Nota de Encomenda — 16 Março 2009

Diaghilev: Um Mecenas Para a Rússia
Sergei Pavlovitch Diaghilev nasceu em Selistchev, na província de Novgorod, em 31 de Março de 1872 e faleceu em Veneza – onde os seus restos repousam – em 19 de Agosto de 1928.
Era filho de um militar e de mãe música e oriundo de uma família nobre. Recebeu esmerada educação, indo para S. Petersburgo em 1890 para completar os estudos, ficando em casa do primo Filosofov Dima, o qual virá a constituir uma grande influência sobre ele e através do qual conhece os pintores Alexandre Benois e Leon Bakst.
O curso de direito é tirado sem entusiasmo e quando é concluído, Diaghilev entra para o Conservatório. A sua falta de talento para a composição fá-lo renunciar à ambição de se tornar compositor, embora os seus estudos musicais lhe sejam de grande utilidade no futuro. Logo depois começa a escrever críticas de arte e ao longo da última década do século XIX, efectua várias viagem a França, Alemanha, Itália e Áustria, com Filosofov, mudando-se entretanto para um apartamento próprio, que partilha com Vassili Zuikov, criado dedicado que o acompanhará para o resto da vida.
Em 1896 dá-se a coroação do imperador e no ano seguinte Diaghilev organiza a sua primeira exposição de telas alemãs e inglesas, no recém criado Museu Stieglitz. Em 1898 promove uma segunda exposição, também em Stieglitz, e funda a revista Mir Isskustva (O Mundo da Arte) [1] que se transformaria na porta-voz da críticas de artes, incluindo os espectáculos de dança, bem como introduziu artigos que deram a conhecer a arte ocidental ao público russo. Por outro lado, a arte russa também mereceu destaque na publicação. A revista foi responsável pela introdução de uma certa visão artística ocidental na Rússia, bem como permitiu o cruzamento de ideias dentro do próprio país, no eixo S. Petersburgo – Moscovo. O grupo de intelectuais que se constituiu à volta da publicação veio a revelar-se uma sociedade de trocas culturais, oferecendo um microcosmos de variedade artística que viria a estender-se aos Ballets Russes. O núcleo da Mir Isskustva criou um modelo organizativo que constituiu o arranque de uma nova era, unificando uma nação sob uma única vontade. Anos mais tarde, Diaghilev chamou a este grupo “laboratório artístico” [2], denotando a influência produzida por esta confluência artística e intelectual.

Em 1899 Diaghilev organiza uma terceira exposição que dá a conhecer à Rússia os pintores impressionistas franceses na que será considerada a primeira de cinco exposições (de 1899 a 1903) organizadas pelo O Mundo da Arte, que exerceram grande influência sobre a revista, uma vez que ajudaram a recrutar colaboradores e a recolher matéria para as suas reproduções [3]. Entretanto, nesse mesmo ano de 1899, Diaghilev liga-se à direcção dos Teatros Imperiais, onde é nomeado adjunto do príncipe Volkonsky. A sua primeira missão foi a de publicar o Anuário dos Teatros Imperiais, de 1899 / 1900, inaugurando uma etapa na história da edição russa. O seu Anuário, constituirá uma notável edição de luxo, devido não só à qualidade das ilustrações, mas também à perfeição técnica da impressão e à diversidade do conteúdo, revelando a influência de Mir Isskustva. Entretanto vai conhecendo os bailarinos dos Teatros Imperiais, fazendo especial amizade com Mathilde Kshessinskaya [4].
