Editorial — 25 Março 2014
BAILARINA TROCA SAPATILHAS DE PONTAS PELA ENGENHARIA DE PONTA

A bailarina Luana Lara foi aceita para estudar no Instituto de Tecnologia de Massassuchetts (MIT) (Foto: Aurea Silva/Bolshoi/Divulgação)

 Não há, nem nunca houve, dúvidas nas cabeças de pessoas com uma certa clarividência de que os verdadeiros artistas – sobretudo os da dança – precisam de foco, determinação e criatividade, para além de saúde e neurónios em abundância. Sobretudo num país como o nosso, em que – ao contrário do Brasil – as pessoas não dançam com visível gosto, exposta sensualidade e exacerbada paixão!

Provavelmente uma das muitas razões pelas quais a nossa dança está a milhas do futebol (coisa que não acontece no país-irmão) é porque não há “olheiros” nas artes, nem escolas artísticas de nível superior. Para além de que os directores destas e das companhias oficiais não mudam como deviam, nem são despedidos quando as coisas correm (muito) mal. Como, frequentemente, acontece no desporto-rei! Pela simples análise da trajectória da nossa única companhia estatal de dança – a Companhia Nacional de Bailado – em que, invariavelmente, nem há bailarinos portugueses masculinos para dançar os papéis principais de reportório –  e de um ou dois exemplos recentes que, qual Cristiano Ronaldo, trocaram Portugal pelo estrangeiro (designadamente os Estados Unidos e a Inglaterra, onde a dança é vista como uma arte maior) se percebe grande parte do problema.

Num passado longínquo, os bailarinos portugueses começaram por “peregrinar” até França, passando depois a Inglaterra e, numa fase posterior, aos Estados Unidos, quando as referências ainda eram os grandes mestres… Seguiu-se um período em que a prática, a compreensão e o domínio das correntes contemporâneas faziam dos bailarinos verdadeiros “atletas de fundo” e “acrobatas de  Deus”, tornando-os mais hábeis, versáteis e criativos. Como “reacção” a uma época “fértil” e assaz eclética, surgiu, há uns anos, uma certa dança que se rege, basicamente, por princípios altamente teóricos, por vezes pseudo-filosóficos, e sempre transbordante de conceitos que procuram na negação do gesto coreográfico e do movimento expressivo e físico uma afirmação socio-artística que resultou numa corrente que muitos apelidam de não-dança e outros de anti-dança. Num mundo tão imediatista e volátil como aquele em que assenta o próprio “espaço virtual” – muitas vezes inculto e tantas outras objectivamente sectário –, as “novas” formas de dança assentando frequentemente em discursos deliberadamente fragmentados, têm fomentado alguma curiosidade numa camada jovem mas, em termos gerais, pouco ou nada consistente intelectualmente. E, por mera falta de empatia e de identificação, tem vindo a afastar o verdadeiro público, consistente na fruição teatral, deixando palcos e  espaços performativos cada vez mais encolhidos à mercê de familiares, amigos e  conhecidos. E se temos agora um Governo que, despudoradamente, incentiva a emigração para piorar o estado de espírito dos artistas, no mundo da dança, o estrangeiro sempre foi a maior saída em termos de aprendizagem e, sobretudo, da almejada profissionalização!

Ao contrário das caridosas (e frequentemente interesseiras) vozes que descobrem ciclicamente “grandes talentos” na nossa dança contemporânea – que invariavelmente têm dado em pouco mais do que nada –, a crua realidade diz-nos que em Portugal é tudo tão precário em termos de estruturas artísticas que nem copiar, copiamos bem. É certo que tivemos uma “amostra” de Jiri Kylian, uma “sombra” da Pina Bausch e uma “aspirante” a Trisha Brown, para além de uma boa mão cheia de “novíssimos” coreógrafos que não passaram de curiosidade passageira, nem temos uns centros coreográficos espalhados pelo território continental – como a França, que possui umas boas duas dezenas – para os políticos oferecerem a pseudo-bailarinas que fazem receitas de  bolos em cena e a coreógrafos que vendem lotaria nas altitudes em “low cost”. É certo que a promiscuidade entre artistas, políticos e jornalistas atingiu tal grau que é difícil acreditar no que quer que seja ao nível da gestão artística! E, como se isso não bastasse, as entidades governamentais apoiam muitas escolas da treta – com directores e professores ignorantes e oportunistas pagos com os nossos impostos e que oferecem cursos de dança “à pressão” – e teatros (de Dança) dirigidos por … “filósofos” e gente condenada em tribunal por roubar o Estado.

