Editorial — 01 Outubro 2011

A história das instituições que tutelam a cultura em Portugal desde o 25 de Abril (designadamente uma secretaria de estado a que, posteriormente, se acrescentou um ministério que, no meio de alguma polémica, recentemente foi extinto) está, irremediavelmente, inscrita no anedotário nacional.
É fácil de ver que dava um filme fantástico – em jeito de comédia “felliniana” – com Herman José no protagonista a imitar ministros e ministras e secretários e secretárias de estado a deambular pelos espaçosos salões e corredores do palácio da Ajuda… Um sucesso de bilheteira garantido e sem necessitar de qualquer financiamento do IAC (Instituto do Cinema e do Audiovisual)!

Costuma-se dizer que “seria triste se não fosse patético”, ao que, no caso, se deve acrescentar “irracional, perigoso e despesista”…
A maioria dos ministros e secretários de estado que passaram pela Avenida da República e Ajuda demonstraram tanta ignorância, incompetência e arrogância, fomentaram ou permitiram o compadrio e a corrupção, que, diga-se em abono da verdade, tem sido difícil de suportar e, sobretudo, continuar a manter alguma presença de espírito nos artistas e trabalhadores das artes. Quase todos mandaram muito mal e, hoje, toda a gente – leia-se artistas e público contribuinte – faz por esquecer os seus tempos de “poleiro”.
A história da Secretaria de Estado da Cultura (SEC) está cheia de secretários jacobinos que mandavam nos ministros ou de gente que coabita numa paz podre, deitando para as costas de outrem o que não sabe ou quer fazer. Mas todos têm-se esforçado por proteger os amigos e, naturalmente, os interesses próprios. Que haja notícia, nenhum deles ficou desempregado mesmo depois de ter feito as maiores barbaridades e tomado medidas que prejudicaram gravemente as artes, os artistas e o erário público.
Para que a memória não seja curta e a consciência não seja leve, lembremos que também em termos de Directores-Gerais das Artes a coisa não andou muito melhor. E no que toca aos últimos directores (e staff político) metido a martelo na Companhia Nacional de Bailado, seria difícil escolher pior!
Na política da Cultura tivemos um secretário que era especialista em gafes algo insultuosas, um outro que mais parecia autista, um que exibiu as suas ideias com o espavento de um pavão, outro que tudo fez para se vingar dos artistas e agentes de que não gostava antes de ser nomeado e tantos outros e outras que é melhor nem lembrar os nomes. Também houve uma que só soube que ia cair na Cultura e não tomava posse para o Exército na manhã da sua nomeação!
Mas, sem excepção, todos meteram amigos e correligionários sem preparação em cargos de relevância, o que, naturalmente, prejudicou o País a todos os níveis. Por fim, mas não menos importante, ainda se diz que alguém entrou para dirigir o Ministério da Cultura (MC) devido ao equívoco de uma secretária, que ao fazer o convite, por indicação do Sr. Engenheiro, se enganou no nome deixando a espumar de ódio um dos maiores escroques e oportunistas que se movimenta entre ministérios, fundações, instituições de natureza política e sociedades (mais ou menos) secretas, com uma ambição devoradora e a maliciosa discrição de uma cascavel.
Em Portugal, há muito que se cometem as maiores injustiças e se tomam as decisões mais enviesadas, tudo em prol de uma “cultura” de excelência, na crista da onda, protagonizada pelas sucessivas negociatas de gente com cartões de partido político no bolso!
Como não se pode “fazer ópera por dez tostões”, ao fim de anos de regabofe, agora com esta crise danada, na prática, está quase tudo a entrar pelo cano. Embora, desde que o Mundo é Mundo, haja sempre quem se safe, e bem! É que para alguns há sempre dinheiro… nem que seja a brotar das pedras.
Veja-se, a título de exemplo, o caso da Dança.
A produção nacional é cada vez mais irregular, medíocre e pouco criativa tendendo a desaparecer do mapa – depois do Ballet Gulbenkian têm fechado algumas das mais emblemáticas companhias portuguesas, a CDC, por exemplo e já se fala no grupo de Olga Roriz a tomar o mesmo caminho – substituída por importações, nem sempre de qualidade irrepreensível, que pouco ou nada deixam e nos levam as poucas “divisas” que ainda restam…