A sua função nos Teatros Imperiais cessará em 1901, quando foi convidado para produzir a ópera "Sadko" e o bailado "Sylvia" e confiou os figurinos e cenários a jovens pintores em vez de os tradicionais e instituídos. Porém, as seculares estruturas dos Teatros Imperiais inviabilizarão o projecto, levando à demissão de Diaghilev. Assiste à Exposição Universal de Paris de 1900 e, entre 1901 e 1902, Diaghilev permanece quase todo o tempo no estrangeiro, delegando as suas funções de O Mundo da Arte em Benois e Filosofov: o seu interesse pela revista e por uma Rússia que parecia ainda não estar preparada para agarrar as suas ideias, certamente estiveram na origem de tal atitude. Em 1903 efectua uma viagem às províncias mais afastadas da Rússia, com o intuito de fazer uma retrospectiva da arte russa e dos melhores pintores que tivessem sido ignorados pelos especialistas e coleccionadores e cujas obras ele sabia reveladoras da verdadeira criação artística nacional. A exposição que promoveu com esse acervo surpreendeu o público que não suspeitava que a pintura tradicional fosse tão rica e o resultado desta mostra foi, de facto, de suma importância histórica, sobretudo do ponto de vista iconográfico. É nessa altura que projecta a fundação de um museu nacional, onde a arte russa pudesse ser mostrada em toda a sua magnitude mas, mais uma vez, ainda não existia uma vontade russa capaz de acompanhar os desígnios de Diaghilev. É então que decide investir os seus esforços na conquista artística noutros países, em mundos mais profícuos que a sua Rússia natal. Eram já demasiadas decepções pessoais que contribuíam para o seu desejo de evasão.
Em 1905, a bailarina norte-americana Isadora Duncan visita S. Peterburgo e janta com Diaghilev. No ano seguinte, e após ter organizado a sua última e bem sucedida exposição em S. Petersburgo, parte para uma longa viagem pela Europa. Nesse ano mostra, no Salão de Outono de Paris, uma exposição que “resumia dois séculos de pintura e escultura russas” [5]. Após um sucesso inesperado Diaghilev arquitecta novos projectos que familiarizassem o público parisiense com a arte russa. Apaixonado pela arte do seu país e ao mesmo tempo um atento observador das tendências modernistas que então fervilhavam em Paris, organiza na Cidade Luz, em 1907, uma série de cinco concertos históricos de música russa com os compositores Glinka, Scriabine, Borodine, Balikierew, Moussorgsky e Rimsky-Korsakov. O êxito desta temporada orquestral ultrapassou em muito o da exposição de pintura do ano anterior. Em 1908, é a vez de mostrar ópera russa, tendo apresentado "Boris Godunov" e "Ivan, o Terrível", com cantores famosos com Chaliapine, Smirvov, Lipkoska e Blakanov, da Ópera Imperial, e Benois como director artístico. Mais uma vez foi o triunfo. Nesse mesmo ano o projecto dos Ballets Russes foi-se delineando e os sucessivos êxitos de Diaghilev provaram o valor da política de exportação cultural russa. Simultaneamente, alguns bailarinos do Teatro Maryinsky começam a sair em pequenas digressões pela Europa Central e do Norte, como foi o caso de Anna Pavlova [6] e a formar uma certa vontade de mostrar a sua arte além-fronteiras. Diaghilev aproveitou este desejo, e é bem possível que a sua realidade mais original fosse o seu poder de perseguir uma ideia, para agarrá-la e realizá-la. Ainda em 1908, Diaghilev começa a arquitectar a ida dos Ballets Imperiais no ano seguinte a Paris, seleccionando os melhores bailarinos dos Teatros Imperiais, entre eles Mathilde Kshessinskaya [7], Tamara Karsavina, Anna Pavlova, Sofia Fedorova, Baldina, Smirnova, e como solistas, Michail Fokine, Adolphe Bolm, Monakov, Bulgakok, Kshessinsky (irmão de Mathilde) e Vaslav Nijinsky, que Pavel Dmitrievitch lvanov apresentara a Diaghilev nesse mesmo ano. Do Teatro Bolshoi de Moscovo, Diaghilev convidou Mikhail Mordkin, Theodor Kosloff e a prima ballerina Koralli. Por outro lado, a concretização deste projecto só seria possível graças a um conjunto de pessoas que Diaghilev antes reunira à sua volta – influentes companhias da elite francesa, que lhe ofereciam não só a sua protecção como o seu mecenato e amizade, constituindo um inestimável apoio para a concretização deste seu projecto. Entre eles estavam a condessa de Greffulhe, a princesa Edmond de Polignac e Misia Sert.

