Entrevista — 09 Outubro 2009

RAPAZES NUS A CANTAR: Onde é que nos viemos meter? Agora já não da para fugir…
Hugo Goepp e Hugo Martins são os dois bailarinos que integram o elenco do muito falado musical “Rapazes Nus a Cantar”.
Tal como o título indica, o espectáculo é interpretado por (oito) homens, que passam a maior parte do tempo em cena despidos, a representar, cantar e dançar pequenas “histórias” engendradas há mais de uma década, na Califórnia, pelo norte-americano Robert Schrock.
Depois de várias versões em palcos europeus e americanos chegou ao… Teatro do Casino Estoril.
Em Portugal a adaptação foi assinada por Nuno Feist e o acompanhamento musical (ao vivo) com apenas um piano é assegurado por Henrique Feist. As partes coreográficas são da autoria de Paula Careto e a despojada cenografia imaginada por Carlos Mendonça.
Enquanto “Rapazes Nus a Cantar” está em cena, os dois Hugos responderam a algumas perguntas da Revista da Dança (RD).
Revista da Dança – Qual é a sensação de se apresentar nu perante um plateia de gente vestida?
Hugo Goepp – (Risos) Eu pensava que ia ser mais difícil! É mais o choque inicial, no momento em que se enfrenta o público pela primeira vez. Quando se tiram as mãos da frente do …
Mas isso era no começo, porque temos tanta coisa em que pensar. São muitos pensamentos simultâneos mas, quando engreno no espectáculo, a última coisa em que eu penso é que estou nu. E esses momentos são escassos pois estou sempre com os tons musicais e as coreografias na cabeça. É curioso que, no passado, em audições para espectáculos de dança já me tinham perguntado se eu era capaz de assumir a nudez integral em palco e eu sempre respondi negativamente. Agora aconteceu.
Hugo Martins – Basicamente está a ser uma experiência interessante. Quando me falaram no espectáculo pensei de imediato: mas eu nunca cantei na vida! E como nunca dancei sem roupa não imaginava ser possível um dia vir a entrar na peça. Achei, desde logo, que nunca me sentiria à vontade mas acabei por ir à audição quase como por desafio. Para ver se conseguia. Eu sabia que os produtores tinham vindo de Nova Iorque e estavam à espera de vozes excelentes. Eu próprio também achava que era isso o mais importante. Para mim, este teste, foi quase como uma atitude terapêutica contra as minhas inseguranças. A determinada altura pensei que seria engraçado experimentar e nem fazia ideia se conseguiria cantar minimamente bem! Na audição cantámos a solo, só com o Nuno Feist ao piano, e, só depois, veio a coreografia. Quando passámos à fase seguinte é que nos mandaram tirar a roupa. Na verdade até estávamos a espera de uma outra eliminatória, mas mandaram despir-nos e perante a nossa surpresa voltámos a fazer tudo em grupos mais pequenos. Temos, realmente, muito em que pensar e acabamos por nos esquecer do “pormenor” da nudez. Foi mais uma sensação de primeira vez, no ensaio geral e no primeiro espectáculo, que, naturalmente, aconteceu com toda a gente
RD – Como reagiram os outros artistas à sua própria nudez e à dos colegas?
HM – Estivemos umas duas semanas a cantar e só depois veio o movimento. Apenas quando os números estavam mais construídos é que começámos a fazer tudo sem roupa. Foi gradual. Essas reacções dependem de cada pessoa. Uns estavam muito à vontade e depois do choque do “casting” a coisa tornou-se mais banal.
HG – Houve uma “onda” muito boa entre todos. Eu até sou muito pudico, não me despia na frente dos colegas e nem fazia nudismo na praia mas, a partir da audição – com mais de vinte pessoas a ver na plateia e outros tantos em cena – como ninguém morreu acabou por se tornar fácil.
RD – Para um bailarino, supõe-se que o mais difícil será cantar!
HG – Na verdade, em termos vocais, eu queria, mesmo, fazer uma coisa assim. Ter uma música só para mim foi muito apelativo. Eu já sentia que tinha algumas potencialidades para cantar desde que trabalho como o Filipe la Feria. Entrei em musicais como “A Canção de Lisboa” e “My Fair Lady” e em diversas peças infantis no Politeama. Mais recentemente participei nos musicais “Footlose”, “Jesus Cristo Superstar” e “West Side Story”, em que já fiz algumas cenas faladas e cantadas. Mas foi nos espectáculos infantis que comecei a cantar, designadamente na “Alice no País das Maravilhas”, em que os colegas cantores começaram a dizer-me que eu até poderia fazer audições como cantor. Só aí comecei a acreditar nas minhas potencialidades.
HM – Para mim foi, sim. Não estava nada habituado a cantar.
RD – Gostam de apostar no humor, coisa pouco habitual nos espectáculos de dança?
HG – Como atrás afirmei, fiz muitas peças infantis e musicais com muitas danças cuja base era humorística. O cómico é uma coisa que me agrada bastante. Diverte-me.
HM – Para mim foi uma experiência nova e essa característica faz de tudo isto um desafio muito engraçado.
RD – Como foram feitas as escolhas para cada personagem já que o espectáculo assenta em cenas separadas ?
HG – Isso foi tarefa do Henrique Feist que tentou descobrir as “habilidades” de cada um. Creio que a produção nos escolheu de acordo com o que cada um transmitiu na audição e até pela estrutura física.
HM – Há uma cena em que se aborda o tema da circuncisão – uma prática muito norte-americana e judia – e para esse número levou-se esse facto em conta. Eu até sou circuncisado por razões não religiosas, naturalmente.

