Editorial — 08 Agosto 2009

Prémios Gulbenkian 2009
Foram anunciados em Julho os Prémios Gulbenkian do ano de 2009.
Entre os galardoados estão a escola de artes circenses, Chapitô (Prémio Beneficência), e a bailarina-coreógrafa, Vera Mantero.
Independentemente da justiça e pertinência de ambas as distinções – poucos porão em causa o mérito do Chapitô ou o talento de Mantero – ficaria bem à Fundação Calouste Gulbenkian divulgar não só os critérios que presidem às referidas escolhas como a metodologia utilizada.
Depois do “assassinato” do Ballet Gulbenkian, bom seria que tudo o que tivesse a ver com Dança e que saísse daquela importante casa, fosse claro como a água e não desse a impressão que a Fundação, nos últimos tempos, tem vindo a “premiar” os que caíram nas graças deste ou daquele responsável, fazendo parte sempre das habituais capelinhas.
Para além dos critérios utilizados seria importante também conhecer os nomes colocados na calha. Ou apenas um se perfilou para cada uma das categorias?
Será que os vencedores foram os únicos nomes propostos por alguém que desejou premiar um artista do seu agrado, uma vez que no júri não pontuam quaisquer nomes ligados à Dança e nem todos eles têm particular vínculo às artes teatrais?
Sem pôr em causa a importância destes prémios, designadamente a forte componente monetária, parece que a FCG continua com o mesmo espírito de um passado recente em que era o inquestionável e todo-poderoso Ministério da Cultura em Portugal! Tendo-se comportado, tantas vezes, como "um estado dentro do Estado". Sobretudo quando concedeu benesses e prémios, ao longo de toda a segunda metade do século vinte.
Hoje todos querem ver mais transparência em tudo.
É que a Fundação que, apesar de ser de direito privado, como se sabe, é beneficiária do Estado a nível de impostos e por tal tem cada vez mais responsabilidades nas suas intervenções na sociedade civil.
 
Programação da CNB para 2010
A primeira coisa que qualquer pessoa minimamente atenta e que conheça a trajectória da CNB poderá dizer da próxima temporada da CNB – a nossa única companhia nacional – é que o melhor período artístico são as férias dos bailarinos no Verão de 2010!
Sem uma única reposição ou nova obra de “cortar o fôlego” tudo não passa de uma manta de retalhos sem qualquer fio condutor.
Em Outubro “dança-se em casa” um estafada obra-prima de Balanchine há muito em reportório: Serenade (Tchaikovski) e uma estreia do residente Lopes Graça. Em Dezembro e Janeiro surge a única peça clássica da temporada – “Giselle”. Mais uma remontagem de um obra em carteira, que antecede o batido van Manen e duas estreias do director Wellenkamp e do irrelevante Marco Cantalupo.
A cereja em cima do bolo só aparece em 28 de Maio, no Teatro das Figuras, em Faro – uma Homenagem aos Ballets Russes.
Alguém se esqueceu de avisar que o I Centenário da estreia dos Ballets Russes de Serge de Diaguilev se comemoraram em 19 de Maio, mas de 2009 (!) e, como se isso não bastasse, para esta inusitada incursão no universo de Stravinsky, Wellemkamp teve a peregrina ideia de contratar o desconhecido bailarino espanhol do Ballet de Munique, Cayetano de Soto, para coreografar mais uma Sagração da Primavera quando já existem umas duas em reportório e Olga Roriz se propôs criar uma nova versão para a CNB.
Como a CNB nada em dinheiro preferiu-se trazer um estrangeiro e atirar a coreógrafa portuguesa para o Centro Cultural de Belém que irá co-produzir a obra também em 2010. E mais dinheiro se irá gastar para contratar os 26 bailarinos que Roriz necessita!
Com uma programação assim só se encherá o Camões, como no tempo de Ana Caldas, com enxurradas de convites para cada novo espectáculo. E não muito longe vão os tempos em que Mark Depputer programava a dança contemporânea no Camões e a maioria dos espectáculos estavam às moscas ou se vendiam umas poucas dezenas de bilhetes.
Bons números para o OPART e a direcção da CNB meditarem. Estes sim, são verdadeiros.

Antigos directores condenados
Veio a público na imprensa diária o desfecho do julgamento de Ana Caldas.
Com a Justiça que temos ainda conseguiu começar por ser absolvida! Tendo o Ministério Público recorrido, a actual presidente do Clube Unesco foi condenada a “devolver” 10.00 Euros dos muitos milhões que se evaporaram.
Já Carlos Vargas, seu ex-subdirector na CNB e actual número dois do OPART – S. Carlos/Companhia Nacional de Bailado – perante a iminência de se sentar no banco dos réus preferiu assumir-se CULPADO tendo devolvido 23.500 Euros para evitar a barra do tribunal.
Coisa pouca para quem foi co-responsável pelo “desaparecimento” de 3,6 milhões de Euros – só no ano de 2004 – conforme se pode ler na auditoria levada a cabo pelo Tribunal de Contas e disponível na Internet.
Se isto foi só num ano – que segundo os próprios artistas da CNB foi, seguramente o menos despesista – imagine-se o que não voou em meia dúzia! E depois queixam-se que há pouco dinheiro e que é preciso fazer mais com menos!

Mais uma argolada do OPART

Depois do incidente com Elizabete Matos (que bateu a porta e se recusou a cantar a “Salomé” perante as inusitadas exigências do director artístico alemão, Christoph Dammann) o OPART/ S. Carlos voltou a por o pé na argola no encerramento do popularucho festivalzinho de Verão no pátio do Largo do S. Carlos.
Qual censor artístico do tempo da outra senhora, Carlos Vargas veio a palco anunciar o encerramento prematuro do Festival “Ao Largo” ao recusar a exibição de uma peça de teatro programada pelo Director do D. Maria II, Diogo Infante.
(ver em http://www.youtube.com/watch?v=7olnJl-ZPPI )

Os doutos dirigentes do OPART tiveram “dúvidas” e cancelaram um espectáculo. Depois deu-se o dito por não dito e pôs-se toda a gente a gritar Censura e Liberdade… qual “pesadelo de uma noite de Verão”!
Pena foi que o OPART, que tanto gosta de atirar números demasiado optimistas para a imprensa (os quais não pode justificar), tivesse manchado irremediavelmente o seu festivalzinho gratuito para os transeuntes do Chiado.
É que estas iniciativas pontuais são a melhor maneira de somar algarismos ao reduzidíssimo número de espectadores que passam anualmente pelo S. Carlos e, mais ainda, pelo desterrado Teatro Camões, “residência oficial” da perdida Companhia Nacional de Bailado, grupo que, nas últimas temporadas, se especializou em ser – erradamente – uma espécie de sombra perdida do extinto Ballet Gulbenkian!
(http://www.youtube.com/watch?v=HxGfuMNjYbY&feature=related)
 

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Antonio Laginha

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