Tema de Capa — 22 Setembro 2010

Abertura com a ópera “Porgy e Bess”
A Bienal de Dança de Lyon, na sua XIV edição – a última sob a batuta e o imenso entusiasmo de Guy Darmet – abriu (inesperadamente) com uma ópera. Ou nem tanto!
É que a co-encenadora, Dominique Hervieu (com o coreógrafo José Montalvo) irá suceder a Darmet na Casa da Dança de Lyon e, por arrastamento, na direcção da próxima bienal, em 2012.
A peça escolhida, e acolhida no mais antigo teatro da cidade, a velha (e ultra moderna após remodelação) ópera, foi “Porgy e Bess” de 1935, numa criação de 2008. Um trabalho na senda de “Bom Dia Mr. Gershwin”, estreado na anterior bienal e que já se apresentou em Portugal, na Culturgest.
Desde logo, há que referir que a dupla Montalvo-Hervieu – actualmente à frente do teatro Chaillot, em Paris – teve o magnífico contributo de um notável naipe de cantores, quase todos negros ou o enredo não se passasse na carolina do Sul (USA) e encaixou faixas dançadas em tudo quando foram interstícios musicais que, entre árias, dão o “ambiente” à própria peça.
A fórmula, com imagens grandiosas projectadas atrás da acção, é a mesma que a dupla inventou há anos e que fez a delícias dos amantes da dança em todo o mundo em peças como “Paradis” e o “Jardim de Ito Ito”… que também passaram por Lisboa.
Se funciona bem numa encenação operática? Umas vezes sim e outras nem por isso! Quanto aos bailarinos, num registo essencialmente hip hop, também umas vezes ajudaram a prolongar no espaço a acção e outras vezes mais parecia que a enchiam em demasia o palco. Em muitas cenas de conjunto, o que sobrou em agitação cénica, faltou em atmosfera tipicamente americana.
A orquestra da Ópera de Lyon, dirigida por William Eddwins fez jus à atractiva música de George Gershwin e, em todas as récitas – como é hábito – o magnífico publico leonês não regateou aplausos ao brilhante conjunto de artistas.
Nijinsky e Maillot, uma dupla de sucesso
A primeira companhia de peso a apresentar-se na Casa da Dança, foi o Ballet de Monte Carlo (BM), sob a direcção do francês Jean-Christophe Maillot.
Sob inspiração do centenário da criação dos Ballets Russes, em 2009, a companhia monegasca de que fazem parte dois artistas portugueses – Bruno Roque e Vanessa Henriques – trouxe a Lyon a reprodução de “A Sagração da Primavera” de Nijinsky e, a complementar o programa, a primeira parte de uma peça de Maillot, “Altro Canto”.
A dançadíssima “Sagração” – que a nossa Companhia Nacional de Bailado também tem em reportório mas se “esqueceu” de dançar em 2009 – que na data da sua estreia em 1913 fez o maior escândalo da história do bailado, hoje é uma peça quase anódina. Porque se os londrinos Milicent Hodson e Keneth Archer conseguiram reproduzir a cenografia e a maioria dos passos da obra, o seu espírito e “alma” (por mais bem executada que seja) perderam-se definitivamente. Hoje vê-se suor em cena quando a excitação fica pelos bastidores. Um farrapo de história sem glóbulos vermelhos, com figurinos exóticos e uma proposta ritualística (raparigas virgens com ar de índias apaches dançando para pedir chuva acompanhadas por velhos e novos pastores barbudos das estepes eslavas) que nada nos diz 97 anos após a sua conturbada criação. Embora os bailarinos tivessem, de um modo eficaz, distribuído para a plateia a coreografia proposta, por vezes, a coisa atingiu contornos algo “aeróbicos”! Mas esse não é um defeito da companhia do Mónaco, que se apresentou disciplinada e tecnicamente segura, é mesmo um problema de reconstrução de uma obra de arte intemporal mas que não funciona ao nível da fotocópia… Seja qual for a companhia hoje esta dança exibe um ar muito bem comportado e certinho
Quanto a “Altro Canto”, uma proposta de inspiração religiosa – a escolha musical vai de Monteverdi a Marini, passando por Kapsberger – seria um excelente contraponto à obra de Nijinsky-Stravinsky se a coreografia fosse bem mais inspirada. Uma vez mais os artistas do BM apresentaram-se focados e com grande profissionalismo, defendendo um trabalho morno e sem grande apelo emocional.
Uma linha de velas acesas, com as suas trémulas chamas, dão o mote a um trabalho pautado pela música antiga e figurinos modernos. Assinale-se que são da autoria de Karl Lagerfeld e que estão longe de serem apelativos ou terem algo a ver com a dimensão espiritual que o coreógrafo pretende transmitir.
Dançado em pontas o coreógrafo, que se assume ateu, dentro da abstracção, procurou que cada artista imprimisse um certo sentimento místico aos passos dentro da relação masculino-feminino.
Terá sido esse permanente estado vibratório dos corpos – para além de um muito cuidado desenho luminoso –que arrebatou o público que esgotou repetidamente o auditório da Casa da Dança, que aplaudiu mais que generosamente os artistas dos BM.
Companhia de Hofesh Shechter
Começando pelo título, “Mãe Política” e pelos tampões para os ouvido fornecidos à entrada pelos assistentes de sala, nada na violenta peça de de Hofesh Shechter foi deixado ao acaso, ou surge de um modo ingénuo ou gratuito.
O coreógrafo israelita sedeado em Londres (que já se apresentou em Portugal) arquitectou esta sua primeira peça que abrange todo um programa com a separação da música do movimento e com os bailarinos a entrar e sair de cena de maneiras inesperadas dentro de uma densa bruma.
Peça de ambiente pesado – ou melhor dizendo, de pesadelo – sem discurso descritivo, parece situar-se entre o bélico e o folclórico. De uma intensidade brutal e com movimento quase sempre frenético, tenta criar uma atmosfera de “fim do mundo”. Obra avassaladora, para dez bailarinos e oito músicos (percussão e cordas) com um alto nível de testosterona. Os bailarinos, sobre o palco, parecem competir ao longo de uma hora com o “electro rock” das barulhentas guitarras eléctricas e baterias, colocadas em duas linhas em níveis superiores.
Com imagens tão duras quanto “eficazes”, “Mãe Política” começa com a simulação de um suicídio de um solitário guerreiro enterrando a respectiva espada no peito, num ambiente de forte tensão emocional. Depois os bailarinos aparecem e desaparecem em linhas e grupos a executar algo que se assemelha a danças israelitas tradicionais! As mesmas que o autor liga à repressão e à ditadura. Um desenho de luz altamente engenhoso e muito bem executado e uma entrega total dos artistas fazem a diferença num trabalho em que os decibéis – muito acima do normalmente tolerado – atacam os espectadores conseguindo manter Shechter os espectadores em suspenso.
Ou melhor, como nada é previsível no arco que a peça percorre, mais parece que durante o tempo em que a ela dura estivéssemos todos (alguns milhares de espectadores no Auditorium de Lyon) com a sensação de estar sentados com uma pistola apontada à cabeça.
Maguy Marin regressa com obra de fôlego
Após o anúncio, pela própria Magyu Marin, do seu afastamento voluntário de Centro Coreográfico Nacional de Rillieux-la-Pape (nos arredores de Lyon), a coreógrafa regressa à Bienal de Lyon com uma obra de fôlego: “Vivas”.
Como já é hábito, muito bem recebida pela crítica – geralmente mais aclamada pelos especialistas do que pelo público em geral – a peça que começa toda em delicadeza revela-se de uma intensidade, para não dizer, bruteza, notável. Dentro de uma espécie de armazém os intérpretes, sete homens e mulheres com um aspecto e roupas perfeitamente normais vão, um a um, saindo discretamente da plateia para segurar um ténue fio de nylon invisível. Tudo começa em doçura até que no final o espaço se transforma num caos sobre uma enorme mesa de banquetes (construída pelos performers) com os convivas a agredirem-se violentamente uns aos outros.
Tal como a coreógrafa refere no programa estamos em presença de “um mosaico de épocas, de presenças, de passagens e de anónimos sobre o espelho estilhaçado do palco”.
O trabalho de Marin, algo metafórico, de difícil desconstrução e sempre com alguns laivos de mistério, trata de temas do quotidiano, comezinhos ou de elevada nobreza, mas sempre vistos pelo óculo de uma coreógrafa interventiva e repetidamente provocadora.
De notar que uma das criadoras-intérpretes de “Salves” é a bailarina portuguesa Teresa Cunha que há muito anos faz parte da equipa criativa e pedagógica de Maguy Marin.

