In Memoriam — 04 Novembro 2007

Unanimemente reconhecida como uma das personalidades mais marcantes das artes do século XX português, Margarida de Abreu, faleceu de doença dermatológica, no Hospital de Santa Maria, a semanas de completar 91 anos.
Todos os seus discípulos – entre os quais se contam várias gerações de bailarinos e actores de nomeada – a consideravam uma personalidade brilhante e de uma lucidez, sensibilidade, inteligência e argúcia ímpares.
Muitos deles referem, frequentemente, a “musicalidade” que imprimia nas suas aulas e coreografias e a habilidade de colocar em cena, harmoniosamente, corpos e personalidades muito distintas. Vários também destacam o seu valioso papel “mecenático” tendo aberto, gratuitamente, o seu estúdios aos que não tinham posses ou, mesmo, pagando viagens e estudos no estrangeiro a outros.
O seu papel pioneiro deixa o seu nome ligado aos primeiros agrupamentos de dança do país e a artistas que estão na base de quase todos os que hoje existem.
Era mãe da bailarina Maria João Salomão e tia da bailarina Maria de Freitas Branco, irmã da pianista Helena de Freitas Branco e cunhada do musicólogo João de Freitas Branco.

Margarida Hoffmann de Barros Abreu Salomão de Oliveira, nasceu em Lisboa em 26 de Novembro de 1915, estudou dança rítmica em Portugal (com Cecil Kitkat e Sosso Dukas-Schau) e na Suíça, no Institut Jacques Dalcroze, onde se graduou em 1937. Prosseguiu os seus estudos na Alemanha, na Deutsche Tanz Schule (Berlim) e na Austria, na Hellerau Laxemburg Schule (Viena). Foi professora do Curso de Bailarinas e do Curso de Teatro do Conservatório Nacional (1939-1986) e do Centro de Estudos de Bailado do Instituto de Alta Cultura, vulgo Escola do Teatro de S. Carlos, (1964-1972) e directora artística do Circulo de Iniciação Coreográfica entre 1944 e 1960 do qual saíram os Bailados Margarida de Abreu, o Bailado em Acção e, mais recentemente, o Grupo Studium.
Entre 1960 e 1975, de parceria com o seu discípulo Fernando Lima, exerceu as funções de directora artística do Grupo de Bailados Portugueses Verde Gaio. Para os seus grupos de dança, peças de teatro e óperas (no Teatro de S. Carlos) criou cerca de meia centena de coreografias
Sobre D. Margarida, Águeda Sena, uma das suas mais talentosas e conhecidas discípulas, afirmou "ser uma das melhores professoras que teve".
E acrescentou: ela sabia muitíssimo de música e esse conhecimento profundo veio da sua cultura e sensibilidade. Foi uma das alunas favoritas de Jacques Dalcroze. Pena foi que aqui esse tipo de dança, que se fazia em toda a Europa, não tivesse vingado em Portugal. Ela tinha um fascínio pela dança clássica mas, por razões físicas, não estava muito talhada para essa estilo. Diz-se que os dedos dos pés tinham uma proporção que não lhe permitia usar sapatilhas de pontas. Pena foi que acabasse por cair num pseudo ballet que a afastou da sua natural vocação de dança livre e, sempre, prenhe de musicalidade.
Era uma pessoa muito bem-educada e culta e que fazias todas as coisas com um misto de seriedade e bom gosto. Devemos-lhe imenso. Acima de tudo o gosto e o amor pela dança.
 

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Antonio Laginha

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