Editorial — 13 Fevereiro 2011

A história das instituições que tutelam a cultura em Portugal desde o 25 de Abril (designadamente uma secretaria de estado a que, posteriormente, se acrescentou um ministério) está, irremediavelmente, inscrita no anedotário nacional. Costuma-se dizer que “era triste se não fosse patético”, ao que, no caso, se deve acrescentar “perigoso, irracional e despesista”.
A maioria dos ministros e secretários de estado que passaram pela Ajuda demonstraram tanta ignorância, incompetência e arrogância que, diga-se em abono da verdade, tem sido difícil de suportar e continuar a manter alguma presença de espírito. Quase todos mandaram muito mal e, hoje, toda a gente – leia-se artistas e público contribuinte – faz por esquecer os seus tempos de poleiro.
Houve um que era especialista em gafes insultuosas para os artistas, outro que mais parecia autista, um que exibiu as suas ideias com o espavento de um pavão, outro que tudo fez para se vingar dos artistas e agentes de que não gostava e tantos outros e outras que é melhor nem lembrar. Mas, sem excepção, todos meteram amigos e correligionários sem preparação em cargos de relevância, o que, naturalmente, prejudicou o país a todos os níveis. Por fim, mas não menos importante, ainda se diz que alguém entrou para dirigir o Ministério da Cultura (MC) devido ao equívoco de uma secretária, que ao fazer o convite, por indicação do Sr. Engenheiro, se enganou no nome deixando a espumar de ódio um dos maiores escroques e oportunistas que se movimenta entre ministérios, fundações, instituições de natureza política e sociedades (mais ou menos) secretas, com uma ambição devoradora e a maliciosa discrição de uma cascavel.
Em Portugal, há muito que se comentem as maiores injustiças e se tomam as decisões mais enviesadas, tudo em prol de uma “cultura” de excelência, na crista da onda, protagonizada pelas negociatas de… Vossas Excelências!
Como não se pode “fazer ópera por dez tostões”, na prática, está quase tudo a entrar pelo cano.
Veja-se o caso da dança. A produção nacional é cada vez mais irregular, medíocre e pouco criativa tendendo a desaparecer do mapa – o mês passado fechou uma das mais emblemáticas companhias portuguesas, a CDC – substituída por importações, nem sempre de qualidade irrepreensível, que pouco ou nada deixam e nos levam as “divisas” que ainda restam.
Por outro lado, a história da Secretaria de Estado da Cultura (SEC) está cheia de secretários jacobinos que mandam nos ministros e de gente que coabita numa paz podre, deitando para as costas de outrem o que não sabe ou quer fazer. Mas todos têm se esforçado por proteger os amigos e, naturalmente, os interesses próprios. Que haja notícia, nenhum deles ficou desempregado mesmo depois de ter feito as maiores barbaridades e tomado medidas que prejudicaram gravemente as artes, os artistas e o próprio erário público.

Caso exemplar é a Companhia Nacional de Bailado (CNB) em que direcções coxas, marrecas e dementes, após a saída de Armando Jorge, têm afundado a companhia – pois do elenco artístico um terço dança e os outros dois recebem ordenado e no staff administrativo a maioria dos cargos já são em duplicado ou triplicado – e até já houve casos muito badalados de corrupção. Para surpresa de muitos, os visados condenados em tribunal, limitaram-se a devolver uns trocos dos milhões que desbarataram, só porque houve um Tribunal de Contas que exerceu alguma pressão. Mas esse “detalhe” foi a gota perdida atrás da orelha, do frasco de perfume que tem adoçado os duetos entre o MC e a CNB.
A última notícia vinda a público, hilariante para não dizer patética, do MC é, mesmo, a mudança de nome do famigerado OPART para ACE (Agrupamento Complementar de Empresas).
Se alguém da entourage de Gabriela Canavilhas tivesse os conhecimentos e a memória para a informar que em 1983 o primeiro “OPART” – que juntou a CNB com o Teatro de S. Carlos – trouxe enorme desprestígio para ambas as instituições e mais despesas sem quaisquer vantagens, não só tinha acabado de vez com essa pérfida “invenção” do ex-sec, Mário Vieira de Carvalho, como repensado toda a política de subsídios à cultura e às instituições culturais tuteladas pelo Estado. Porém, o que se viu foi, em tudo, no sentido contrário, ao credibilizar e tentar expandir o que já era péssimo (OPART) e colocar gente sem perfil nem preparação – como João Aidos à frente da Direcção Geral das Artes – em lugares de destaque.
Outro caso paradigmático do consulado da ministra que veio dos Açores foi a nomeação de Jorge Salavisa que, já perfilado para outro tacho (sim tacho, pois não tem qualquer competência para tarefas exigentes em matéria de gestão) e à espera de um outro qualquer governo, bateu com a porta na cara de quem ainda parece não ter percebido que tem vindo a apostar nos “cavalos” errados. Nada que espante quem conhece a trajectória do visado – que nunca entrou em qualquer concurso para director – e até sabe que as suas reformas (da Gulbenkian e do Centro Nacional de Pensões) são, alegadamente, bem mais gordas que um bom ordenado na função pública.
E, depois disso, qual cereja em cima do bolo, veio o Sr. Engenheiro, corroborado pela melada ministra, emendar a mão e anunciar um bodo ao pobres, já depois do Natal. Mais umas verbas para a DGA distribuir, com uns critérios obtusos aplicados por uns júris sempre escolhidos “a dedo”, pelos costumeiros subsídio-dependentes do regime.
Em resumo: com esta triste situação e o parto prematuro do ACE – aborto aplicar-se-ia com mais propriedade -, a única coisa em que o MC parece estar apostado é, mesmo, na mudança das moscas!

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Antonio Laginha

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