Fora — 21 Setembro 2012
A POESIA DA VIOLÊNCIA

Fotos de © JC CARBONNE

Criado especialmente para a XV Bienal de Dança de Lyon, “Ce Que J’appelle Oublie”, do coreógrafo Anjelin Preljocaj, é uma peça difícil, densa e misteriosa que parte de uma ideia pouco engenhosa mas muito atractiva: um pequeno acidente quotidiano que se transformou em tragédia.

Laurent Mauvignier, o autor do texto – que é dito por um narrador em cena – chama-lhe um “fait divers”, tal é a sua intrínseca insignificância para o mundo, em geral. Na verdade passou-se para a dança, com grande sensibilidade, enorme inteligência e alguma eficácia um tocante episódio passado nas costas de um supermercado de Lyon com um cidadão mais do mais anónimo que após abrir uma lata de cerveja é levado para a parte privada do estabelecimento, violentamente interrogado como criminoso pelos vigilantes e (acidentalmente) assassinado.

Pode-se afirmar que a peça se apropria de uma ideia escura e tensa, chocante, mesmo, já que espelha a fragilidade da vida humana e a falta de respeito que o homem tem pelo seu semelhante. Pode-se abordar a obra não só como matéria de reflexão como, mesmo, um manifesto em favor da cidadania e do valor da vida. A infeliz decisão de puxar a argola de uma lata de cerveja entre dois corredores de alimentos acabou por ter uma gravidade semelhante à detonação voluntária de uma granada traduzindo-se num destino que ninguém merece: uma morte inglória, sem honra e… vergonhosa.

Sem usar a narrativa factual – o narrador apenas debita o texto como ilustrador de cenas que se vão passando em palco – Preljocaj constrói uma dança perturbante e tensa em que se pode ver o abuso (quatro homens-policias, de farda ou seminus torturam repetidamente, física e psicologicamente o protagonista) e como as condições mais improváveis tornam o homem num animal inusitadamente violento.

Contundente, a voz do narrador que, quase sempre, ocupa os terrenos mais avançados do palco, ironiza, comenta, castiga, e faz reflectir durante hora e meia, numa peça que se desenrola num espaço em que apenas uma plataforma recuada e uns andaimes servem de marcação cénica.

Se a dança em “Ce Que J’appelle Oublie”, é, por vezes, aquilo a que se poderia chamar “pouco evidente” ela não deixa de ser máscula (para seis bailarinos) e incisiva, embora a presença da do intenso actor (Laurent Cazanave) algumas vezes se sobreponha ao movimento que se desenvolva na penumbra.

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Antonio Laginha

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