Dentro — 05 Março 2013
LÍDIA MARTINEZ: UMA MARIONETA MAL COMPORTADA

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A bailarina-coreógrafa Lídia Martinez veio de Paris ao Porto para apresentar a sua última criação, “Pinóquia”, concebida especialmente para o Teatro Carlos Alberto.

Trata-se, como não podia deixar de ser no universo da autora, de uma alusão algo anarquista a uma personagem imaginária, meio “gauche” e, nem sempre muito bem comportada. Tanto se veste com um belo e longo vestido de veludo cor de sangue como usa botas da cor do céu, perucas coloridas saídas do arco-íris e máscaras de muitas caras. Tanto fala como assobia, canta ou suspira, dança ou se pendura de cabeça para baixo num trapézio florido que cai do céu.

“Pinóquia” é uma criança tosca, uma menina que sabe sonhar, uma mulher que estrebucha e uma velha que definha mas se recusa a morrer. A peça desenvolve-se não em quatro actos mas em quatro estágios de vida, sem brechas nem costuras. Percorre uma hora de espectáculo com muitos sobressaltos e alguns mal entendidos.

Essa marioneta que afirma ter nascido entre murmúrios, vive entre quatro paredes com a vaga lembrança de um mar ausente. Caminha no fio da navalha e, por vezes, tem dois solícitos ajudantes (Micaela Soares e Vasco Temudo), que vêm em seu auxílio antes de, meio demente, perder a mente e pontapear bolas de penas. Uma sobrevivente e lutadora até ao fim dos seus dias. Uma personagem fora do seu tempo. Um tempo que não existe porque é elástico e infinito.

No final a misteriosa personagem sai pelo fundo do palco escuro em direcção àquilo que parece restar do seu próprio destino: a luz. Pois ninguém merece ser filho de Gepetta. Porém “Pinóquia” não deixa de ser menos enteada de Goldoni!

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Lídia Martinez é uma verdadeira artesã do movimento e do texto, que cose histórias e cenas como costura os belíssimos e imaginativos trajes que, frequentemente, troca em cena. Desta vez apresenta-se como uma palhaça de nariz comprido – como os clawns do russo Slava – muito articulada e mexida.

Esta sua peça, que dura aproximadamente uma hora, é atravessada por uma espécie de poesia encantatória que sem surpreender cola o espectador ao palco. Para esse exercício (de pura alquimia) muito contribuiu o inspirado desenho de luzes de Patricia Godal e o ambiente sonoro engendrado por Emanuele Balzani.

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Nota: pena é que a famosa rede de teatros tão badalada por um anterior ministro da Cultura nunca tenha funcionado e “Pinóquia” regresse a “terras de França” sem se mostrar nem em Lisboa, noutro teatro nacional ou municipal! A verdade é que, mesmo em “tempos de vacas magras” e de profunda crise para a dança e de enorme contenção financeira se paguem produções que não chegam a sair dos próprios palcos de estreia. E o caso mais flagrante é a Companhia Nacional de Bailado cujas caras produções são vistas por uma minoria de lisboetas!

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Antonio Laginha

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