In Memoriam — 31 Julho 2009

Foi um bailarino notável e aplicado (quando dançava para outros coreógrafos) conhecido pela sua bela figura e pelo seu salto e, também, pelo humor e vivacidade quando dançava as suas obras com a sua companhia.
A curiosidade que acompanhou a sua carreira fez dele – juntamente com Martha Graham, George Balanchine, Jerome Robbins e Paul Taylor – um dos cinco maiores coreógrafos norte-americanos da sua geração, que animaram e deram cor à ilha de Manhattan (New York City) durante décadas.
Foi um mestre do improviso – algumas das suas coreografias recorreram a métodos perfeitamente aleatórios como os do I Ching (O Livro das Mutações) – tendo recebido influências do budismo. Foi um génio criativo tanto na maneira como usou o suporte musical como se afastou da música. Também a sua caracterização de qualquer movimento (por mais vulgar que fosse) fazendo-o ascender à categoria de dança – como o simples caminhar – o tornou pioneiro. Os seus bailarinos pareciam, deliberadamente, fazer movimentos do quotidiano disfarçando uma fortíssima componente técnica. Nos seus trabalhos a independência era a palavra de ordem. Os artistas, a solo, em duetos ou em pequenos grupos, dançavam com um misto de nobreza (com elementos coreográficos muito próximos dos baléticos) e secura, devido aos staccatos e à grande abundância de movimentos rígidos de torso, pernas e pés.

Foi um caso de longevidade. Dançou até muito tarde… Até 1989, quando chegou aos 70 anos, entrava em todos os espectáculos da companhia. Há dez anos, com 80, ainda dançou – agarrado a uma barra – um dueto com Mikhail Baryshnikov, no State Theatre do Lincoln Center, em Nova Iorque. Em Abril ainda coreografou a obra “Nearly Ninety”, por altura do seu nonagésimo aniversário, apresentada na Brooklyn Academy of Music.
Para alguns esteve em palco tempo a mais pois os seus membros inferiores há muito que o tinham empurrado para um lugar “subalterno” entre os jovens membros da sua companhia e lhe conferiam um aspecto que roçava, por vezes, o patético. Porém, embora desde há muito parecesse em cena uma pessoa com visível deficiência motora, devido à severa artrite que afectava os seus pés, a sua presença parecia sempre iluminar um grupo altamente disciplinado e muito coeso – a Merce Cunningham Dance Company – que já anunciou manter os espectáculos agendados para breve.

Considerado um ícon da vanguarda modernista na dança, Cunningham fez escola – com uma técnica rigorosa e cerebral – e deixou uma espécie de novo classicismo ao ritmo da cidade e dos tempos modernos…ora rejeitando ora assimilando influências do bailado clássico. Nomes como Viola Farber, Karole Armitage, Twyla Tharp e Mark Morris, estão entre os seus seguidores, mas quem ele mais seguiu terá sido o compositor John Cage, seu companheiro de palco e de vida, falecido em 1992.
Esta preciosa e íntima colaboração mostrou, durante décadas, uma realidade algo paradoxal: a música e a dança mantinham-se independentes uma da outra e eram criadas em separado. Fazia-se, mesmo, constar que todos os elementos de uma obra de Merce só se encontravam no dia da própria estreia. Assim sendo a coreografia de Cunningham era sobre dança e não sobre música (sugerindo frequentemente que poderia ser sobre muitas outras coisas em simultâneo) mesmo quando Cage era uma figura omnipresente na obra do coreógrafo. Tal como pintores de nomeada que colaboraram na cenografia e figurinos das suas peças: Robert Rauschenberg, Jasper Johns, Frank Stella e Andy Warhol, entre outros.
Da sua colaboração com o realizador Charles Atlas saíram muitos filmes das suas obras e Merce foi o primeiro coreógrafo a utilizar o computador para inventar danças e transmiti-las aos bailarinos, mesmo sentado numa cadeira de rodas…
Era um homem de muitos gostos e outros tantos mistérios que um dia confessou: é preciso gostar-se muito de dançar para se manter ligado à dança. Ela não nos dá absolutamente nada, nem manuscritos para guardar, nem pinturas para exibir nas paredes de casa ou dos museus, nem poemas para imprimir e vender. Nada, a não ser o fugidio momento em que nos sentimos vivos.
Uma das mais conhecidas bailarinas que com ele colaborou, Caroline Brown, afirmou um dia relativamente à sua obra: a Cunningham não interessa a Psicologia. Zoologia e Antropologia, sim.
Nasceu Mercier Philip Cunningham em 16 de Abril de 1919, em Centralia, no estado de Washington e morreu, tranquilamente, na sua casa de Manhattan no final do dia 26 de Julho de 2009.

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Antonio Laginha

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