nem um deliberado conflito que marque profundamente o relato, como se pode tecer uma qualquer história que seja minimamente atractiva e credível? Tânia Carvalho, à semelhança da esmagadora maioria dos coreógrafos da sua geração, está muito pouco apetrechada em termos de movimento e, sobretudo, de bagagem e técnicas dramatúrgicas. Essa parece ser uma história recorrente na dança portuguesa dos últimos anos…

É certo que o teatro municipal Maria Matos encontrou um reduzido um nicho de mercado/seguidores, constituído maioritariamente por jovens que se levantam a aplaudir com fervor obras “trendy” que representam o que de pior se faz no estrangeiro, enquanto, por cá, elas “explodem em modernidade”.

“A tecedura do caos” é, pois, uma peça que não vence o público pelo cansaço – dura pouco mais de uma hora – mas também não convence pelas suas qualidades. Que não é particularmente animada mas também não chega a revelar-se pesada nem entediante… que não é maliciosa mas não deixa de ser pretensiosa. É, por assim dizer, tocada pela irrelevância de tudo o que termina na hora em que se apagam as luzes pois, no Maria Matos já nem há “pano” para cair….  

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Antonio Laginha

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