Ler — 20 Junho 2012
PRESUNÇÃO e ÁGUA BENTA…

Na opinião de alguns conhecedores – sérios e realistas – não há indivíduo (da Dança) em Portugal a quem o “Princípio de Peter” melhor se aplique do que a Jorge Salavisa que, aos 71 anos, resolveu publicar uma – pouco interessante – colecção de “histórias da sua vida”.

Salavisa entreteve-se a “escrevinhar memórias” (p. 313) e um ano depois de um documentário em que se  deitou muito dinheiro para o esgoto saiu “Dançar a Vida”, com amplo apoio institucional e grande “pompa e circunstância”- Claro que proporcionados por pessoas que o próprio sempre protegeu e acarinhou, e que, como bem se sabe, estão muito bem encostadas ao poder e dele sempre viveram e desfrutaram.

Se a arte de Terpsícore não fosse tão vulnerável ao oportunismo e à mediocridade, sobretudo num país em que a massa crítica é reduzidíssima, e um bom padrinho, cartão de partido ou a filiação na Maçonaria ou Opus Dei operam milagres, as figuras mais nefastas da nossa Dança nunca ascenderiam à cabeça de conservatórios, de companhias oficiais, de direcções-gerais, de secretarias de estado e até de ministérios. Mas neste “Portugal dos pequeninos” de que Salavisa é um actor de primeira linha e parece ter usado e abusado, mas nunca gostado (quem bem o conhece sabe que a sua maior ambição era ser súbdito da rainha de Inglaterra), até o título desse mal dizente livro foi roubado – como já tinha sido o do infeliz filme autobiográfico com que Marco Martins brindou Salavisa – A biografia de Isadora Duncan, a uma obra de Roger Garaudy e a uma expressiva exposição apresentada no Beaubourg parisiense.

Depois de um exercício de imagens que espelham a mais pura das vaidades contaminado com a vacuidade, sobranceria e superficialidade que são peculiares, numa película sem qualquer interesse para a História da Dança em Portugal – não aparece um único artista português a dançar, para além do próprio, que mostra ser um bailarino pouco mais que mediano -, o antigo director do Ballet Gulbenkian (BG) volta ao “ataque” depois do filme, com uns escritos íntimos, em que predomina o mais puro delírio (“regressara virtuoso, pujante e disposto a novos desafios” – p. 301). Só alguém que já vê a realidade através de uns olhos muito mirrados é que escreve um chorrilho de disparates como se tivesse acabado de ganhar uma medalha de ouro nos Jogos Olimpicos!

Apesar da revista “Time Out” ter afirmado, antes do lançamento da biografia, que “não é um livro triste”, tão pouco transborda quaisquer laivos de alegria já, que ao longo de 315 páginas, a tónica dominante parece ser o enviesamento, o disfarce e o azedume. Que está eivado de maldade, pode ser testemunhado por todos a quem Salavisa, inusitadamente, manda recados e tece afirmações perfeitamente abusivas e caluniosas, demonstrando cabalmente o tipo de pessoa que é e sempre foi…

Frequentemente mostra-se apostado em idolatrar artistas que, é óbvio que nunca lhe foram próximos mas, sobretudo, em atirar setas venenosas, em todas as direcções. Justamente a tantos que o ajudaram e, quase sempre, nada ou, apenas, pediram em troca…trabalho. É a gente do calibre de  Salavisa que é perigoso dar poder, pois o descontrole pode ir muito para além do razoável. Que o diga o Serviço de Música da Fundação Gulbenkian que ciclicamente teve que interceder por bailarinos para que mais injustiças e barbaridades se não cometessem!

Talvez porque o seu apregoado “percurso fulgurante” em palco (em parte em espectáculos de cabaret) levanta grandes interrogações, o autor precisa de recorrer a capítulos inteiros sobre personagens (essas, sim, mundialmente, famosas e ilustres) da dança como Rudolfo Nureyev, Margot Fonteyn, Zizi Jeanmaire e Roland Petit.

Trata-se, pois, de um livro engendrado por alguém que visivelmente não se sente bem na sua pele – na verdade só pode ser a frustração a falar mais alto – ou por uma incontida raiva de nunca, verdadeiramente, ter criado nada na vida… nem uma pequena dança. Por quem se quer fazer passar publicamente por aquilo que nunca foi – uma figura minimamente carismática, um indivíduo com muitos amigos e um ser humano cujo trabalho mereça ser respeitado – estão aquele que não mentem nem vendem a alma ao diabo.