De 1909 a 1929, Diaghilev viabilizará a criação da primeira companhia europeia de bailado moderno, em torno do qual reunirá intelectuais e artistas modernistas russos, franceses e de outros países, numa confluência artística até aí nunca conhecida. Os Ballets Russes de Diaghilev, constituíram-se na primeira companhia privada a singrar no mundo. Historicamente o bailado clássico sempre se desenvolvera sob a alçada e protecção dos czares, reis e patronos aristocratas que colocavam as suas fortunas ao serviço das artes nobres [8]. Para além disso, os Ballets Russes foram os únicos que produziram um repertório que consolidou o seu lugar na História.
Como vinha sendo hábito, Diaghilev procurou o apoio de um grande número de personalidades entre aqueles que canalizaram parte das suas fortunas para o mecenato artístico, delineando uma época áurea de criação e produção artística que redesenhou a cultura russa no Ocidente. A 19 de Maio de 1909, tem lugar a primeira temporada dos Ballets Russes em Paris, no Teatro do Châtelet, apresentando uma série de bailados curtos. Jean Cocteau, Auguste Rodin, Odilon Redon, Marcel Proust, Jean-Louis Vaudoyer, Reynaldo Hahn, Gérard d´Houville, a Condessa de Noailles, Jacques-Emile Blanche, Robert Brussel e José Maria Sert, ente outros, interessam-se pelo evento e despertaram os meios literários e artísticos para o acontecimento. Toda a "Paris artística" esteve presente na temporada inaugural dos Ballets Russes. O que o público do Teatro do Chatelet aplaudiu em 1909, era algo ainda nunca visto na própria Rússia: o nascimento de uma nova arte, início de uma vanguarda “que constituía uma novidade para os próprios russos, uma vez que o que se fazia nos palcos russos era bem diferente da arrojada proposta diaghileviana”[9]. Não foi só o carácter dos bailados que foi alterado mas também a estrutura de todo o espectáculo que se modificou: ao romper com a tradição inovou-se e também se perdeu a ligação à base da escola russa. Para os russos “Diaghilev distorcera e estragara a essência da dança clássica” [10]. Curiosamente, a influência dos Ballets Russes na própria Rússia só aconteceria muito depois de 1909 e por repercussão do peso que tiveram no próprio Oeste.
Para além de mecenas, Diaghilev, possuía o dom misterioso de fazer desabrochar talentos até então desconhecidos e no seu contexto de parcerias, corpo de baile, música, cenário, guarda-roupa, tudo isso constituía e formava um conjunto único e indiscutível. Os Ballets Russes constituíam, já nessa altura, o triunfo da unidade e a temporada de 1010 estabeleceu Diaghilev como o primeiro entre os empresários e garantiu que ele e a companhia podiam subsistir sem o apoio do czar. Apesar da empresa se revelar ainda deficitária, os contratos foram renegociados o que permitiu a continuação do projecto e a solidificação da estrutura orgânica da companhia. Na digressão de 1910, Pavlova já não participou. Até porque o foco publicitário do ano anterior tinha-se centrado em Nijinsky e a recusa de Diaghilev de interceder em favor do marido de Pavlova num processo judicial, ditaram o abandono da bailarina que enveredou por uma notável carreira a solo.
