Ler — 30 Dezembro 2012
AS VÁRIAS MUSAS DE JOSÉ SASPORTES

QM

A publicação de um livro de José Sasportes (excluindo as obras na área da ficção) é sempre garantia de boa leitura, corolário de uma escrita escorreita e matérias bem pesquisadas e desenvolvidas no que toca aos estudos de Dança. E tal não poderia deixar de acontecer, uma vez que, como o próprio autor afirma na Introdução de “A Quinta Musa” (Editorial Bizâncio – Lisboa, 2012), “a escassez de bibliografia portuguesa consagrada à dança” é uma amarga realidade.

Na contracapa do curioso livro publicita-se, mesmo, uma “colecção de ensaios escrita com eloquência”. Mas é sabido que esta, apenas, sem a necessária “alma” de artista na ponta da pena, remete tanto uma (breve) crítica de bailado como uma complexa “revisitação da dança”, para exercícios teóricos para serem lidos em enfadonhas conferências ou em projectos meramente académicos, sufocados por repetidas e extensas notas de rodapé, para consumo de doutorandos ávidos de cumprir tarefas e calendários, somando os requeridos créditos para a obtenção (hoje, a qualquer custo) dos mais diversos graus académicos.

No parágrafo seguinte, da referida Introdução, o antigo ministro da Cultura de António Guterres, acrescenta que o seu “primeiro texto significativo (de dança) saiu na página literária do Diário de Notícias” em Outubro de 56. O que representa 56 anos de uma produção literária em que se inclui uma importantíssima – e ainda muito útil – “História da Dança em Portugal”, datada de 1970 e editada sob os auspícios da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG).

Desde então, o autor – que viveu mais de metade da sua vida no estrangeiro em missões diplomáticas – tem encontrado campo fértil, sobretudo na dança de Itália, país onde viveu e a cuja dança de dedicou essencialmente nas últimas décadas, publicando nada menos seis obras em italiano.

“A Quinta Musa” é, por assim dizer, um “apanhado” de textos dispersos que abrangem um longo período temporal (quatro décadas), elaborados entre 69 e 2010 e apresentados pontualmente em conferências ou publicados na imprensa – em Portugal na defunta Revista Colóquio (FCG) e no Jornal de Letras – e, talvez por isso, não apresentam grande coerência formal pois, como denominador comum, têm o autor e a Dança. Neste livro, Sasportes, tanto discursa sobre a história e a crítica de bailado, como sobre temas como o exotismo, o virtuosismo, o expressionismo, o erotismo e outros “ismos”, numa perspectiva quase sempre com contornos algo “doutorais”.

Os quatro textos sobre dança italiana são, naturalmente, os que menos interessam ao público e artistas portugueses dada a reduzida afinidade estabelecida com o país que, grosso modo, deu ao mundo a chamada dança “pré-clássica”.

josé sasportes RETRATO

Provavelmente o mais interessante artigo de toda a obra seja o dedicado aos Ballets Russes – Uma Guerra, uma Revolução e duas Vanguardas – que o autor apresentou em Itália aquando da passagem do primeiro centenário (Maio de 2009) do nascimento da mais vibrante companhia de dança do séculos XX. Um outro bem documentado e de “gostosa” leitura que, aliás, complementa o anterior, é aquele em que o autor aborda o erotismo como irmão gémeo da dança teatral, desde o primeiro quartel do século XIX até aos nossos dias.

É claro que aquilo a que se poderia chamar o “calcanhar de Sasportes” são os dois últimos artigos que versam, justamente, a Dança Portuguesa. O primeiro, sobre a brutal e nunca devidamente explicada (com transparência e seriedade) extinção do Ballet Gulbenkian – a que o autor eufemisticamente chama de “desfundação” – e o segundo, intitulado “A dança ameaçada pelos OPART”, que versa a Companhia Nacional de Bailado (CNB)!

Tendo o escritor (também comendador e conselheiro da Faculdade de Motricidade Humana) tido alguma intervenção naquilo a que se pode chamar a “pré-história” do Grupo Experimental de Ballet – fundado em 11 de Maio de 1961 sob os auspícios da FCG e administração do Centro Português de Bailado, de cuja direcção brevemente fez parte – é natural que nutra sentimentos de perda em relação àquela que foi a melhor e mais conceituada companhia de bailado portuguesa de todos os tempos. Porém, tendo Sasportes sido funcionário superior da superior hierarquia da FCG e com um visível peso político na época, dever-se-á perguntar se um reduzido artigo – de três páginas de livro – publicado num jornal (de Letras) lido por uma pouco expressiva franja de leitores, não foi manifestamente pouco? Será que Sasportes não poderia ter feito mais e melhor para a História o separar definitivamente de um execrável coro de viúvas que, então, se limitaram a vir a público exibir as suas cínicas e pouco espessas “lágrimas de crocodilo”?

cnb

Quanto ao “affaire CNB” é, no mínimo, curioso que aquele que integrado no elenco governativo socialista de Guterres e que, alegadamente, nada de positivo fez pela Dança Portuguesa enquanto esteve na Ajuda, anos depois revele pouco pudor em falar de “cátedra” de certas matérias, como se jamais tivesse sido detentor de poder! Neste caso teve e usou-o (mal) colocando no Teatro Camões a direcção mais infame que a Companhia Nacional de Bailado jamais conheceu. O famoso relatório do Tribunal de Contas – a todos acessível na Internet – demostra que num dos 35 anos menos despesistas da história da companhia se “evaporaram” dos seus cofres (só) 3,6 milhões de Euros! E as condenações em tribunal dos ex-directores – que, para lavar a face, foram obrigados a devolver “peanuts” ao erário público – provam que, em Portugal, em matéria de Cultura… o crime compensa e a amnésia dá muito jeito!

“A Quinta Musa” termina com um texto laudatório, que, aliás, nada acrescenta ao que já muito foi escrito e reescrito sobre a coreógrafa alemã Pina Bausch (1940-2009). Artista a quem Sasportes dedica este seu livro, juntamente com a também já desaparecida Madalena Perdigão. Esta sim, uma figura basilar da dança portuguesa a quem artistas e público português muito devem e, hoje, os historiadores se deviam debruçar sobre a sua positiva acção dinamizadora na área da música e da “arte de Terpsícore”. Sobretudo o próprio José Sasportes, que por ela foi indicado para lhe suceder à frente do também já extinto ACARTE, serviço que a visionária mulher de Azeredo Perdigão, fez brilhar na Fundação, fez vibrar em Lisboa e, em tempos, deu guarida e estímulo a alguns dos mais interessantes e promissores criadores e intérpretes portugueses dos últimos 20 anos.

AL

 

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Antonio Laginha

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