In Memoriam — 27 Fevereiro 2009

Nota do Editor:
Por ocasião do desaparecimento do Mestre Lagoa Henriques (Lisboa, 21 Fevereiro 2009), a Revista da Dança expressa-lhe uma humilde homenagem, reeditando um texto que ele escreveu expressamente para a edição nº8, em Janeiro de 2001.
Até sempre professor…
António Laginha

"O Ritmo Inadiável"
“A dança, como a poesia, é uma dádiva com dúvida”
A dança é qualquer coisa que nasceu com o próprio Homem, e é uma expressão, simultaneamente, de liberdade e de alegria. É um reflexo, como diriam os nossos avós, “do que nos vai na alma”. A comunicação começa e fundamenta-se entre o gesto e a palavra.
Diz o povo que “o gesto é tudo” e pode-se, precisamente, num desencadear de gestos, no crescer de um ritmo de atitudes, construir uma mensagem relativamente às nossas inquietações, àquilo que nos ocupa e preocupa e, digamos até, a um universo total do mistério da existência.
Ainda hoje costumo dizer ao meus alunos, precisamente, que o grande problema do Homem tem sido procurar decifrar o enigma do Universo e, no tempo presente, tentar encontrar o equilíbrio possível entre a técnica, a estética, a ética e a poética.
Diria mesmo, que a dança é, realmente, a poética do gesto, a corporização que cresce nesse gesto, manifestando um discurso que oferece a quem a olha uma determinada mensagem, concreta.
Eu acredito numa dança de improviso, embora o meu contacto inicial com a dança tivesse sido com o bailado clássico – “O Lago dos Cisnes”. Este é um tipo de dança que eu admiro, porém, toca-me muito mais a dança moderna, porque possui outra criatividade e interioridade e é capaz de transmitir essas tais inquietações, essas dúvidas que antes mencionei.
A dança, como a poesia, é uma dádiva com dúvida.
Entendo perfeitamente que se pode até dançar embalado por uma música interior, a nossa própria música. Nós somos o reflexo de um mundo que nos envolve. No espaço sideral, há esse jogo das esferas – “o brilho das esferas” de que falava Antero de Quental – e é, realmente, nesse nosso planeta (na esfera terreste e na celeste), nesse universo infinito do indimensional e do inominado, que o Homem vai procurar encontrar sentidos múltiplos. É, pois, esse cruzamento de sentidos que se corporiza nas várias linguagens de expressão.
A dança tem muito de desenho e se o grande Almada Negreiros afirma que “o desenho é o nosso entendimento a fixar o instante”, a dança é também esse entendimento relacionando com um determinado referente. Aquilo a que os nossos antepassados chamavam o tema, o conteúdo, e hoje chamamos de significado.
A dança contemporânea ultrapassa em criatividade os bailados clássicos, condicionados por uma determinada gramática, e tem a ver com esse universo de inquietações, em que existem uma filosofia e uma metafísica próprias, como existe uma poética. Quando falo dessa poética, estou a lembrar Platão e Aristóteles, a passagem do não-ser ao ser, qualquer coisa que se acrescenta ao que já existe. É aí que está o ponto alto da dança.
Intensidade artística
Os grandes bailarinos que eu vi ao vivo, aqui, foram o Jean Babilée, o Maurice Béjart e o Rudolfo Nureyev.
Em Paris, assisti à estreia do bailado “Le Jeune Homme et la Mort”, com argumento do Jean Cocteau, e Babilée no papel de jovem. Foi um verdadeiro espanto. Ele era uma figura notável, com quem eu tive o privilégio de falar um pouco, depois do espectáculo, porque eu já conhecia o Cocteau de uma exposição fantástica que ele fizera em Roma, na galeria do coleccionador Renato Atanasio. Nessa altura, tivemos oportunidade de trocar umas palavras. Ele nunca veio a Portugal mas coleccionava fotografias do nosso país, pois tinha a esperança de cá vir um dia. O Babilée era um artista excepcional, profundamente inteligente e com um grande respeito pelo seu próprio corpo, cultivando, portanto, uma disciplina rigorosa para estar sempre em forma. Voltei a vê-lo, noutras ocasiões. Foi sempre uma figura que me fascinou. Outra foi Isadora Duncan que, naturalmente, não conheci mas que, como se sabe, é a mulher que liberta a dança de um convencionalismo castrador. Também vi dançar Martha Graham, outra bailarina que muito admiro.
Recordando Nijinsky, e o seu “Prelúdio à Sesta de um Fauno”, vêm-me imediatamente à memória os baixos-relevos de Antoine Bourdelle, no Teatro dos Campos Elísios, em Paris, e também Joséphine Baker, uma excelente cantora e uma mulher que dançava primorosamente. Já a tinha visto no Olympia em “Paris, Mes Amours” – musical em que dançava um bailarino português muito interessante, chamado José Lobão – e depois vi o seu último espectáculo, “Joséphine”, no Bobino, quando já tinha mais de 70 anos mas aparentava menos que 50, devido ao seu aprumo e intensidade artística.
