Entrevista — 27 Outubro 2007

 

Fora do palcos revela-se uma pessoa bastante vulgar. Não tem quaisquer tiques de estrelismo, aura de divo ou pose de galã-toureiro. É, não só, um homem reservado, como até, algo doce, para além de um pouco gago, o que torna o seu discurso ainda mais terra-a-terra. Israel Galván fala do seu trabalho com inusitada simplicidade, sem a enorme concentração e um pouco de nervosismo que exibe em cena.
Israel Galván de los Reyes nasceu, há 34 anos em Sevilha, filho dos artistas da dança (também sevilhanos), Eugenia de los Reyes e José Galván.
Desde criança que acompanhou os progenitores aos tablaos, às festas populares e às academias de dança, onde o pai leccionava. Só no início dos anos 90 é que Israel se interessou seriamente pela arte da dança tendo, quatro anos depois, ingressado na Companhia Andaluza de Danza sob a direcção de Mario Maya. Posteriormente ganharia vários prémios importantes tais como o Vicente Escudero, no Concurso Nacional de Arte Flamenca, em Córdova (1995), el Desplante do Festival Internacional del Cante de las Minas de la Unión (1996), o Prémio do Concurso de Jovens Intérpretes, na IX Bienal de Flamenco de Sevilha (1996), o Prémio Flamenco Hoy, em 2001, e outros.
Trabalhou com alguns dos mais reputados artistas do flamenco vivos. Para os seus trabalhos coreográficos – "!Mira ! Los Zapatos Rojos" (1998), "La Metamorfosis", "Galvanicas", "Las Palabras Y Las Cosas", "Dos Hermanos" (com a sua irmã mais nova Pastora Galván), "Arena" e "La Edad de Oro" – foi buscar inspiração àquilo que chama as “raízes” flamencas.
Desenvolvendo um estilo muito pessoal e atípico, divorciado dos clichés do "baile espanhol" de contornos folclóricos, Galván mostra-se como um “bailaor” indiossincrático com uma abordagem quase “pós-moderna”.
Não é por acaso que a língua castelhana utiliza designações distintas para o bailarino-solista de flamenco – o "bailaor" – e o bailarino clássico, que pode ou não integrar conjuntos, o "bailarín".
Israel Galván esteve em Lisboa, no Teatro Nacional de S. Carlos, no Verão de 2006. Um ano e meio depois confessa não se lembrar em detalhe do seu espectáculo na capital portuguesa, mas acrecentou à “RD”, no Palácio dos Festivais de Cannes, que, “como em todos os lugares o espectáculo ‘La Edad de Oro’ (A Idade de Ouro) teve uma boa recepção do público, em Portugal não foi excepção”.
RD – O seu trabalho é bem diferente do que nos habituámos a ver nos palcos quando se pensa no flamenco no masculino. Certo?
IG – Normalmente as duas primeiras intervenções – Galván está em cena apenas acompanhado por um “cantaor” e um guitarrista – surgem um pouco de surpresa. Depois os olhos do público habituam-se ao tipo de trabalho que eu proponho e, daí, em diante ficam agarrados.
RD – Pode dizer-se que o seu estilo parece um pouco “selvagem” em comparação com o dos bailarinos mais em voga?
IG – Talvés seja porque venho de uma família de bailarinos em que a minha mãe é cigana. Não acredito muito nisso mas é possível que essa “característica” venha do lado materno.
RD – Mas a sua formação foi toda dentro de um estilo mais tradicionalista, não foi?
IG – Sim. Comecei a dançar, praticamente, aos 4 anos de idade com os meus pais nos “tablaos” de Sevilha. Depois entrei em vários concursos e, a determinada altura, percebi que tinha que ir por outro caminho. O meu caminho.
RD – O que, por vezes, quase “choca” o espectador é a maneira como utiliza a música parecendo deixá-la “entrar no corpo” e depois deixar fluir o movimento. Pensa nisso ao dançar ou coreografar?
IG – Eu dança a música, sem dúvida, mas de um modo pessoal, sim. Tanto trabalho o gestual como os silêncios e organizo rigorosamente todas as estruturas musicais. Primeiro analiso a música e só depois executo as danças.
RD – Em ‘La Edad de Oro’ – uma homenagem aos grandes bailarinos e cantores dos anos 30 -aparecem apenas três artistas em cena e parece claro que existe uma certa liberdade criativa para cada um e um espaço para brilharem individualmente. É correcto?
IG – Sim, é certo. Nós estamos muito bem articulados e procuramos ter momentos em que funcionamos sozinhos para nos dar-mos esse espaço mais personalizado.
RD – Há muito material improvisado nesse trabalho?
IG – Quando danço sozinho em silêncio, sim, posso tomar a liberdade de improvisar.
RD – Quais são as suas “influências” artísticas?
IG – Naturalmente a minha família, em primeiro lugar, e depois todos aqueles com que fui trabalhando. Não tenho influências de uma só pessoa mas de muitos artistas.
Creio que, sem perder a “energia flamenca”, tudo se pode incorporar neste estilo de dança: butô, sapateado americano e outras formas. O bailarino funciona como o “filtro”.
RD – Mas o “seu flamenco”, algo bidimensional, com um gestual que parece roubado às fotos e poses de Nijinsky e com zonas em que o humor parece entrar deliberadamente, vem exactamente de onde ?
IG – Existem fotos e filmes de Vicente Escudero e Pilar Lopez em que se podem ver algumas semelhanças com o que eu faço agora. Sobretudo os gestos das mãos e o uso da boca.
Há uma nova educação do corpo que, hoje, nos pode levar a situações que parecem mais primitivas.
RD – Custou-lhe muito convencer os “puristas” ?
IG – Bem, os puristas são os críticos de Sevilha, Jerez e Madrid. Eu considero que fiz tudo em forma de jogo, mas sempre recebi boas críticas. Houve quem dissesse, no início, que eu era um “desviado” e que “perdera o caminho”, mas agora já vão entendendo o que eu faço. Porém, quem mais “defendeu” o meu trabalho foi o próprio público. A maneira de escrever crítica também tem vindo a mudar nos últimos anos…
RD – Que planos tem para um futuro próximo?
IG – Em Setembro passado dancei em Málaga uma nova versão de “O Final Deste Estado de Coisas”, que voltarei a apresentar no início de Março de 2008 no Festival de Jerez. Trata-se de um solo sobre o Apocalipse. E continuarei com “A Idade de Ouro” que já vai em mais de uma centena de espectáculos desde o início de 2005.

