Dentro — 28 Setembro 2011

O Jogo do Risco
“Dance first. Think later. It’s the natural order.”
? Samuel Beckett

Quem tiver oportunidade de assistir ao último filme-documentário de Marco Martins verá que no mesmo se pode comprovar cabalmente a “modéstia” de um bailarino e director teatral, Jorge Salavisa, que diz repetidamente que “era tecnicamente bastante forte” e que tem “boas ideias”. No filme ouve-se mesmo falar de… “sete maravilhas num só corpo” (!).
Pena é que ninguém seu contemporâneo se prestou a confirmar as suas virtualidades de intérprete e também nenhuma pessoa verdadeiramente lúcida se chegou à frente para testemunhar a qualidade da actual dança portuguesa (que, hoje, é quase inexistente) e cuja situação se deve, em parte, à sua actuação como dirigente político de empresas para as quais nunca fez um concurso para entrar!
Aliás, há coisas bem sintomáticas no longo percurso de Salavisa – para além da sua óbvia vaidade -, como por exemplo que nunca tenha levantado a voz relativamente ao “assassinato a sangue frio” do seu “querido Ballet Gulbenkian” (BG), companhia que apregoa aos quatro ventos ter “elevado a um nível nunca visto”. Apenas porque, em nenhum momento, mostra um pingo de respeito e consideração pelo trabalho de pessoas como, por exemplo, Milko Sparemblek, seu antecessor na Gulbenkian. Quem estava no BG na altura da sua chegada à companhia sabe bem que ela já tinha tido uma “fase internacional” e que as mudanças por si operadas foram muito penosas para algumas pessoas e, quantas vezes, desrespeitadoras, para aqueles “bailarinos medíocres” que Salavisa diz, sem qualquer pudor, ter posto na rua! Os que, afinal de contas, tanto o ajudaram a subir, ao contrário de muitos “mercenários” que o “grande director” nunca menciona por se tratar de estrangeiros seus amigos que, de imediato, contratou para Lisboa. Alguns dos quais a Fundação Gulbenkian muito pagou para não dançarem! Também Salavisa se esqueceu de referir, a propósito das “qualidades” da sua gestão, a enorme verba que, mais recentemente, o Estado português teve que pagar de multa ao Joyce Theatre pelo cancelamento de uma digressão da Companhia Nacional de Bailado (CNB) a Nova Iorque.
Pena que quando, em várias ocasiões, teve um poder quase absoluto sobre a CNB não se tenha livrado das “gorduras” que aquele agrupamento ainda hoje apresenta e que tanto têm pesado no erário público nos últimos anos. Poder-se-á dizer que “correr riscos” com o dinheiro dos outros – a rica Fundação Gulbenkian, o Estado e a Câmara Municipal de Lisboa – é uma coisa, mas trabalhar no arame com poucas ou nenhumas condições é coisa que Salavisa nunca conheceu em Portugal! E, a propósito, acrescentar que há alturas em que convém que a memória seja curta e a consciência descartável…
"Keep Going"
Objectivamente o filme de Martins nada acrescenta à Dança Portuguesa, já que Salavisa (muito pouco ou) nada dançou em Portugal e nunca realizou qualquer criação coreográfica ao longo dos seus quase 74 anos de vida.
“Keep Going” começou por ser uma frase das mais recorrentes na “Sinfonia” de Luciano Berio, que depois foi transformada numa belíssima dança chamada “Wirligogs” pelo notável coreógrafo norte-americano Lar Lubovitch e interpretada anos a fio (e com um imenso prazer) pelos bailarinos da Gulbenkian antes de Salavisa ter entrado, em 1977, para mestre de bailado. Já como director, havia de ter em reportório no grupo da Praça de Espanha uma peça de Wellenkamp – vagamente inspirada na de Lubovitch – que tinha por título aquelas duas palavras que agora dão o nome a um filme laudatório sobre o celebrado director do Teatro São Luiz.
Durante a primeira meia hora de filme tudo quando se percebe é que Salavisa, foi de Lisboa para África de onde voltou adolescente para se tornar bailarino em França. Pelas muitas fotos vê-se que esteve em contacto com grandes nomes estrangeiros da dança da época – que aparecem em pequenos e deliciosos excertos, designadamente Zizi Jeanmaire, Margot Fonteyn, Galina Samsova, Yvette Chauviré e Rosella Hightower – mas, como ele realmente dançava, apenas se pode constatar numas parcas imagens do bailado “Otelo”, do seu amigo Peter Darrel.
Percebe-se que Iago era feio, barbudo e tinha olhos de rato. Que era dissimulado, traidor e sem carácter já Shakespeare nos tinha informado. Quanto à performance de Salavisa nada parece indicar que tenha sido mais que… mediana!
Que se saiba, existem em Portugal mais de uma dezena de artistas – sobretudo criadores de dança – cuja obra daria documentários muito mais interessantes e apelativos do que este. Desde Logo, Águeda Sena, Carlos Trincheiras, Armando Jorge, Vasco Wellenkamp e, mesmo, Fernando Lima que andou por Paris e por outros “estrangeiros” muito antes de Salavisa e deixou um espólio coreográfico notável e premiado, nas mais diferentes áreas da criação! Tomara Marco Martins e os seus colaboradores conhecerem um pouco da obra dos grandes coreógrafos portugueses do passado!
A apresentação do documentário “Keep Going” – com uma “performance” verdadeiramente deprimente de dois não-actores e um inusitado figurante de espingarda em punho – no palco do São Luiz (naturalmente) teve honras de VIP na audiência, para além de alguns artistas que Salavisa protegeu e acarinhou. E também ausências muito significativas! Desde logo pessoas que bem o conhecem e que ele afirma no filme ter mantido, décadas a fio, relações de amor-ódio. Talvez seja nessa matriz que o trabalho de Salavisa se deva, mesmo, avaliar. Aliás, sobre a sua actuação no OPART (antiga entidade gestora do S. Carlos e da Companhia Nacional de Bailado) foi pública e notória a controvérsia instalada aquando da sua nomeação – e desde, logo, as muitas objecções e dúvidas levantadas – ao que se seguiu a sua inevitável demissão. A propósito, e para quem esteve especialmente atento, foi deveras significativo tudo que a “vox populi” testemunhou e verteu para o jornal “Público” sobre o assunto.
É certo que o filme apresenta algumas qualidades a nível técnico (imagens a preto e branco com patine e até deliberados arranhões na película), uma boa vertente de pesquisa – sobretudo na exibição dos excertos de bailarinas e alguns bailarinos famosos a dançar – e uma montagem, por vezes, habilidosa. Porém as entradas do “Quebra-Nozes” (Tchaikovsky), não parecem ser a mais apropriada “incidental music” para ilustrar uma peça sobre alguém que insiste em dizer ter desbravado caminhos nunca antes navegados! Já para não mencionar que as opções, em relação ao seu conteúdo, deixam muito a desejar.
Em resumo, depois do biografado ter dito para as câmaras tudo o que pensa de si e do seu trabalho, seria bom que, num filme futuro, alguém venha a dizer de Salavisa, aquilo que ele afirma da sua (presumível) “amiga” Margot Fonteyn: que era uma grande mulher!
 

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Antonio Laginha

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