2025: ANCORADO NO PASSADO COM OS OLHOS NO FUTURO

2025: ANCORADO NO PASSADO COM OS OLHOS NO FUTURO

Em época de balanços, a dança apresentada em Portugal pelos mais importantes coreógrafos e teatros nacionais em 2025 foi pautada por um misto de evocações literárias e de propostas mais ou menos audaciosas que se estenderam a palcos estrangeiros, de maior ou menor visibilidade.  

                     

Fotos: Eduardo Oliveira (Arquivo da Quorum Dance Company)

Descido o pano sobre o ano que findou e com o foco na dança que os próximos doze meses irão revelar nos palcos – ou, por vezes, em espaços não teatrais mais ou menos inusitados – a expectativa do imaginário colectivo (em todo o mundo) costuma convergir no que de bom se repete e no que de excitante se cria. Invariavelmente a segunda premissa é a que dá mais carburante para alimentar a chama e o próprio futuro da arte de Terpsícore, que nos vai espantando umas vezes mais que outras.
Num mundo tão fragmentado mas em que a arte da dança aparece cada vez mais expandida – não necessariamente dentro dos teatros – as novas tecnologias permitem verdadeiros milagres. Não só a nível do visual dos próprios bailados mas também numa multiplicidade de experiências efémeras, amplificadas pela proliferação de conteúdos a que se pode ter acesso através de um simples telemóvel. Palavras como aplicações, blogs e tiktoks entraram definitivamente na rotina da maioria dos artistas da dança que têm à sua disposição todo um mundo – quantas vezes “fabricado” – de informação.
Quanto a aspectos mais palpáveis, nas companhias de dança internacionais de topo normalmente agregadas às grandes capitais do mundo civilizado, e com a estabilidade que o xadrez mundial ainda vai permitindo, os dados costumam estar lançados pelo menos com uma ou duas temporadas de avanço relativamente aos anos civis. Já no caso das companhias de dança situadas nos rankings inferiores, elas trabalham mais em cima do acontecimento. E os grupos independentes, num país como Portugal, por razões óbvias, sobretudo as económicas, normalmente navegam, por assim dizer, à vista (e quantas vezes também à bolina) com temporadas e calendários, muito pouco ou nada previsíveis.

Será curioso, neste início de ano civil, verificar que o tecido terpsicoreano português do último ano do primeiro quartel do século XXI, foi marcado por vários eventos relevantes, desde logo a entrega da direcção da Companhia Nacional de Bailado (CNB) – a única companhia académico-clássica estatal em actividade em Portugal – a um director “concursado”, pela primeira vez em quase meio século!

Do outro lado da barricada temos a chamada “dança independente” que, na realidade, com pouquíssimas excepções depende dos subsídios mais ou menos justos e mais ou menos substanciais da Direcção-Geral das Artes. Trata-se da alternativa à CNB, uma vez que os grupos estrangeiros visitantes hoje, praticamente, não deixam qualquer lastro artístico. Veja-se, a título de exemplo, o que há décadas se vem a verificar na segunda cidade do país, o Porto, cuja autarquia e a própria Fundação de Serralves tanto têm investido na importação regular de grupos estrangeiros que nem sequer estendem a sua estadia a Lisboa. O que para um país tão pequeno é um verdadeiro desperdício de dinheiro saído do erário público que, em certos aspectos, parece apenas destinado a servir propósitos regionalistas e, sobretudo, o crescente turismo na cidade.

                       

Fotos: Arquivo da Vortice Dance (Carmina Burana)

Entre as muitas companhias de dança que se situam fora dos centros nevrálgicos culturais que sobrevivem sem o apoio estatal contam-se – pela sua criatividade, difusão internacional e resiliência -, a Vortice Dance, sediada em Fátima, que este ano rodou uma versão impactante do clássico de Carl Orff, Carmina Burana, assinada por Cláudia Martins e Rafael Carriço.

Outro grupo cujo trabalho é, a todos os níveis, notável é a Quorum Dance Company de Daniel Cardoso, que em 2025 completou duas décadas. O grupo residente e com um trabalho regular nos Recreios da Amadora, já actuou em mais de 70 cidades em Portugal e em cerca de meia centena no estrangeiro, com um palmarés de mais de 820 espectáculos.

