Fora — 20 Setembro 2014
DOSSIER LYON: A BIENAL DE DANÇA DA EUROPA!

BL - 2014-09-12

Diz-se que uma urbe que não tem pressa é acolhedora. Uma terra em que se come (e bebe) bem desperta os sentidos… e uma cidade que dança é feliz. Tudo isso e muito mais o forasteiro sente na velha Lyon, abraçada pelos rios Rhône e Saône, e rica em monumentos e gentes, cultura e intensa actividade comercial.

De dois em dois anos, Setembro agita a capital da região do Rhône-Alpes com o seu exuberante festival de dança. Que se saiba não existe outro na Europa com tamanha expressão, criatividade e (bom) “contágio” popular.  Pode-se dizer que a bienal de Lyon mexe com muita gente que se interessa – regularmente ou não – pela dança… e muito do seu sucesso se deve ao fundador e impulsionador, o veterano programador Guy Darmet, que deixou a direcção da Casa da Dança e da Bienal há dois anos e partiu para os calores e delícias do Rio de Janeiro. Onde, porém, não abandonou o seu trabalho nas artes teatrais. A sua sucessora, Dominique Hervieu, uma coreógrafa de êxito – que trabalhou durante muitos anos em colaboração com o franco-espanhol José Montalvo – não alterou em quase nada a linha traçada com punho firme durante 30 anos por Darmet.

Heart's Labyrinth

Este ano, na sua 16ª edição, para além de um programa denso e ecléctico (espalhado por diversos teatros da cidade a arredores) com mais de 45 obras que vão de 1924 aos nossos dias, 25 criações e inúmeras manifestações paralelas associadas ao festival, o circo registou uma presença com algum peso no cartaz. O arranque deu-se a 10 de Setembro com um espectáculo no mais emblemático dos palcos lioneses, o da Ópera, e registou, de certa forma, toda uma confluência de tendências e estilos que, aliás, se viria a verificar ao longo de três semanas de variadíssimos eventos.

ESPECTÁCULO DE ABERTURA NA ÓPERA

Chorégraphie F. Chaignaud & C.Bengolea

Sob a direcção do grego Yorgos Loukos, o grupo de dança residente foi confrontado com três propostas que mostram bem a versatilidade e empenho dos seus artistas. O israelita, residente em França, Emanuel Gat abriu a “soirée” com um trabalho bem construído, dançado com foco e dedicação, mas sem grande novidade visual nem no vocabulário proposto. Curiosamente Gat optou por fazer dançar no silêncio tenho os bailarinos ficado mais parados durante os momentos em que a orquestra tocava a gloriosa música de Handel. Já a dupla François Chaignaud-Cecília Bengolea apostou fortemente num tipo de trabalho que propõe inovações e ruptura mas que acabou num mal disfarçado tédio. Autores de obras muito provocadoras, a peça, à falta de melhor, foi até roubar o título (How Slow thw Wind) a uma obra musical de Toru Takemitsu e colocou em cena homens e mulheres quase imóveis em poses de perfil bidimensional. Com sapatilhas de pontas nos pés os bailarinos que aparentavam questionar uma certa imobilidade forçada mantendo-se me equilíbrio ou deslocando-se mecanicamente, sem, no entanto desafiar as leis do bailado clássico. Obra confusa e sem uma linguagem definida, fracassou na sua escrita e na organização espacial dando a sensação de constrangimento aos bailarinos que espartilhados num esquema básico e nada flexível, mais pareciam esculturas mecânicas com a fragilidade das folhas de Outono. O bailado “Labirinto do Coração” (1984) assinado pelo famosíssimo Jirí Kylián, fechou uma noite não muito exaltante como a orquestra da casa a brilhar no fosso. A referida obra começa com a imagem fortíssima de bailarina a descer umas escadas iluminadas no fundo do proscénio e desenrola-se com duetos, trios e quartetos, coo se de uma memória se trata-se. Na verdade as relações entre homens e mulheres é bastante explorada, a linguagem do coreógrafo é sólida, persistente e marcadamente individual, porém o tema (o dramático suicídio de uma bailarina) passa ao lado de espectador. Mais ou menos sentimental, sobre belas partituras de Schoenberg, Webern e Dvorák, ainda que bem estruturada e interpretada com convicção, a peça não parece transmitir paixão e dor nem angústia nem desespero.

LLOYD NEWSON: UM SOCO NO ESTÔMAGO

BL - dv8

Com enorme contraste surgiu – em simultâneo na casa da Dança – o grupo DV8 do australiano, radicado em Inglaterra, Lloyd Newson com “John”, uma obra intensa assente em factos reais relatados ao autor em entrevistas. Um encadeado de pequenas histórias bizarras, violentas e sempre tristes, que se passa num espaço circular de madeira que vai rodando ao longo de mais de uma hora. Tudo começa com um casal heterossexual em frente de uma televisão e termina numa qualquer sauna homossexual protagonizando uma sociedade doentia e condenada – em que pontuam, ladrões, drogados, adultério e violação – que se vai desmoronando… Os artistas vão dando corpo a cenas em que existe nudez e linguagem pouco própria, temperada com algum humor e que se ligam numa frenética movimentação cénica. Apesar do “encenador” ter um passado ligado à coreografia “John” é puro “teatro de movimento” que nos toca profundamente e em que todo um denso conjunto de histórias feridas de banalidade e tragédia vão sendo contadas (por vezes num ritmo alucinante) com palavras ditas com forte sotaque inglês servindo o movimento a palavra e esta uma mensagem com forte cunho militante. O mundo de “John” é o dos fracos e desprotegidos que escolhem (ou são escolhidos pelo) lado errado da vida.

