Editorial — 26 Julho 2010

A Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, com o sorriso que anteriormente pertenceu no governo a Teresa Gouveia, afirmou “urbi et orbi” estar “satisfeita com o pedido de demissão do Director-Geral das Artes”, Jorge Barreto Xavier.
Tendo em conta a sua actividade (e a dos seus antecessores) podendo, basicamente, considerar-se deplorável, ninguém, no seu perfeito juízo, terá ficado com alguma pena deste abandono de um barco que, desde sempre, meteu água por todos os lados. A não ser as habituais “viúvas” que, nestas situações, sempre choram lágrimas mais secas que as dos crocodilos, pensando nas benesses e vantagens que, eventualmente, poderão vir a perder. O Ministério da Cultura (MC) informou em Julho passado a comunicação social que aceitou "com alegria" a demissão de Jorge Barreto Xavier, antigo vereador da Câmara Municipal de Oeiras de Isaltino de Morais (PSD) – convidado para o cargo pelo seu amigo ministro José António Pinto Ribeiro (PS).
Hábil em cambalhotas políticas, muitos acham que nem devia ter entrado na DGA e, depois de ter ajudado a engordar ainda mais o sinistro "polvo" em que a direcção-geral se transformou, o seu afastamento parece que só pecou por tardio!
Mas o mais curioso – e inaceitável num estado de direito – de toda esta cena é que o MC desastradamente esperou que J. B. Xavier saísse, pelo próprio pé, para, depois, dizer mal dele. Com amigos assim, lá diz o velho ditado, quem é que precisa de inimigos?
Porém, para o referido cargo o (finalmente) expedito MC anunciou que já tinha uma pessoa na calha. E dias depois saiu mais um coelho da cartola muito "fashion" da Senhora Ministra, um director-maravilha de um teatro de província, engenheiro cheio de talentos segundo a sua biografia oficial, que dá pelo nome de João Aidos. Claro que jornais e revistas – certamente seduzidos pelo gabinete de imprensa do MC – logo se apressaram a mostrar a bondade de tal decisão atirando para o ar um curriculum que, aos verdadeiros artistas (dignos desse nome e com trabalho feito e cabeça para pensar) muito pouco ou nada diz! Possivelmente mais um burocrata entre burocratas… que, no Algarve, deixou poucas saudades. E o mesmo é também válido para bibliotecária Graça Cunha – outro caso de estudo no universo da programação – que veio do Teatro das Figuras, para a DGA. Em Faro e Olhão sempre teve muita graça a cunha.Ninguém pode perceber – a não ser políticos e lóbistas – como é que no Ministério da Cultura se nomeiam ostensiva e regularmente para cargos que requerem "know how", pessoas que nunca deixaram escrita uma única linha ou evidenciaram publicamente alguma, por mais pálida que fosse, uma ideia sobre as delicadas matérias que vão gerir! Veremos, nos próximos tempos, o que irá acontecer…
Está para vir o primeiro que tenha cabeça para entender a realidade da dança portuguesa no lugar e perceba, por exemplo, que metade da população portuguesa – que não tem a cesso à Internet – está irremediavelmente afastada dos concursos para quaisquer subsídios; que, para se ter uma ideia do disparate, seguramente nenhum dos ministros da cultura consegue vencer tamanha burocracia para preencher os pesadelos em que os formulários se transformaram – para isso criaram-se empresas que, actualmente, o fazem a troco de dinheiro; que os jurados se permitem, arrogantemente, insultar artistas com decisões vergonhosas e que os mesmos sejam responsabilizados por elas e sancionados; que, metendo realidades completamente díspares a concurso num mesmo saco, se dá aos jurados um poder discricionário, permitindo premiar os amigos e conhecidos e, desonestamente, conseguir justificar decisões muito duvidosas; que, por fim, alguém comece a fiscalizar decentemente os dinheiros públicos deitados à rua com projectos medíocres e inconsequentes que muita gente tem denunciado publicamente para acabar de vez com essa praga que é a subsídio-dependência.
Pacheco Pereira falou em Miguel Bonneville e, em resposta, António Pinto Ribeiro, conhecendo “de ginjeira” Madalena Vitorino, João Fiadeiro, Filipa Francisco, Miguel Pereira e muitos outros, não foi capaz (acho que não se atreveu) a nomear um único artista contemporâneo da dança portuguesa “a criar obras fantásticas”!
Por tudo isto é pena que nenhum Ministro da Cultura tenha posto os olhos no trabalho do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (e na Fundação para a Ciência e Tecnologia que assegura o financiamento do sistema científico e tecnológico português através da organização de um variado conjunto de exigentes concursos públicos) e perceba como é que se fiscaliza em Portugal os projectos subsidiados pelo Estado. Com comissões formadas exclusivamente por estrangeiros profissionais e competentes e que não se deixam corromper ou aliciar pelos amigos e conhecidos e pelos diversos lóbis da nossa praça. Mesmo assim ainda se podem financiar alguns "mais amigos que outros", mas nunca a total indulgência, incompetência, oportunismo e a chica-espertice como se passa na nossa Dança que nunca esteve tão politizada nem à mercê de interesses que nada têm a ver com a Arte e a Cultura!

