In Memoriam — 14 Agosto 2008

Morreu na madrugada de 12 de Agosto, aos 57 anos, em São Paulo (Brasil) a bailarina, coreógrafa e directora de companhia, Ivonice Satie.

“É uma perda terrível para a dança brasileira, porque a Ivonice era uma pessoa muito empreendedora. Se lhe disessem, vamos fazer um espectáculo na próxima semana, ela concordava de imediato. Dava muito valor à vida e o palco era a vida dela", afirmou à imprensa Liliane Benevento, diretora do Studio 3 Espaço de Dança, onde Satie trabalhou até ser internada.
Filha de imigrantes japoneses, Ivonice Satie Yoshimatsu Fagundes, iniciou seus estudos na Escola Municipal de Bailados de São Paulo, aos nove anos, tendo debutado profissionalmente no Balé da Cidade de São Paulo, onde permaneceu 14 anos.
Estreou-se na companhia há 40 anos e fez parte do primeiro corpo de baile, quando, sob direção de Johnny Franklin, o grupo dançava, basicamente, repertório clássico, antes das mudanças introduzidas por Antonio Carlos Cardoso, em 1974, que conduziram o Balé da Cidade para os caminhos da dança contemporânea.
“Fico muito feliz por dizer que faço parte da primeira geração de bailarinos que envelheceu dançando no Brasil. Eu vivi as várias fases do bailado, da dança clássica à moderna, desde o momento em que as sapatilhas foram postas de lado e começámos a dançar de sapatos de ténis ou de pés nus”.
Porém, foi dentro de casa com o pai que ela aprendeu os primeiros passos da dança porque “ele tinha paixão por música, embora a minha mãe nunca tenha gostado de dançar. Desde muito pequena que ele me ensinou passos de dança”, confessou Ivonice, que era a filha do meio entre três irmãs. Mesmo com o incentivo dentro de casa, ela foi a única que seguiu a carreira de bailarina na família. “Eu sou muito desorganizada e péssima em cálculos e não consigo ver-me a trabalhar como administradora, que é a profissão de uma das minhas irmãs. Da mesma forma que elas também não se interessaram por ser bailarinas como eu. Foi uma questão de escolha, mas o que importa é que elas sempre me deram muito apoio”, afirmou a artista.
A menina, que desde pequena adorava ensinar os amigos da escola a dançar, cresceu e tornou-se uma bailarina que também tinha prazer em se envolver na produção dos espectáculos e sempre dava palpites durante os ensaios. “Acho que essa minha característica fez com que, desde muito cedo, fosse solicitada para coordenar algumas peças. Com 25 anos dançava e já era assistente de coreografia do Balé da Cidade”, explicou Ivonice.
Em 1982, a sua carreira sofreu uma inflecção quando fez o papel da chinesa Connie Wong, na versão brasileira de “A Chorus Line”, a convite de Walter Clark.

Entre os anos de 83 e 89 fez parte do elenco do Ballet du Grand Théâtre de Genève, a convite do coreógrafo argentino Oscar Arraiz.
“Eu fiquei muito contente quando percebi que a minha grande escola, realmente, tinha sido o Brasil. Os latinos mostravam uma qualidade artística e uma percepção musical que não eram naturais para os europeus e os americanos”.
De 93 a 99, foi directora artística do Balé da Cidade onde criou a Companhia 2, para bailarinos veteranos.
“Quando voltei para a companhia ela estava quase a completar 30 anos – feitos em 1999 – mas não estava preparada para dar resposta aos profissionais que tinham mais tempo de casa. Havia bailarinas de 16 anos dividindo o mesmo reportório com profissionais de 45. Por mais qualidades que tenha uma artista aos 15 anos, a experiência profissional é diferente de outra com o triplo de anos de carreira. Às vezes, nem é tanto a preparação, mas o desejo é diferente. Eu achei que era importantíssimo criar a Cia.2 do Balé de São Paulo, um grupo de veteranos. É o espaço em que, juntos, eles assumiriam o compromisso de difundir a dança de uma forma diferente e divulgar a possibilidade de um novo conceito social em torno desse trabalho. Costumo dizer que, durante a minha vida, tive quatro corpos: um quando era criança, um na adolescência, outro quando fui mãe e depois um corpo de 50 anos".