Desfile em Tons de Rosa
Se durante o mês de Setembro – que se estende até ao dia 3 de Outubro – Lyon é, seguramente, a capital mundial da dança, o ponto alto do certame (pelo menos a nível popular) não pode deixar de ser o grande Desfile. Este ano teve lugar no dia 12 de Setembro e, como é costume, entre as praças de Terreaux, atrás do espantoso edifício da câmara municipal, e de Bellecourt, o cartão de visita da bela cidade dos rios Ródano e Saône.
Este ano, e segundo dados da polícia lionesa, acorreram ao evento mais de 300.000 pessoas para assistir ao cortejo.

Um trabalho verdadeiramente comunitário, que Guy Darmet trouxe para Lyon, vagamente inspirado nos desfiles da escolas do Carnaval do Rio. Partindo dos bairros periféricos os 15 grupos vestidos de rosa – a côr eleita para celebrar “La Vie en Rose” da Bienal – mostraram como se pode envolver toda uma cidade que se apresenta orgulhosa do investimento, dedicação, disciplina, trabalho manual e dotes artísticos dos seus habitantes. É comovente a inteligência com que os grupos se organizam, com poucos meios mas muita vontade e ambição, desfilando alegremente na rua sob a batuta de coreógrafos profissionais e designers que colocam a sua mais expressiva imaginação ao serviço de um trabalho que gera satisfação e bem estar estampado nos rosto de cada um dos participantes. As danças, prenhes de humor e colorido, são, em geral, bastante simples e acessíveis, para agregar o maior número de participantes. Quase todos sem qualquer experiência artística. Para além do tão em voga hip hop, da dança contemporânea e das artes circenses, todos os estilos aparecem um pouco ao longo das três horas de desfile que desemboca numa enorme multidão. Este ano a dançar uma tarantela colectiva coreografada in loco para juntar os espectadores e artistas que desaguaram na Praça Bellecourt.
Para além da vertente puramente lúdica e visual, o cortejo exibe mensagens sociais, marchando alguns dos “carnavalescos” para defender causas, como o anti-racismo e a ajuda aos cidadãos deficientes.

Artistas Portuguesas na Bienal de 2010
Para além dos bailarinos já mencionados, Bruno Roque e Vanessa Henriques (intérpretes do Ballet de Monte Carlo); Teresa Cunha, co-criadora de “Fases” e artista residente da Companhia de Rillieux-la-pape, de Maguy Marin, a Bienal de Lyon contou este ano com a presença dos coreógrafos Tânia Carvalho – acompanhada por Luís Guerra – que se apresentou num auditório na cave da Ópera com a peça "Olhos Caídos" (nas fotos), Tiago Guedes – com uma proposta para o público juvenil – "Matrioska".

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Antonio Laginha

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