Sempre houve um apelo muito forte entre os artistas plásticos e o bailado. Temos, por exemplo, os desenhos de Isadora por Auguste Rodin e Bourdelle.
Cito, mais uma vez, o Mestre Almada (um homem fascinante e multifacetado que, como se sabe até dançou “A Princesa dos Sapatos de Ferro”) e que dizia: a arte é um meio, o homem a finalidade. Esta teoria/filosofia aplica-se, inclusivamente, a todo o tipo de espectáculo de comunicação. Quando, realmente, não é o Homem a finalidade, quando as formas expressivas e artísticas não são uma resposta às inquietações, às reflexões, à inteligência, e à sensibilidade humana, elas transformam-se em puros formalismos que não conduzem a nada e, por vezes, são altamente nocivos.
Exaltação do corpo
A dança é um desenho contínuo, um cruzamento de ritmos, uma acentuação de valores em que se vai do silêncio ao grito e que o primeiro é tão importante como o segundo. Isto é, o não-movimento é tão importante como o movimento. Esses movimentos exteriores são o resultado de movimentos interiores, pois tudo começa dentro de nós. Essa ânsia, esse desejo permanente, de decifrar o tal enigma do Universo é que vai criar todas as coreografias, todas as palavras, pois a dança já há muito que deixou de ser apenas movimento de corpo.
O artista desenha porque não pode deixar de desenhar, o escritor escreve porque não pode deixar de escrever e o bailarino dança porque não pode deixar de dançar!
Sou um apaixonado pelo movimento porque, em última análise, a dança é uma exaltação do corpo e que tem muito que ver com toda a história, com toda a aventura, da pintura e da escultura. Enquanto esta é o aprisionamento de uma atitude, a dança cria em permanência essa atitude. Com as novas tecnologias, designadamente o vídeo, a dança ganha uma intemporalidade que antes não tinha. O cinema e o vídeo dão-lhe uma eternidade que antes só era conseguida pelo registo fotográfico.
Para termos uma noção real, honesta e honrada das Artes, temos que jogar sempre com uma dialéctica e um contraponto permanente entre o erudito e o popular. Estou a lembrar-me do folclore, não só em Portugal mas também noutros países, que é extraordinário, não só pela sua intensidade, mas pelo que transmite numa síntese de criatividade única e ausência do formalismo.
Andamos numa permanente dança no “comércio” da vida – no “grande teatro do mundo”, como diria Calderón de la Barca – e o que é importante é que os nossos gestos e atitudes funcionem com honestidade, sinceridade e interioridade.
E, a finalizar, deixo uma ode de 1933 que tive o privilégio de inscrever no monumento funerário, que está no claustro dos Jerónimos, e que considero uma espécie de testamento artístico de Fernando Pessoa:
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
biografia breve
António Augusto Lagoa Henriques (Lisboa 27 de Dezembro de 1923 – Lisboa, 21 de Fevereiro de 2009), escultor, i niciou os seus estudos artísticos no Curso Especial de escultura na Escola de Belas-Artes de Lisboa, em 1945. Em 1948 transferiu-se para a Escola de Belas-Artes do Porto, onde tem como professor e referência principal na sua formação Mestre Barata Feiyo.
Concluiu o Curso Superior de Escultura em 1954, naquela escola, com a apresentação de um trabalho de pleno relevo classificado com a nota máxima (20 valores).
Posteriormente foi-lhe concedida uma bolsa pelo Instituto de Alta Cultura, tendo partido para Itália, onde ficou três anos, grande parte dos quais em Milão a trabalhar sob a orientação do escultor Marino Marini.
Foi convidado pela Escola Superior de Belas-Artes do Porto, em 1958, para o lugar de professor assistente de Escultura, trabalho que vem a desempenhar em 1959.
Entre 1963 e 1966 é professor efectivo de desenho da Escola Superior de Belas-Artes do Porto. Em 1966 muda-se, a seu pedido, para a Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa onde desenvolveu uma acção pedagógica de grande relevo no ensino do Desenho.
Em 1974, aquando da reestruturação dos cursos daquela escola foi o promotor da criação da disciplina de Comunicação Visual.
Tornou-se conhecido do grandev público não só pelas esculturas dos poetas Fernando Pessoa e António Aleixo, respectivamente, nos cafés Brasileira do Chiado (Lisboa) e Calcinha (Loulé), como por programas para a RTP, designadamente "O Ritmo Inadiável".
 

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