Opinião — 14 Abril 2008

Voltou ao Parlamento para debate, pela mão do BE e do PSD, o assunto das reformas (antecipadas) dos bailarinos portugueses decorrente de uma petição da Comissão de Trabalhadores da Companhia Nacional de Bailado (CNB), entrada em Julho de 2007 e que, na altura, reuniu o necessário número de assinaturas.
Vem de longe o desejo – e a reivindicação – dos bailarinos portugueses de querem ser respeitados nos seus direitos, chamando a si a “equiparação” a atletas de “alta competição”.
É óbvio que um atleta é um atleta – que se preocupa, acima de tudo, em ultrapassar marcas – e um artista é um artista. A preocupação deste é diversa da do desportista já que também deve apontar para a “excelência”, mas fazendo do seu corpo, em simultâneo, uma máquina rigorosa e afinada e um veículo de emoção e de transmissão de sentimentos.
Reclamam os artistas da CNB – e poucos mais – um estatuto especial para os bailarinos clássicos.
São um grupo de menos de duas centenas em todo o país que reclama – e muito justamente – que o seu grande esforço físico e mental, em prol da arte da dança, seja reconhecido e devidamente valorizado. Tal como em outros países, através de um mecanismo legal que lhes permita uma reforma antecipada, aos 40 ou 45 anos, numa idade ainda produtiva para se abalançarem a uma reconversão de carreira. Como é sabido, em Portugal, as reformas conseguidas de um modo “sério e transparente” poucas vezes dão para viver decentemente e os artistas têm o direito de se querer continuar a valorizar e, até mesmo, encetar uma outra vida profissional fora da dança.
Porém, o problema, agora recolocado à Assembleia da República, não tendo sido resolvido em tempo útil – há umas duas dezenas de anos – está ferido por um vector de conteúdo artístico (e até ideológico) difícil de ultrapassar.
Fará sentido, hoje, separar bailarinos clássicos e não clássicos?
Naturalmente que o trabalho de ambos exige disponibilidades físicas e mentais diversas. Um “performer” que realiza “eventos” em fachadas de edifícios abandonados, que protagoniza um espectáculo pendurando fotocópias (tiradas em “tempo real”) de partes do seu corpo, que finge coser o seu próprio corpo com uma agulha ao mesmo tempo que elabora uma teia/”instalação” sobre as cabeças dos espectadores ou um que lê textos literários e, em simultâneo, espeta alfinetes nos olhos mirrados de um galináceo congelado, jamais poderá invocar o desgaste de outro que, diariamente, faz uma hora e meia de aula de técnica e passa centenas de horas a ensaiar trabalhos fisicamente muito exigentes.

Se por um lado o “esforço performativo” não pode ser (nem de perto nem de longe) comparável ao de quem se mantém fiel a determinadas técnicas de dança assentes na destreza física e mental, muitos artistas ditos “contemporâneos” reclamam para si o estatuto de “intermitente”, porque muito raramente funcionam dentro de uma lógica de assalariado. Não pelo desgaste físico da profissão, mas pelo tempo que permanecem “desempregados” com as inevitáveis desvantagens que advêm de quebra de linha salarial e benefícios sociais fornecidos pelo Estado, para além de outros inconvenientes de ordem fiscal.
Estamos, pois, a falar de duas faces de uma mesma moeda.
Para quem deve, mais urgentemente, olhar o Ministério da Cultura?
A resposta é única e apenas uma: para todos ao mesmo tempo porque, relativamente a países como a França, andamos com décadas de atraso!
 

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Antonio Laginha

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