Tema de Capa — 06 Janeiro 2012

O Ballet de Monte Carlo estreou o "Lago", no Forum Grimaldi, fechando a sua programação do ano de 2011.
Jean Christophe Maillot, o director artístico do notável Ballet de Monte Carlo, pegou no icónico bailado de século dezanove "O Lago dos Cisnes" sobre a famosa partitura de Tchaikovsky, e transformou-o num altamente dramático, e até sinistro, objecto, com várias camadas de intuições psicológicas, desfiando o enredo original.
A estreia teve contornos festivos, não só pela presença da sua fã número um, a princesa carolina do Mónaco, como pela abundância decorativa da época, mas, sobretudo pela qualidade da bela companhia e da Orquestra Filarmónica de Monte Carlo, sob a direcção de Nicolas Brochot.

Maillot já tinha coreografado as suas próprias interpretações de alguns outros "clássicos" mas, agarrar o amado e tão representativo "Lago dos Cisnes" só podia revelar-se um enorme desafio, uma vez que apela a novas e relevantes interpretações, utilizando ferramentas mais contemporâneas. A obra original – como qualquer boa dança – é um produto dó seu próprio tempo e reflete claramente mecanismos sociais e percepções, tal como qualquer ulterior interpretação, como é o caso de "Lago".
Maillot trabalhou em colaboração com um laureado com o Prémio Goncourt, Jean Rouaud, no desenvolvimento de uma nova "história". Ambos rasparam do velho libretto a película de inocência e abandonaram as sonhadoras e quase abstractas secções tradicionais. Tais como os chamados "ballets blancs", danças que retratavam a estética da época e um desejo de reverencial pureza.
O centro da questão desviou-se do casal de jovens amantes para a malvada e sombria rainha. A magnífica diva, que dominou a nova dramaturgia e, seguramente, todo o espaço cénico, foi interpretado pela "prima ballerina" da companhia Bernice Coppieters, cuja presença dramática está ao nível dos seus potentes recursos técnicos. Debaixo do seu mau olhado, o bando de cisnes (originalmente atrás da amada Odette) começou a exibir penas cinzentas, simbolicamente, repudiando o pobre cisne.

Esforçadamente verificou-se o desejo de construir um detalhado perfil psicológico do frágil príncipe que ultrapassou a sua fase homossexual pelo amor de um cisne, se bem que tal não seria o objectivo básico do enredo. Porém, os imaginativos e sofisticados elementos decorativos, bem como a coreográfica invenção na linha neo-clássica, trouxeram uma certa realização à obra.
Maillot demonstra um notável sentido espacial ao manipular as cenas de conjunto e um olho "clínico" para certos detalhes como o trabalho de braços, sobretudo no trio constituído pela dominadora rainha e os seus dois ameaçadores súbditos. A obra resultou intensa e "O Lago dos Cisnes" nunca mais será o mesmo despois do tempestuoso "Lac".

Ora Brafman
cortesia da revista Dance Talk (Israel)
http://www.dancetalk.co.il

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Antonio Laginha

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