Editorial — 14 Maio 2010

Quem teve a oportunidade de assistir no centro de Lisboa , numa mesma semana, à já esperada (e assustadora) manifestação dos benfiquistas e – a uma mais pacífica – dos católicos para, nas mesmas avenidas, ver passar o papa, percebeu perfeitamente que o nosso país ainda vive embalado, ou enganado, com os dois efes de Salazar! Ironicamente, salva-se o fado, um bem cultural em vias de ser considerado património tangível da Humanidade.Quanto a outros aspectos da Cultura em jogo na nossa sociedade, vale a pena subir ao mais alto nível e reflectir sobre as picardias trocadas na imprensa entre uma ex e a nova ministra da Cultura, sobre a barafunda que vai pelo Teatro de S. Carlos. É claro que é da ópera que sempre se fala, mas, muitos sabem, que é a dança sempre a arte mais vilipendiada. Quando se juntaram ambas – uma companhia de dança nacional que precisa de uma urgente reestruturação que ninguém tem coragem de levar a cabo e uma estrutura complexa com cantores (quase todos contratados no estrangeiro) e os músicos do primeiro e único teatro lírico português – já se antevia o descalabro. É que o OPART de Mário Vieira de Carvalho/ Pires de Lima já tinha existido numa “versão” de 1983. Nessa altura a associação da ópera à dança trouxe tantos problemas para a CNB que acabou forçando a saída de Armando Jorge, o único director profissional, trabalhador e devotado à causa da dança que o grupo conheceu em mais de três décadas! Esta solução empresarial, como era de esperar, começou logo mal desviando avultadas verbas para a ópera “Das Marchen” e deixando na penúria a CNB cujo orçamento anual mal dá para pagar os salários de uma multidão de bailarinos em que metade estão inactivos todo o ano! Todos sabemos que cada ministro tem deixado as suas “marcas” na Ajuda – com excepção de Santana Lopes que começou por deixar muita gente com o cabelo em pé na Av. da República – e que um relato de todas as suas habilidades na governação, seguramente, daria um “best seller” que muito bem se poderia intitular “História Trágico-Cómica da Cultura em Portugal”.A recente polémica sobre o OPART, organismo que tutela o bailado e a ópera a nível oficial em Portugal, que muita tinta já fez correr – os melhores escritos foram os que apareceram em blogues (a verdadeira vox populi, livre e desvinculada) e não os de amigos e correligionários que sempre aparecem a justificar o injustificável e a dar a sua bênção para ajudar a manter um status quo que muito lhes convém – indicia que, uma vez mais, a Dança ainda muito vai penar. É que, para quem tem boa memória, é esta arte tão frágil, tão desprotegida e vulnerável a oportunismos e à mediocridade instalada, que sempre fica a perder. Está muita gente convencida que, em relação à dança, o facto de Gabriela Canavilhas, quando chegada ao governo do Eng. Sócrates, não ter extinto o OPART foi péssimo mas o maior problema situa-se, justamente, a montante.O primeiro passo em falso da Ministra da Cultura terá sido a nomeação de três pessoas da sua confiança – não da dos Portugueses – para o Conselho Nacional da Cultura. A reactivação de um organismo que só existia em papel poderia ter sido de elogiar pela grande utilidade que poderia vir a ter mas, o aparecimento (ao lado de uma inquestionável figura a nível intelectual, ético e humano, como é o professor Eduardo Lourenço) do alegado mentor do assassinato do Ballet Gulbenkian, de alguém que concordou publicamente com o encerramento de uma instituição onde esteve quase vinte anos e que por isso recebe de reforma mais de 6000 euros mensais e de um terceiro elemento que impôs na Companhia Nacional de Bailado (CNB) alguém que teve que devolver aos cofres do Estado 23.500€ (dos 3,6 milhões que desapareceram só no ano de 2004), parece demasiado grave para passar em claro!Seria bom recordar que o novo presidente do OPART e pessoa ligada à dança mas cuja falta de conhecimentos técnicos de gestão tem sido amplamente divulgada, protagonizou dois dos mais tristes e patéticos episódios da dança portuguesa das últimas décadas, ao ter nomeado (!) os seus sucessores nas companhias de dança que dirigiu. Para o Ballet Gulbenkian trouxe uma estrangeira que nunca tinha estado em Portugal impedindo de subir o seu “natural” sucessor português. A companhia, anos depois, acabaria por ser encerrada para imensa tristeza dos verdadeiros amantes da dança. Na CNB, depois de ter enterrado uma invenção santanista – o Instituto Português do Bailado e da Dança – e nomeado uma directora fantasma que nem “cabedal” teve para aguentar seis meses, lançou um concurso internacional – em que concorreram alguns portugueses e muitos estrangeiros com curriculum e nome feito – e, desrespeitando tudo e todos, nomeou um holandês que nunca tinha sido bailarino nem director de qualquer companhia. Um desastre anunciado que acabou abrindo as portas da CNB a outro lamentável incidente, a nomeação de uma “protegida” de Salavisa, Ana Caldas. Esta sua antiga patroa na Escola de Dança do Conservatório Nacional e em cujo desastroso mandato o Tribunal de Contas detectou (e condenou-a por) um rombo de 3,6 milhões de euros em apenas um dos cinco anos que esteve a dirigir a companhia com um turco que, casualmente, contratou nos corredores do edifício da Vitor Cordon, terá sido a mais confrangedora figura que passou pala CNB. Sabe-se que Mário Vieira de Carvalho, avisado a tempo de evitar o descalabro, nada fez para parar uma sangria de dinheiros com resultados abaixo da linha de água e um ambiente de cortar à faca no problemático Teatro Camões para onde a CNB foi desterrada! Voltando ao cerne da questão, em política – como, aliás, em tudo na vida – não basta à mulher de César parecer séria… ela tem que ter muitas outras qualidades. Ser magnânima, por exemplo. Há quem também afirme que em política (e na vida) é muito mais importante dar atenção ao que nos querem dizer os desconhecidos porque os amigos nem sempre dizem o que toda a gente, há muito, já enxergou. Diz-se que uma mulher de César por ter evitado ouvir a empregadagem sobre a comezinha gestão do lar acabou assassinada com a comida saída da sua própria cozinha.Culinária à parte, o mais chocante na política cultural em Portugal são as recorrentes (e péssimas) nomeações que resultam em sucessivos erros de “casting”, que se supõe servir para pagar favores e agradar a amigos, conhecidos e correligionários. Este tem sido o pior dos princípios aplicados e enquanto não se recorrer a concursos – honestos e decentes – para cargos de chefia nas instituições culturais que, inevitavelmente, vão distribuir e gastar o dinheiro dos contribuintes em situações muitas vezes com algum carácter que toca a subjectividade, ninguém será respeitado e os resultados não terão qualquer hipóteses de melhorar, continuando nós, em muitas áreas – dança incluída – na “coda” da Europa.

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Antonio Laginha

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