Entrevista — 18 Agosto 2008

Guy Darmet não precisa de grandes apresentações no país onde vive, é o homem mais importante da dança em Lyon – fundador da Casa da Dança da segunda cidade francesa e director artístico da Bienal – e um dos mais poderosos (e influentes) em toda a França.
Nascido em 1947, licenciado em direito e diplomado em gestão, começou por trabalhar na imprensa regional em marketing e como jornalista culural, escrevendo sobre dança, teatro e cinema.
É uma pessoa com grande sensibilidade que alia às qualidades de gestão e de iniciativa, uma visão muito especial da arte da dança… e actividades afins.
Ao longo de muitos anos tem vindo a dirigir a Casa da Dança (que começou no pequeno teatro da Croix-Rousse e hoje funciona num belo edifício da Avenida Jean Mermoz) onde se apresentam programas regulares e inovadores que os leoneses acarinham a aplaudem com inusitada energia. Ao fim de 28 anos aquela intituição conquistou nada menos que 15.000 assinantes e pelos seus assentos passam cerca de 170.000 espectadores por temporada.
Espaço único em França, a Casa da Dança tornou-se num espaço privilegiado de difusão e criação e um dos mais importantes do Mundo nessa área.
A premiar o trabalho de Guy Darmet a República Francesa atribui-lhe algumas das mais altas condecorações (Cavaleiro das Artes e Letras, da Ordem Nacional de Mérito e da Legião de Honra e Oficial das Artes e Letras) e a Universidade do Quebec (Montréal) um Doutoramento Honoris Causa.
O antigo jornalista é uma pessoa particularmente amistosa com os utentes da Casa da Dança e dotada de especial “finesse” . “Monsieur Darmet”, é, também, o anfitrião ideal para jornalistas e artistas durante os meses de Setembro, de dois em dois anos, quando se realiza a Bienal na cidade banhada pelos rios Ródano e Saône.
No momento em que anuncia ser a de 2008 a última Bienal sob a sua batuta, a Revista da Dança falou com a “alma da dança em Lyon”.

Revista da Dança – A Bienal celebra 25 anos em 2008 e espera um número de espectadores que ronda os 85.000. Sente que este e outros números – 42 companhias com 600 artistas vindos de 19 países – lhe dão a medida do caminho percorrido ?
Guy Darmet – Os números citados revelam o sucesso de uma aventura formidável iniciada no bairro da minha infância, a Croix-Rousse, onde, em 1980 – ano de decisivo e de explosão da dança francesa – nasceu a Casa da Dança, seguida da Bienal em 1984.
As duas estruturas têm-se alimentado mutuamente e muitos dos frequentadores da Casa da Dança viram esta arte pela primeira vez durante as Bienais.

RD – O tema “Regresso para a Frente” é o fio condutor da Bienal 2008. Isso pressupõe que a escrita coreográfica não é apenas um traço do passado mas também um espaço de permanete de abertura de novas vias?
GD – A Bienal deve dar chaves ao público com espectáculos rigorosos, generosos e com histórias fortes. O nosso envolvimento é o mesmo desde 84 levantado questões ligadas à história e à tradição em constante evolução e que hoje informam o trabalho de muitos coreógrafos contenporâneos.

RD – Os encontros entre artistas vindos dos quatro cantos do mundo com o público leonês são uma realidade?

GD – “Dançar a Cidade” foi o tema da última Bienal (em 2006) mas a dança no espaço público é um combate que eu travo desde sempre, para que a dança, hoje, esteja no coração de cada bairro da Grande Lyon.
Este ano temos bailes e criações desenhados especialmente para espaços urbanos e, naturalmente, o Desfile que é um encontro emblemático e uma maneira de ir mais longe nesta experiência. E para as gerações futuras nós propomos um significativo número de 34 espectáculos (público jovem) este ano. Os espectadores a que se destinam estes eventos são o público do amanhã e nós estamos a oferecer-lhes as pistas para a compreensão da dança e uma oportunidade para o fururo.
RD – A que critério presidiu a escolha da cantora portuguesa Mariza para encerrar a Bienal de Dança 2008 ?
GD – Vamos apresentar, durante três semanas, 165 espectáculos de dança sob o tema “Regresso para a Frente”. É a memória… a transmissão, com a bonita dedicatória de Antonio Venancios “sem memória, como construir o presente e pensar o furutro?”
Para celebrar a a beleza do fecho desta Bienal, é uma alegria acolher a magnífica voz de Mariza que traz toda a sua modernidade e inventiva à tradição do fado. A sua presença e carisma, em cena, iluminarão a noite de fecho do festival.

 

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Antonio Laginha

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