CONVIDADO ESPECIAL: O NOVO CIRCO

IL N EST PAS ENCORE MINUIT -

Alguns dos dias seguintes foram consagrados ao circo – este ano com uma entrada de leão no certame – com nada menos que dois espectáculos diametralmente opostos em termos de concepção e objectivos. O grupo XY apostou numa obra leve e a transbordar de corpos afinados e despojados que brincam entre si num teatro acrobático muito humano e bem disposto. Este foi, seguramente, um dos melhores momentos da bienal com um colectivo – na verdadeira acepção da palavra – com mais de duas dezenas de artistas que exibem musculaturas de aço e um humor subtil e refinado. Sem um guião definido os acrobatas vão trepando, saltando, correndo e encantando sem grandes meios, para além dos seus próprios recursos físicos. “Ainda não é Maia Noite” é um verdadeiro espectáculo de circo “novo” – com marcações espaciais milimétricas, boa luminotecnia e roupagens janotas – para famílias de qualquer idade!

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Ao contrário, o neto do mitológico Charlot, James Thierrée, com uma parafernália de objectos metálicos gigantes (alguns deles perigosamente manipulados) e adereços que não param quietos durante hora e meia, construiu um “Tabac Rouge”, pretensioso, pesado até algo megalómano. Fumos e cabos de aço, objectos co rodas e chapas metálicas tudo serve para contar uma história de um homem perdido entre sonhos e pesadelos constantemente desafiado por outras personagens indefinidas e mudas entre luzes e adereços num clima que parece tocar o surrealismo mas sem uma personalidade que o distinga ou o eleve.

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Kader Attou, director do Centro Coreográfico Nacional de La Rochelle, levou a Lyon o seu “Opus 14”, um “ballet hip hop” que, de certo, modo tentou aculturar uma dança urbana e de franjas. Sem grandes desvios de uma linguagem algo cristalizada, Attout, criou um trabalho cheio de movimento e energia em cima de um cenário (piso e fundo) “marmoreado” que jogou habilmente com lagos de luz e grupos que se foram revezando nos sucessivos “exercícios” extremamente bem dançados e engenhosamente articulados do ponto de vista coreográfico. Sem, no entanto, apresentarem qualquer golpe de asa que fizessem dele uma pedrada no charco.

UMA DÉCADA DE “CARNAVAL” FRANCÊS

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O grande Desfile fez dez e se celebrou com entusiasmo, alegria e muita gente (bem comportada e com decoro) através das ruas principais da cidade. É Verdade que quando os seus carros, as bandas, os músicos, os bailarinos – de todas as idades – acrobatas e artistas em andas desfilaram nas margens do rio o corso era mais atractivo que na principal artéria lionesa. Mas em comum todos os corsos têm a variada música – do samba à ópera, passando pelo rock e o hip hop – as marionetas (com incidência nos “gignol”, atracção típica de Lyon). Uma parada de artistas ocasionais, disciplinados e alegres que vêm de todas as comunidades circundantes e – alguns até de Genebra (Suíça).

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Embora seja o Brasil o país mais em foco este ano a Bienal teve uma especial ligação à cidade de Turim, partilhando alguns espectáculos. Esta pálida cópia do Carnaval carioca, que aposta no design e na integração social, este ano levava na cauda um grupo que desfilava ostentando uma tarja em que se podia ler: não há Cultura sem direitos sociais.

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E como epílogo de um domingo em que muitos milhares de citadinos e forasteiros encheram o eixo central da cidade, um excerto do “Lago dos Cisnes”, de Dada Masilo, em que 40 bailarinos de tronco nu pulavam e sacudiam os corpos como se se espanejassem ao som de Tchaikovsky! Uma curiosidade que se balança entre o popular e o irrelevante.

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OUTROS ESPECTÁCULOS

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Como destaques do certame este ano apresentaram-se o Ballet de Lorraine com uma peça histórica “Relâche” (1924) de Picabia e Satie, o trio Marchal-Reyner e Tanguy que “alternam nos seus espectáculos “gritos, lutas, cenas de amor, cantos tribais, teatro kabuki e, mesmo, dança”; o Grupo France Distraction com o espectáculo “Les Thermes”, numa piscina de madeira repleta de bolas negras;  o exuberante François Chaignaud a solo; a sul-africana Dada Masilo protagonizando a sua própria “Carmen”; a espanhola Rocío Molina; Yoann Bourgeois, com o espectáculo (de circo) “Celui qui Tombe”; Maguy Marin, com uma nova criação; a Companhia de William Forsyhte com “Estúdio #3”; o L.A. Dance Project, do novo director da Ópera de Paris, Benjamin Millepied e a portuguesa Tânia Carvalho, com uma criação para a Bienal 2014.

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Antonio Laginha

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