“Dançar a Vida” não poderia começar melhor, com uma tirada digna de uma verdadeira “drama queen” – a encenação de dois suicídios (Prólogo). Nos três capítulos seguintes Salavisa fala da família e da sociedade da sua época, através da “tia de Cascais africanista” que nunca morreu em si. Num tom “blasé” e falsamente intelectual de quem, na verdade, jamais ultrapassou a porta de um qualquer estabelecimento de ensino superior e que (para se justificar) vem com essas tretas da “escola da vida” !

Está-se mesmo a ver a impressionante modéstia de alguém que ousa afirmar: “muito antes dos opinion makers deste país, eu preconizara já o advento da nova dança em Portugal” (p. 209). E os resultados do trabalho deste “visionário” foram o que foram e estão bem à vista: muitas mãos cheias de oportunidades, muito fogo de artifício e muita asneira que contribuiu, em muito, para que a dança portuguesa tenha entrado por caminhos que não abonam os que tiverem cargos directivos importantes e quase a mataram!

A obra de Salavisa, porém, encerra um insondável mistério para quem conhece pessoalmente o autor pois sabe-se que não é capaz de falar em público – não só confessa em “Dançar a Vida” esse “terror” como o concurso televisivo “Dança Café” em que participou mostrou claramente essa desastrosa tentativa – e nunca foi capaz de redigir nem uma simples tabela de serviço. Exactamente por isso foi com enorme espanto que no lançamento da obra na Feira do Livro teve a audácia de se apresentar a dar autógrafos ao lado de um escritor da estatura de António Lobo Antunes. Mas uma coisa é velha como o Mundo, a audácia dos pobres de espírito não parece ter limites!  Como o próprio confessa no livro apenas ter escrito um único artigo na vida antes de se tornar… escritor, a única conclusão plausível é óbvia e só uma. E, claro, a resposta aparece na página 315, naquela folha “mágica” dedicada aos agradecimentos.

Outra irrelevância que a “Time Out” traz à colação é o “coming out” de Salavisa, cirurgicamente planeado neste livro. Todavia, tanto quanto se pode imaginar numa Lisboa que se espreguiça da Praça de Espanha ao Chiado, só a D. Rosa (a cantora cega da Rua do Carmo), os judeus ortodoxos que rezam no Muro da Lamentações e o faroleiro de Ushuaia, é que ainda não estavam inteirados de tal facto!

Com essa revelação, o tiro “saiu-lhe pela culatra” pois, como facilmente se  imagina, a sua condição influenciou muitas das suas decisões artísticas. Nada mais imoral e avesso a um artista e gestor que, naturalmente, deveria ter pautado a sua actividade por outros princípios.

Uma das maiores incongruências de Salavisa  em “Dançar a Vida” é passar uma quantidade substancial de capítulos (quase dez) a lamentar amargamente como teve que lidar com situações laborais muito difíceis durante os tempos em que andou a dançar por terras (e terreolas) de Inglaterra  – porque não fazia, exactamente, parte do elenco do Royal Ballet – e, depois, muitos outros a criticar (violentamente) os artistas portugueses que lhe proporcionaram trabalho numa Fundação com “cortinados de veludo” e “punhos de  renda”  – além de um altíssimo estatuto social e uma reforma dourada – por aspirarem a condições de trabalho decentes, numa época em que os direitos dos trabalhadores eram uma conquista premente.

Mas muito grave mesmo são as pseudo-graças (que pretende brejeiras mas não passam de pura peçonha) com que Salavisa aproveita para brindar artistas honestos e trabalhadores – e não rapazinhos musculados que levou para a Gulbenkian – designadamente um brasileiro que esteve muitos anos radicado em Portugal. Resta acrescentar que Expedito Saraiva, cujo nome cobardemente Salavisa se escusa a escrever, era uma pessoa querida e afável, com bons princípios e, que depois de sumariamente despedido da FCG, foi trabalhar para o Brasil. Desgraçadamente morreria, uns tempos depois, em pleno palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro de aneurisma cerebral fulminante, deixando muitos dos seus ex-colegas no BG destroçados. Mas como é que alguém se permite vir falar negativamente na sua auto-biografia de mortos que se não podem defender? Só quem nunca teve qualquer peso numa coisa que nunca teve e continua, como se verifica, a não ter – consciência.

