Ler — 11 Julho 2010

"Senti que tinha chegado o momento de partilhar num livro a minha paixão pela obra dela (Pina Bausch) e tudo o que recolhi na pesquisa que tenho vindo a fazer desde que descobri o seu trabalho" – declaração à agência Lusa da jornalista e crítica de dança.
A moda havia de chegar a Lisboa: livros com o nome – e fotos – de Pina Bausch na capa e o endeusamento da bailarina que, entre outras cosias, amava a dança (clássica) psicológica de Antony Tudor.
E chegou com décadas de atraso, pela mão de Claudia Galhós, como é costume. Antes mesmo da Alemanha, país de origem da coreógrafa, foi na Itália que surgiram vários autores a debruçar-se sobre a vida e obra da autora de “Masurca Fogo”, dança expressamente criada para a Expo’98. A sua relação com Portugal foi interessante, mas não mais do que isso. E nem se pareceu com a de um país como o Brasil de onde vieram vários artistas para o elenco do seu grupo. Coisa de que Portugal não se pode orgulhar e razão sobre a qual nos devemos questionar!
É claro que desde a sua primeira visita a Lisboa que várias pessoas no seu atávico deslumbramento (e não menor provincianismo) tomaram em mãos uma “promoção” que Bausch nunca reclamou e, com o costumeiro oportunismo, tentaram promover-se à custa de uma notável artista que sempre tentou manter-se afastada de umas certas “luzes da ribalta” e proteger-se de um certo tipo de “homenagens” e "amizades" que ela tanto desprezava.
Com a chancela da “D. Quixote”, saiu para as livrarias um ano depois da sua morte (Bausch nasceu em Solingen em 27 de Julho de 1940 e viria a falecer, sem “aviso” ou suspeitas públicas, em Wuppertal onde está sedeada a sua companhia, em 30 de Junho de 2009), um curioso ensaio com laivos biográficos.
Apresentando-se como tal, uma tentativa sentimental que mistura biografia genérica com páginas que registam as passagens (sempre muito badaladas) do Tanztheater Wuppertal Pina Bausch pela capital portuguesa, a autora dá asas aos seus dotes jornalísticos, à sua imaginação e, sobretudo, à sua habilidade para o "copy-paste".
Ao atravessar a obra, ilustrada com 26 pouco estimulantes fotos – as melhores seis são, justamente, as de “Café Müller” que a bailarina dançou pela última vez em Lisboa, no Teatro S. Luiz, em 2008 – verifica-se um certo desequilíbrio formal e uma catarata de citações que vão de Fernando Pessoa a Maria João Seixas. Aliás, é por esse “café de Pina”, com música barroca de Purcell (e não Pursell, como aparece na página 15) que a publicação começa e só depois ataca os factos da vida e algumas notas espúrias sobre certas obras, com um critério avulso, da multifacetada artista. E é também com impressões sobre a mesma obra, complementadas com um excerto de um texto do poeta Al Berto, que o livro termina…
Afirmações como “Pina Bausch é o Lucien Freud da dança” e “os comportamentos e acções do quotidiano substituíram esses gestos [da coreografia pré-dança teatro] de exibição e virtuosismo vazio e inconsequente” (página 19) demonstram que a apropriação é um dos pontos fortes da publicação e dão a entender que a escritora, que nunca pisou um palco e nem parece ter qualquer formação artística, é, entre outras coisas, bastante preconceituosa.

Mas o mais significativo neste trabalho é o facto de nas seguintes 260 páginas muito pouca (ou mesmo nenhuma) coisa nova transparece dos escritos de Galhós.
É curioso como o universo bauschiano, pelos olhos da escritora, é levado a uma quase ficção literária que, como todo o seu biógrafo digno desse nome sabe, não tinha qualquer paralelo na vida real nem no seu mundo artístico.
A autora da obra revela a maneira como as obras de Bausch a afectaram drástica e positivamente a si, o Mundo e a vida dos cidadãos. A artistas sim. A jornalistas, médicos, carpinteiros, químicos ou merceeiros, não parece muito provável! Também fala de namoro/amor, um sentimento que Galhós, realmente, nunca poderia ter tido pela biografada pois nunca conviveu com ela e, como toda a gente sabe, ainda por cima Bausch era parca em palavras e extremamente reservada – de uma timidez e inteligência desarmantes – nos seus sentimentos. As suas entrevistas – e a que deu a Galhós não terá sido excepção – eram famosas pela contenção e frugalidade de palavras, ideias e sentimentos.
Uma incursão, completamente inusitada, pela suposta “dança-teatro portuguesa”, parece servir apenas de pretexto para se atirar para o papel uns nomes que, visivelmente, a escritora admira e pretende referenciar. Ela vai também desenterrar a “História da Dança em Portugal” de José Sasportes para recuar a 1792, porém é económica na análise ao trabalho de Olga Roriz, a artista mais colada a Bausch que a nossa dança jamais conheceu!
Mas isto não quer dizer que o livro não seja útil. É-o certamente, nem que seja pela paisagem praticamente desértica em termos de literatura terpsicoreana em Portugal.
A sua oportunidade também não pode ser contestada pois deu motivo para se falar de Pina e de uma meia dúzia de pessoas, que se apresentam como “amigos” da artista, voltarem a promover-se à custa de uma defunta famosa. Aliás, todos temos vindo a ver esse “filme” com o caso Amália, outra artista de excepção que, essa, tal como Bausch, era incapaz de se pôr em bicos de pés e, como documenta uma foto do livro de Galhós, até fez questão de ir visitar Pina aos estúdios da Companhia Nacional de Bailado.
Depois de se ter impresso tanto papel com muitas ideias feitas e alguns “faits divers” subtraídos à curta vida da diva alemã “amante de todos os silêncios”, era bom que Jorge Salavisa – o actual presidente do OPART que, diz-se, ter encomendado a obra e escrito e prefácio – subsidiasse, depois desta, algumas homenagens a grandes bailarinos e coreógrafos portugueses que muito o ajudaram em mais de 20 anos à frente do Ballet Gulbenkian e cujo reconhecimento, para alguns, foi, pasme-se, a condenação à imobilidade, pelo próprio Salavisa.

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Antonio Laginha

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