RD – Já tinham visto o espectáculo ao vivo ou em DVD ?

HM – Nem ao vivo nem em DVD.
HG – Eu vi o DVD do espectáculo e várias imagens e vídeos antes de se falar que vinha a Portugal. Quando vi no meu computador nem sonhava que iria entrar na audição. Quando soube do “casting” voltei a ver o filme na diagonal e só pensei na audácia da coisa para Portugal. Como gosto de coisas audazes até senti um certo apelo. Mas pensei logo que quaisquer referências homo-eróticas “seriam aliviadas”.
RD – Acha que os pressupostos em que o espectáculo assenta são “sentimentos” universais ou, pelo contrário, aplicam-se a uma sociedade fortemente americanizada?
HG – Se uma pessoa ouvir as letras e as músicas americanas pode achar isso. Mas a adaptação está bem feita e fez o espectáculo mais para nós.
HM – Acho que é muito abrangente e não vejo a coisa de um modo restritivo. Visto de dentro penso que o que estamos a tentar passar é universal porque fala de coisas básicas que têm a ver com qualquer pessoa e não necessariamente com homossexuais. Tudo tem a ver com os olhos com que as pessoas vêem a peça. Por somos homens e estarmos nus a cantar não tem que ter uma conotação “gay” que muita gente acha que tem quando vai ver o espectáculo. Eu acho que é um show para todo o tipo de público, independentemente do género ou da opção sexual.

RD – Um espectáculo desta natureza pode tornar menos conservador um país como Portugal?
HM – Só o facto de existir já quebra algumas barreiras. Também tem uma parte comercial muito forte em termos de marketing. Veja-se o título e a maneira como é feita a publicidade. A verdade é que as pessoas se divertem muito. Durante a semana temos a casa a três quartos e nos fins-de-semana tem estado esgotado.
HG – O objectivo da peça não é quebrar barreiras e nem fazer com que o público deixe de ser conservador. Como não é um espectáculo subsidiado tem que fazer dinheiro por isso o tema e o titulo mostram logo o lado mais carnal e, por isso, apelativo. A verdade é que isso chama logo muito publico que acaba por entrar nas várias histórias.

RD – Pode-se afirmar que as reacções têm sido boas?
HG – Não estava à espera mas, ao fim de cinco minutos, os espectadores deixam de ver a nudez e cinco minutos depois já se preocupam com a coreografia, a música e as palavras. Isso é bom para nós que, por vezes sentimos o público um pouco intimidado no início. Tem dias em que se sente um “peso no ar”. Quando nos destapamos sentimos sempre algum nervoso miudinho na sala. Penso que nos primeiros quadros ainda ninguém esta muito à vontade. Mas depois é bom porque transmitimos emoções fortes.
HM – É um espectáculo de uma coragem gigantesca e eu adivinho um certo agrado no publico em ver um espectáculo desta natureza que, inevitavelmente, “rasga” o convencional.
RD – Quais as repercussões que esta experiência trará para as vossas carreiras ?
HM – Nunca trabalhei num elenco tão “boa onda”. Todos trabalham em conjunto e todos vivemos a coisa em conjunto por isso penso que esta peça me abrir a porta a outras áreas artísticas. Sinto-me a crescer artística e pessoalmente com este espectáculo e por tal estou muito satisfeito. No início tínhamos uma certa ideia de “mas onde nos viemos meter?” Mas agora achamos que, noite após noite, é um privilégio fazer parte deste projecto. Aos nossos olhos, como não é “brejeiro”, achamos que não poderemos ter qualquer conotação negativa.
HG – Cada vez há menos trabalho de Dança em Portugal. Cada vez mais temos que nos “virar”. Esta nossa participação é o resultado – em muito – dessa situação em que encontramos hoje no País! Alguns poderiam ter medo de um eventual “efeito negativo” que isto pudesse ter, no futuro, na sua imagem. Agora, pelo contrário, eu sinto-me ainda mais profissional e estou muito feliz. Temos sido reconhecidos até na rua e tido um bom “feed back” de amigos e desconhecidos…
 

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Antonio Laginha

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