Crónica de um desastre anunciado na CNB

Deixando a DGA e rumando à Companhia Nacional de Bailado (CNB), cuja última direcção foi o que se viu, diz-se que Jorge Salavisa não percebe nada de gestão e muito menos de ópera – não possui qualquer formação académica nessas áreas e nos seus anos de Ballet Gulbenkian nunca teve que se preocupar com dores de cabeça, pois para isso havia o Serviço de Música – mas, logo após a sua contestada nomeação para presidente do OPART, terá começado logo a trabalhar nas próximas temporadas da CNB! Coisa que não espanta pois já estivera no cargo de director da CNB e, ultimamente, no S. Luiz – demonstrando cabalmente o seu carácter – afirmava categoricamente não programar dança e depois convidava Pina Bausch e todos os seus amigos portugueses.
O que espanta é que o Ministério da Cultura se tenha esquecido das suas tropelias do passado na CNB, designadamente a (primeira) desastrada nomeação de Luisa Taveira e uma contestada gestão que incluiu, entre outros pecados, um pesada indemnização paga ao Joyce Theatre (de Nova Iorque) por incumprimento contratual.
No Teatro Camões e na Vítor Cordon (sede da CNB), a Ministra da Cultura nem precisou de rejubilar com pedidos de demissão pois os contratos da direcção acabam em Setembro!
Atacado pelo seu habitual autoritarismo e poder discricionário, Salavisa resolveu propor à Ministra Canavilhas e impor aos bailarinos da CNB – que belo presente de fim de temporada para quem já está cansado de suar – o nome de Luisa Taveira para substituir um delirante Vasco Wellenkamp que, ultimamente, andou a fazer audições para contratar bailarinos para os seus futuros bailados… sem imaginar que, uma vez mais, seria chutado por um Salavisa que, no passado, alegadamente já o “impedira” de ter sido director do Ballet Gulbenkian, trazendo uma estrangeira para o seu lugar. Wellenkamp ainda tentou sair "airoso" de mais esta humilhação afirmando à imprensa que deixou o cargo de "livre vontade". E no Pai Natal? Ainda há quem acredite? O inusitado regresso, a partir de Outubro, a um passado pouco edificante (para Salavisa e Taveira) demonstra o impensável.
Na sua passagem pela direcção da CNB, Salavisa demonstrou muito pouco sentido patriótico e levantou muitas dúvidas quanto à suas opções estéticas e métodos de trabalho. Já Taveira, antiga bailarina da companhia, nomeada por ele para lhe suceder (e que esteve apenas uns escassos seis meses na direcção), mostrou tanta falta de conhecimentos e de tacto, que em pouquíssimo tempo conseguiu pôr os seus ex-colegas contra ela. De seguida foi empandeirada pelo próprio Salavisa – até encontrar um lugar lugarzinho de programadora no CCB para fazer algo para que não tinha qualquer apetência nem formação – para ele meter no lugar um holandês "sem jeito nem trambelho" que se juntou à galeria dos cromos estrangeiros que chuparam a CNB. E, para compor ainda mais o ramalhete do caos e da total falta de senso, diz-se que, uns anos depois, Salavisa ainda conseguiu encaixar na direcção da CNB a sua ex-patroa no Conservatório, Ana Caldas. Que, vergonha das vergonhas, saiu pelo seu próprio pé condenada em tribunal (juntamente com Carlos Vargas, outro protegido de Salavisa, que também teve que devolver dinheiro aos cofres do estado) pelo desaparecimento de vários milhões de Euros – ver relatório do Tribunal de Contas referente a 2004, que se encontra on-line).
Só por esta pequena “resenha histórica”, digna de um verdadeiro conto italiano, se poderá ver o belo futuro que a CNB tem à sua frente com Jorge Salavisa no OPART e Luisa Taveira na CNB!
Se tudo já andava mal…
 

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Antonio Laginha

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