Caso exemplar é o da Companhia Nacional de Bailado (CNB) em que direcções coxas, ignorantes e irresponsáveis, após a saída de Armando Jorge, muito têm feito para afundar a companhia. Chegou-se a um ponto em que no elenco um terço dos bailarinos dança e os outros dois recebem catorze meses de ordenado para fingir que trabalham. No staff administrativo muitos dos cargos são em duplicado e desnecessários! E, qual cereja em cima do bolo, até já houve casos (muito badalados) de má gestão, nepotismo e corrupção – o relatório do Tribunal de Contas (TC) está acessível na Internet – que chegou a tribunal. Para surpresa de muitos, os visados julgados e condenados, limitaram-se a devolver uns trocos dos 3,6 milhões de euros que desbarataram, só porque houve uma pessoa persistente e um tribunal que exerceu alguma pressão. Mas esse “detalhe” foi uma gota de perfume perdida atrás da orelha, de um frasco que tem adoçado os duetos entre o MC e a CNB.
A mudança de nome do famigerado OPART para ACE (Agrupamento Complementar de Empresas) faz parte de outra armadilha pela qual a CNB já passou duas vezes!
Se alguém da entourage de Gabriela Canavilhas tivesse os conhecimentos e a memória para a informar que em 1983 o primeiro “OPART” – que juntou a CNB com o Teatro de S. Carlos – trouxe enorme desprestígio para ambas as instituições e mais despesas sem quaisquer vantagens, não só tinha acabado de vez com essa pérfida “invenção” do ex-SEC, Mário Vieira de Carvalho, como repensado toda a política de subsídios à cultura e às instituições culturais tuteladas pelo Estado. Porém, o que se viu foi, em tudo, no sentido contrário, ao credibilizar e tentar expandir o que já era péssimo (OPART) e colocar gente sem perfil nem preparação em lugares de destaque, como foi o caso de João Aidos à frente da Direcção Geral das Artes.
Outro caso paradigmático do consulado da ex-ministra que veio dos Açores foi a nomeação de Jorge Salavisa que lhe bateria com a porta na cara na esperança de melhor tacho! Nada que espante quem conhece a enviesada trajectória do visado. E depois disso veio o Sr. Engenheiro, corroborado pela melada ministra, emendar a mão e anunciar um “bodo ao pobres”: mais umas verbas para a DGA distribuir, com uns critérios obtusos aplicados por uns júris sempre escolhidos “a dedo”, pelos costumeiros subsídio-dependentes do regime. Basta ver a lista dos premiados na Internet e analisar o trabalho, que (não) produzem, para se concluir da ineficácia de tais apoios.
Saídos de cena, o sr. engenheiro – em minúsculas para fazer jus ao muito contestado (des)acordo ortográfico – que se meteu na Filosofia a troco de uma alegada cunha na Sorbonne e a pianista com “sorriso de Mona Lisa”, que se arrumou na Assembleia da República, o MC deu um trambolhão fatal e desapareceu com o “barítono” Pedro Passos Coelho!
Na verdade, mais valeria um Secretário de Estado que fizesse alguma coisa de útil que um ministro – e respectivo “ajudante” – a fingir que puxam a carroça.
Porém, o eterno problema da gestão das instituições artísticas estatais está em cima da mesa de Francisco José Viegas (o actual e plenipoteciário SEC) que, de uma penada, parece ter acabado com as esperanças dos que mais trabalham e mais necessitam de algum apoio sério e consistente.

Em resumo: Toda esta triste situação culminou em mais mudanças, que ninguém sabe no que vão dar, no discutível ACE. No futuro ver-se-á se é a palavra aborto que se devia aplicar – com mais propriedade – a esta enorme estrutura que fará a “gestão integrada” da Cinemateca, Companhia Nacional de Bailado e dos teatros nacionais São Carlos (Lisboa), São João (Porto) e D. Maria II (Lisboa) passando os cinco a ser entidades públicas empresariais e, agora, com a obrigatoriedade de prestação de contas sobre a programação e resultados de bilheteira. Se bem que a CNB e o Teatro Camões há anos que (alegadamente) aldrabam os números dos bilhetes transacionados…
Se a coisa não passar de mais uma cambalhota ou malabarismo na gestão dos dinheiros públicos, a conclusão que se pode tirar de imediato é que a única coisa em que o actual governo PSD/CDS parece estar apostado é, mesmo, na mudança das moscas!
Cortes já se sabe que vai haver, veremos é se se começa por onde se deve e se olham de frente os problemas! Sobretudo na despesista Companhia Nacional de Bailado (demitindo, de imediato, a sua incapaz directora e dispensando os que passam anos sem dançar, para além de aligeirar um desnecessário e pesado staff técnico) e na irresponsável Direcção Geral das Artes, que continua a distribuir verbas saídas dos nossos impostos, para a Dança… por gente que se recusa a Dançar!

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Antonio Laginha

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