Em Portugal, entre equívocos e fraudes, gestão danosa e interesses ocultos, venha o diabo e escolha. Como as companhia independentes praticamente despareceram do país e a Nacional exibe uma gestão perdulária dos dinheiros públicos, gastando-se o que se tem e o que se não tem para resultados pouco melhores que medíocres, o futuro não se afigura promissor.

Vem, pois, a talhe de foice mencionar uma notícia que tem tudo a ver com futuro, que nasceu nos Estados Unidos e que correu transversalmente o Brasil: o caso exemplar de Luna Lara. Uma jovem de 17 anos que fez formação em dança na conhecida filial da escola do Bolchoi (em Joinville) e agora vai estudar engenharia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos. É de assinalar e louvar tais casos, pois paixão, trabalho, gestão de recursos e inteligência, certamente, não lhe faltam.

 LL

A bailarina Luana Lara estudou dois anos na escola do Bolshoi antes de ser aceite pelo MIT, uma das instituições de ensino mais conceituadas do mundo

Foto: Aurea Silva/Bolshoi/Divulgação

 

Luana Lopes Lara recebeu a notícia de sua aprovação no concurso para o MIT em Salzburgo, na Áustria, onde se apresenta em “O Lago dos Cisnes” com a turma do Bolshoi, de Joinville (estado de Santa Catarina). A jovem que já fez parte do corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro deverá, em breve, trocar as sapatilhas pelos cálculos em robótica a tempo inteiro.

Para realizar o sonho de ser engenheira e estudar no estrangeiro, Luana vai abandonar a escola de dança que tem sido a sua paixão desde 2011, quando teve de se mudar para Joinville. Ela nasceu no estado de  Minas Gerais, mas morava no Rio de Janeiro com os pais e a irmã antes de se mudar com a mãe para Santa Catarina.

Desde Janeiro de 2014 que Luana está com o grupo da escola na Áustria para uma temporada de oito apresentações de “O Lago dos Cisnes”, até dia 8 de Abril. Por tal, não estava junto da família no Brasil quando recebeu o ‘sim’ do MIT. Ela pretende estudar engenharia electrotécnica para se juntar ao pai e à irmã que são engenheiros de profissão.

“MIT era o que eu mais queria por ser a melhor universidade na área de engenharia, mas não tinha esperança de ser aprovada”, diz a estudante que também passou nas provas para o curso de engenharia electrotécnica da UFRJ, com a nota que tirou no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). “Apanhei um susto quando soube dos resultados, chorei, e emocionei-me muito. De seguida liguei para meus pais, mas ainda me pergunto como consegui. Não ganhei nenhumas olimpíadas internacionais, mas acho que deve ter sido a dança clássica que me ajudou por eu estudar muito focada.”

Os planos iniciais da bailarina são para trabalhar com robótica. “Adoro o movimento e quero ver o movimento dos robôs mais natural e que eles se tornem mais orgânicos. O ballet vai me ajudar nisso. Sempre tive vontade de deixar a minha marca no mundo através dos meus sonhos e acho que é por meio da engenharia que vou pode concretizar isso.”

Deixar o Bolshoi não vai ser fácil, mas a bailarina brasileira pretende continuar a fazer aulas e a participar em espectáculos dos grupos de dança da universidade ou, mesmo, procurar escolas de dança nas proximidades dos “campi”. “Adoro dançar, mas fazer engenharia e estudar fora, sempre foi o meu maior sonho.”

Para poder cumprir uma rotina muito puxada que envolvia estudos e ensaios, no ano passado, Luana dormia muito pouco. Durante algumas semanas só passava 7 horas na cama por noite. “Não consigo fazer nada mais ou menos, como tinha de ter bons resultados na escola de dança fui obrigada a deixar de lado algumas coisas. Eu sabia que se me dedicasse, iria valer a pena.”

Mesmo longe de ser o estereótipo, Luana não escapou da fama de “nerd” na escola. “Os meus amigos diziam isso na brincadeira mas eu encarava essa piada mais como elogio. Nunca levei para o lado negativo porque tenho uma vida normal, saio com meus amigos, gosto de ver TV e ir ao futebol e comer pizza.”

Provavelmente o que muitos países precisam para crescer é de “nerds” que dançam, Luanas a estudar e Cristianos Ronaldos a dançar !

Related Articles

Share

About Author

Antonio Laginha

(0) Readers Comments

Comments are closed.