António Laginha
ENTREVISTA COM SUSANA LIMA

Susana Lima é uma das bailarinas que mais se destaca no nosso panorama de intérpretes de dança.
Desde sempre ligada à Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo (CPBC) confessa ter começado na dança, com cerca de dez anos, “completamente fora do percurso normal”. Isto é, ao contrário do que é mais comum – sobretudo no nosso País – o início do seu treino foi com dança moderna, com a professora Teresa Rego chaves, no Ginásio Clube Português.
Curiosamente, acrescenta: “quando comecei com aulas de bailado clássico foi uma verdadeira tortura”.
Lembra-se que, depois, frequentou a Escola de Dança do Conservatório Nacional, tendo depois passado por um curso ministrado na Companhia Nacional de Bailado (CNB) antes de se formar, em 1995, na Escola Superior de Dança (ESD).
Daí, passar a profissional foi um passo já que, entre o período em que se graduou, no Verão, e o final do ano trabalhou como “independente” com vários amigos e coreógrafos tendo, no início de 96 embarcado na “aventura” da UPE Dança. Tratava-se de um grupo de antigos alunos da ESD e ex-bailarinos da CNB dirigidos por Vasco Wellenkamp na ESD que, após cerca de dois anos de espectáculos com um carácter algo irregular, haveria de dar lugar à CPBC.
Esta “companhia de autor” surgiu por altura da Expo’98 e sobre ela Susana Lima afirma sem hesitações: “é o meu projecto”!
“Nunca consegui dar o passo para fora dela” acrescenta com um misto de doçura que denota uma deliberada “falta de coragem”. “Nem sequer ponho a hipótese de deixar o ‘núcleo duro’ do grupo – de que fazem parte também a Rita Judas, a Rita Reis e a Patrícia Henriques; a Liliana Mendonça e a Cláudia Sampaio juntaram-se a nós depois – porque somos, realmente, a base da companhia. A maioria do elenco tem entrado e saído mas nós, agora já com a São e o Emílio, somos os que criámos raízes”.
Embora não tenha tido grandes solos ou duetos criados para si a verdade é que, ao longo de umas sete temporadas, a bailarina quase sempre faz “seus” todos os momentos em que se apresenta em cena. E quantas vezes com um rigor e uma energia tão particulares.
No momento presente o futuro não se apresenta risonho para os grupos que, de um modo ou outro, acabam por depender do Ministério da Cultura ou de autarquias, como é o caso. “Deixar este trabalho tem implicações e problemas que agora não quero equacionar, porém, se a companhia acabasse – coisa fácil neste país – eu teria que pôr em cima da mesa outras alternativas”.
Mas “a CPBC não vai ter esse fim, nós vamos todos lutar para que isso não aconteça”.
Susana considera muito importante para a sua carreira a passagem pelo Grupo Juvenil Ciclorama, o que lhe deu “uma rodagem de espectáculos em todo o tipo de condições” valiosíssima para o seu desempenho profissional. “Esta espécie de ‘estágio’ que fiz quando tinha mais ou menos 14 anos deu-me um traquejo que me deixava muitíssimo mais à vontade em palco que a grande maioria dos meus colegas quando nos tornámos bailarinos a sério. Este tipo de grupos é muito importante que existam já que contribuem para a formação de muitos jovens”.
Quando ao reportório da companhia – quase exclusivamente da autoria de Wellenkamp – Susana Lima afirma “sentir-se em casa” pois conhece muito bem a metodologia e gostos do seu director. O mesmo acontece com os trabalhos de sua colega Rita Judas, que acredita ser uma jovem coreógrafa em ascensão.
Teve, contudo, particular prazer em dançar o segundo trabalho que o coreógrafo inglês Henry Oguike criou para a CPBC, assim como uma das últimas criações de Wellenkamp, uma peça sobre García Lorca, em teve a oportunidade de fazer um aturado trabalho dramatúrgico sob a orientação do encenador João Mota.
Quanto ao futuro, Susana, embora sabendo que há, neste Portugal, “espaço para todos”, não deixa de se interrogar pois sabe que tanto o “seu trabalho” como a “sua companhia” são prenhes de riscos.
Mas, entretanto, tem uma vida afectiva estável e o que mais quer é dançar em Portugal e no estrangeiro de onde, recentemente trouxe uma grande alegria – conhecer pessoalmente, em Itália, uma das grandes divas do século XX, a “ballerina” Carla Fracci.

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Antonio Laginha

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