Ao longo da sua carreira arrecadou vários prémios no Brasil e ainda nos concursos de Nyon (Suíça), de Varna (Bulgária) e de Jackson (Estados Unidos da América), com o bailado “Shogun”.
“A minha família tem uma história de tradição dos samurais. O meu ditian estudou o kembu, a dança dos samurais, o iaidô, a arte da espada, e eu trabalhei essa dança com o meu avô durante muitos anos. Foi por isso que nasceu ‘Shogun’. É a obra mais importante da minha vida, porque ela foi criada há cerca de um quarto de século e ainda é interpretada em várias companhias. E faz-me ainda mais feliz, porque é um trabalho que eu fiz em homenagem ao meu avô, exactamente por tudo o que eu aprendi com ele”.
Ivonice Satie trabalhou como coreógrafa e professora convidada em companhias em França, Alemanha, Croácia, Suíça, Estados Unidos da América e Portugal.
Nos anos oitenta e noventa esteve em Portugal para dar aulas no extinto Ballet Gulbenkian a convite, respectivamente, de Jorge Salavisa e Iracity Cardoso, os directores da companhia.
Em 2003 correografou a peça “Passion”, com bailarinos deficientes, para o grupo madeirense “Dançando com a Diferença” sedeado no Funchal.
Entre 1993 e 2003 trabalhou junto do município de Diadema, na área metropolitana de São Paulo, onde criou a Companhia de Danças de Diadema e, em 98, o Grupo Roda na Mão, para bailarinos portadores de deficiência física.
De 2003 a 2005 foi directora artística da Companhia de Dança do Amazonas (de Manaus) e, até há pouco, co-directora da Companhia Sociedade Masculina, de São Paulo.
Ivonice Satie considerava que a sua descendência japonesa influenciou decisivamente o seu trabalho.
“Durante umas férias no Japão pude ter um maior contacto com a cultura daquele país, o que me deixou muito emocionada. Mas, ao mesmo tempo, tenho a felicidade de ter nascido no Brasil, porque o meu lado japonês está em completo equilíbrio com o brasileiro. A minha dança tem muito dessa mistura. Ao mesmo tempo que tenho uma disciplina muito grande, também sou muito impulsiva. Tive muita sorte por estar ligada a uma cultura tão forte a ponto de ser, às vezes, até um bocado kamikaze. Já me disseram que eu tenho também um lado gueixa. As pessoas dizem que o meu jeito doce e ao mesmo tempo forte de corrigir os bailarinos é típico da mulher japonesa”.
E concluiu, com a seguinte reflexão, o que pensava da sua motivação criativa:
Para coreografar preciso estar apaixonada. Não sou uma coreógrafa que só vive da coreografia. Não preciso de fazer uma obra por semana ou de 15 em 15 dias, porque, felizmente, não vivo (financeiramente) da criação. Criar uma obra é um momento de muita inspiração, de encontro, de troca, de simpatia e de muito querer. Esse conjunto de factores faz com que eu crie bem e supere todas as dificuldades que surgem durante o processo de produção. E é nas horas de dificuldade que se é obrigado a buscar inspiração e criatividade, que só são possíveis se se estiver envolvido com o trabalho.
Homenageada por colegas que dançaram, em Março, coreografias suas ou inspiradas no seu trabalho, Ivonice Satie lutava há meses contra um cancro.
"Audácia Impulsionou Carreira de Bailarina"
(artigo assinado por Cássia Navas na FOLHA DE SÃO PAULO, ILUSTRADA, em 13 de Agosto de 2008)
Uma coreografia se compõe de muitos elementos, o principal deles: o bailarino, a partir de quem tudo se constrói – espetáculos, companhias, festivais, teatro, escola, faculdades-, estruturas que vão povoando de movimento a cultura do mundo.
Ivonice Satie, uma das grandes personalidades da dança deste país, era uma bailarina de traçado espacial forte, impulsionada pela audácia. Uma bailarina marcante, riscando o palco com inteligência.
Jamais perdida, a força motriz de sua dança, foi temperada por um raro bom senso, que lhe permitiu uma carreira ímpar de empreendedora: inaugurou companhias, modificou grupos, mirando o futuro ancorada na bagagem que trazia de mestres e colegas.
Trabalhou no centro e na periferia, em grupos públicos e particulares, sua vocação para abertura de novas frentes sendo conjugada com a preocupação com a formação de platéias, inquietações que conduziram seus grupos para fora de suas sedes, dançando em muitas partes e de várias maneiras.
Em uma carreira intensa, à coragem de suas ações somava-se, como herança de seus antepassados japoneses, a condução da dança guiada por uma visão histórica ampla, quase eterna.
Como os verdadeiros artistas da dança, tinha sido tocada pela eternidade, lá, no palco, em instantes nos quais tudo parece parar, o espaço do mundo cabendo dentro do corpo de cada um.
Um momento fugaz, que muitas vezes temos o privilégio de vislumbrar, compartilhando públicos e artistas de um sentido de suspensão, fruto de vigorosa inversão de nosso cotidiano.
Ivonice queria e lutou pela eternidade em vida. Como guerreiro (shogun) brasileiro sabia que a vida, mesmo a escoar-se pelos nossos dedos, merece ser celebrada e respeitada como uma obra de arte.
 

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Antonio Laginha

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