Vem a talhe de foice referir que o poder discriminatório que Salavisa tinha no BG  – como já foi atrás referido e algumas  vezes apenas cerceado pela sensatez e humanidade demonstradas pelos seus superiores no  Serviço de  Música – levaram alguns bailarinos ao desespero por lhes ser negado trabalho muitas vezes por razões puramente pessoais. Que o diga Carlos Carvalho que, hoje emigrado nos EUA, muito tem que contar sobre a maneira como a sua carreira foi, pura e simplesmente, aniquilada. E, para quem tem boa memória, muitas outras coisas haveria a dizer de quem frequentemente colocou interesses pessoais à frente dos da dança portuguesa e, quando se tratou de proteger os que gostava ou prejudicar os que não queria gostar (como se o BG ou a CNB fossem coutada suas), não olhou a meios! Até aos mais sinuosos.

Na verdade nunca foi revelada a razão pela qual Salavisa foi convidado a entrar na Gulbenkian e, muito menos, por, após consulta aos artistas do BG eles lhe terem dado nota negativa, a Administração da Fundação o ter promovido de mestre de bailado a director, para surpresa de todos. E, no que toca às suas duas passagens pela CNB, também os bailarinos e técnicos sabem que mente descaradamente ao escrever ter sido recebido “com entusiasmo e aplausos gerais” (p.304) numa instituição em que cometeu verdadeiras tolices, para não dizer pior. Designadamente apoiar dois ladrões – da sua reduzida lista de  amigos – condenados pelo Tribunal de Contas a devolver “peanuts” de muitos milhões de Euros que desbarataram do erário público (ver relatório online sobre a CNB no site do Tribunal de Contas – ano de 2005).

E, finalmente, uma observação para Rui Esteves, que (apenas !) “decifrou e reviu o manuscrito” (p. 315) como Salavisa pretende fazer crer, deixando passar erros factuais e alguns de escrita. É que ao fim de mais de 50 anos de carreira Salavisa ainda não sabe a diferença entre um dueto e um “pas–de-deux”!

Pena foi que, nas suas despedidas, o novel “escritor” – pelas razões apontadas era bom que fosse a primeira e última obra saída daquela cabeça e da dos seus queridíssimos amigos – não tenha conseguido evitar algo muito feio: morder as mãos de quem tanto lhe deu de comer. Designadamente ao mencionar a antiga ministra Gabriela Canavilhas, de quem afirma (p. 309) “transformara-se, por artes mágicas, numa política pura e dura; habituara-se rapidamente àquilo que é típico da classe”.

Verdadeiramente lamentável foi a antiga amiga e governante não ter dado ouvidos ao imenso “coro” de protestos, vindo de todo o País, com que a sua nomeação para o Opart foi acompanhada. E tenha ignorado a catadupa de enxovalhos com que, por exemplo, os leitores do jornal “Público”, na altura, o brindaram, sem dó nem piedade. Mas com muita verdade e acutilância.

Enfim, a velha combinação inglesa de “witch” e “bitch” raramente dá certo e talvez por isso, no epílogo do livro, Jorge Salavisa tente convencer o leitor de uma realidade perfeitamente apócrifa ao afirmar num tom melodramático “Poderia ter sido o fiel e dedicado companheiro para a vida de um só indivíduo. Todavia, a paixão pela minha carreira, a natureza do meu trabalho e as circunstâncias da minha vida fizeram de mim aquilo que sou hoje: um homem só.” (p. 311).

Fora da ficção é, pois, no clarividente provérbio português “se em boa cama fizeres nela te deitarás” que o futuro do antigo bailarino, professor, director de companhia e de teatro reside.

Até porque a resposta está logo patente nas suas confissões iniciais “das relações que tive (…) esta última foi a mais agitada, uma relação que se degradou lenta e penosamente ao longo dos anos e a que eu, estupidamente, pareci não ter coragem para pôr um ponto final. Para tornar o cenário ainda mais negro, havia drogas envolvidas, algo que sempre me aterrorizou” (p.16) “consegui esquecer uma relação que me atormentava os dias e afastara de um mundo real” (p. 18).

A palavra “estupidamente” (tão certeiramente escolhida pelo autor) parece ser, em muitas das situações assinaladas, a única realidade num livro em que quase tudo se poderia adjectivar pelo mesma bitola.

E com citações do épico “E Tudo o Vento Levou”, Salavisa, um dos reformados milionários portugueses, termina a sua biografia num tom tão dramático como anedótico.

Em resumo, a dignidade mais básica e a sensatez mais elementar dizem-nos que há coisas que nunca deviam sair das gavetas da memória e, muito menos, das canetas dos amigos.

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Antonio Laginha

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