Dança no feminino

Foto: António Pedro Santos /LUSA (O Salvado – Olga Roriz)

No ano em que completou 70 anos, Olga Roriz aventurou-se em cena com mais um solo, O Salvado. Trata-se de uma peça em forma de autorretrato, em que a nudez completa não é inocente, estreada no Porto para a comemoração dos seus 50 anos de carreira coreográfica.

Entre o humor, a liberdade, a nostalgia, o burlesco, o sonho e as memórias, devem assinalar-se também as criações da veterana Vera Mantero & Cúmplices (C.C. Crematística e Contraforça), da improvável dupla Sílvia Real e Miguel Pereira (Entre outras coisas, a Pereira e o Real), da premiada Marlene Monteiro de Freitas (Nôt), do iconoclasta Marco da Silva Ferreira (F*cking future) e da jovem Vânia Doutel Vaz (Violetas). Alguns destes trabalhos parecem deliberadamente regressar a um certo delírio exaltante, eufórico e desbragado dos anos 90, em que quase tudo foi permitido e muita coisa se perdeu na efémera espuma dos tempos.

Mas o primeiro facto do ano que protagonizou um verdadeiro regresso ao passado foi, sem dúvida, o lançamento do livro Os Ballets Russes em Portugal, no Teatro Nacional de São Carlos, local onde a companhia de Diaghilev dançou nos dias 2 e 3 de Janeiro de 1918. 107 anos depois – e com o nosso primeiro teatro lírico fechado para obras – os bailarinos da CNB, guiados por Fernando Duarte, o seu director e coreógrafo residente no Teatro Camões, mostraram um novo fôlego, embora ancorando os seus trabalhos numa fórmula que parece inesgotável: o universo literário. Numa temporada recente – no Outono de 2022 -, Olga Roriz revisitara na CNB o Prémio Nobel José Saramago, com o bailado Deste Mundo e do Outro.
Desde tempos imemoriais que a dança tem procurado inspiração, força e respaldo na literatura, transportando-nos para o passado, espelhando o presente ou, simplesmente, tentando agarrar referências que permitam validar uma certa ideia de futuro.
A CNB fechou o ano de 2025 com o (sangrento) clássico de Shakespeare, Romeu e Julieta, com assinatura do sul-africano John Cranko (1927-1973), depois de no verão ter estreado no Festival de Seteais (em Sintra) a obra Quatro Cantos num Soneto – assinalando os 500 anos do nascimento do Bardo de Lisboa – e, na rentrée, a 16 de outubro, Os Maias, baseado no romance homónimo de Eça de Queiroz.

                         

Fotos: Hugo David (Os Maias e Quatro Cantos num Soneto – CNB)

Se a companhia aproveitou para convocar dois dos nomes masculinos mais sonantes da história da literatura portuguesa, não é menos verdade que na dança contemporânea foram as mulheres (através dos seus multifacetados universos) que tatuaram 2025 com propostas mais personalizadas. E, desse modo, impondo o género feminino numa paisagem que, pouco a pouco, em quantidade e por vezes também em qualidade, tem vindo a perder esplendor e fôlego.

Vejamos se em 2026, num país em que o Ministério da Cultura também perdeu importância ao abarcar as pastas da Juventude e (estranhamente) do Desporto, a dança “estatal” dê o necessário salto e os coreógrafos independentes compitam em qualidade e número com as criadoras que em 2025 deram cartas, nos lugares cimeiros do pódio.
O certo é que, sem dúvida, seria uma enorme mais-valia para a Arte de Terpsícore que o Estado se mostrasse mais arguto e, sobretudo, mais democrático nos apoios à dança, do que se tem mostrado nos últimos anos.
E que a CNB, no ano prévio às comemorações dos seus 50 anos, avançasse com empenhamento, criatividade, e sentido de responsabilidade nacional, com uma programação que reequacione o eixo de uma companhia que sendo “universal” nos propósitos, pela sua própria natureza e estatutos, deverá convergir num reportório original que vá muito além de eventos pautados pelos nomes sonantes da nossa literatura.

                                                                                                                                   António Laginha

Published by Antonio Laginha

Autoria e redação

António Laginha, editor e autor da maioria dos textos da RD, escreve como aprendeu antes do pretenso Acordo Ortográfico de 1990, o qual não foi ratificado por todos os países de língua portuguesa.

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