Em 1911 os Ballets Russes passam de uma companhia temporária a uma companhia independente permanente e autónoma do Teatro Maryinsky. As temporadas parisienses alongam-se e novos contratos para outros países efectivam-se. Em 1912, um sinal completamente inusitado catapultou a companhia para uma nova direcção artística: a peça com música de Debussy, "L’ Après Midi d´un Faune". As ideias podiam não ser completamente inovadoras mas o modo como eram mostradas fazia toda a diferença. O escândalo ajudou a aumentar o sucesso do bailado que, acima de tudo, constituiu o germe da novidade coreográfica.
Durante a tournée sul-americana Nijinsky casou-se com Romola Puszky e quando a companhia se reúne na Europa, Diaghilev depois de despedir Nijinsky contrata Leonide Massine [11] para o seu lugar. Ao longo das décadas seguintes, Diaghilev promove como coreógrafos Massine, Nijinska, Lifar e Balanchine.
No Verão de 1929 tudo chega ao fim. Em vésperas da grande crise económica mundial e prelúdio de novas diásporas, Diaghilev morre na sua adorada Veneza. A Companhia não resistiu à morte do empresário e os seus artistas seguiram o seu caminho. Coreógrafos e bailarinos formaram companhias próprias que mostraram mais tarde tornar-se nos alicerces das novas companhias nacionais (em países como a Inglaterra) e influenciaram o desenvolvimento da dança académico-clásica e até "contemporânea" por décadas e décadas. O talento de Diaghilev levou-o a criar e a projectar uma arte muito para além do esperado: ele revolucionou toda uma era e permitiu que a dança se instalasse definitivamente no século XX.
Diaghilev elevou o luxo e o exotismo a uma imagem de marca dos russos. O seu principal mérito foi o de ter conseguido congregar num grupo, uma prodigiosa série de criações e os maiores artistas de todas as especialidades: pintores, músicos, coreógrafos e bailarinos. Ele terá contribuído talvez mais do que qualquer pessoa na Rússia, para despertar o interesse pela arte pictórica russa não só no seu próprio país como, principalmente, no Ocidente, elevando a dança a Arte maior e inscrevendo-a como matriz do século XX.
NOTAS:
[1] A revista extinguir-se-ia em 1904.
[2] Romola Nijinsky, Nijinsky, Livr. José Olympo, Rio Janeiro, 1940, p. 51
[3] A segunda exposição de O Mundo da Arte ocorrerá em 1900, a terceira em 1901, a quarta em 1902 e a quinta e última em 1903.
[4] Que o alcunhará de “Chinchila”, devido à sua madeixa branca sobre a testa.
[5] Serge Lifar, Serge de Diaghilev: sa vie, son œuvre, sa légende, Éditions du Rocher, Monaco, 1954, p. 141
[6] A bailarina-estrela do Teatro Mariinky era suposto brilhar na primeira temporada dos Ballets Russes em 1909 em Paris mas, na prática, foi Nijinsky que atingiu o estrelato da notável temporada parisiense.
[7] Mathilde era a bailarina favorita do Czar e de toda a corte imperial, o ídolo do mundo artístico e intelectual de São Petersburgo e prima ballerina assoluta. No entanto acabará por não fazer parte desta digressão, uma vez que Diaghilev oferecerá o papel principal em "Giselle" a Pavlova e a bailarina sentir-se-á ofendida pelo insignificante papel que Diaghilev lhe oferecera. Aliás, à conta desta situação, o próprio grão-duque Vladimir, protector de Mathilde, retirará o apoio a Diaghilev obrigando o promotor a arranjar novas soluções.
[8] Houve tempos, entre 1830 e 1840, em Inglaterra, que algumas companhias privadas de bailado surgiram com carácter temporário.
[9] Prince Peter Lieven, The Birth of the Ballets Russes, Dover Publications, New York, 1973, p. 21
[10] Prince Peter Lieven, The Birth of the Ballets Russes, Dover Publications, New York, 1973, p. 73
[11] Leonide Massine, aluno da Escola Imperial de Moscovo, é integrado nos Ballets Russes em 1914, estreando-se no ano seguinte como coreógrafo da companhia.

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Antonio Laginha

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